No G20 o clima deixou 19 de um lado e Trump sozinho do outro

Vladimir Putin e o presidente dos Estados Unidos chegaram a acordo para a implementação de um cessar-fogo no sudoeste da Síria

Foi bom o clima entre os líderes, exceto quando os líderes chegaram à parte de meter o clima no papel. Contrariando a tradição de unidade nas declarações das reuniões do G20, ontem, em Hamburgo, os parágrafos sobre as alterações climatéricas alteraram a matemática habitual. Os 20 passaram a ser 19 mais um. Donald Trump, presidente dos EUA, ficou isolado no momento de escrever sobre o compromisso em cumprir o Acordo de Paris.

"G19 deixa Trump sozinho numa declaração conjunta sobre as alterações climáticas". Era assim que o britânico The Guardian titulava ontem o artigo sobre as conclusões da reunião de Hamburgo. Todos os países, com exceção dos EUA, fizeram questão de sublinhar que o compromisso sobre o clima assinado em 2015 em Paris é "irreversível". A chanceler alemã, Angela Merkel, confessou que considera que a posição dos EUA "é de lamentar". Apesar da divisão entre o G19 e Trump, os EUA comprometeram-se a trabalhar com outros países no sentido de encontrar e de utilizar combustíveis fósseis de forma mais eficiente e que sejam mais limpos.

O presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou ainda que a 12 de dezembro, em Paris, será organizada uma nova cimeira para reforçar as medidas ambientais. Macron disse também que não perdeu a esperança de convencer Donald Trump a voltar atrás no adeus ao Acordo de Paris. "Não vou deixar de tentar. É meu dever fazê-lo e faz parte da minha maneira de ser", explicou o presidente francês.

Apesar da intransigência que mostrou no que diz respeito ao clima, Donald Trump prometeu ontem que irá disponibilizar 639 milhões de dólares (cerca de 560 milhões de euros) para ajudar a alimentar as vítimas das guerras e das secas na Somália, Sudão do Sul, Nigéria e Iémen.

Merkel revelou que as discussões com os EUA tinham sido difíceis, mas, ainda assim, as 20 maiores potências mundiais conseguiram chegar a acordo para uma declaração conjunta sobre o comércio. O G20 continua a rejeitar o protecionismo económico, mas sublinha que as relações comerciais têm que ser benéficas para todos os envolvidos e também que os países podem adotar medidas para proteger os seus trabalhadores e indústrias.

Em conferência de imprensa, o presidente russo Vladimir Putin disse que tinha chegado a acordo com Donald Trump para que Rússia e Estados Unidos colaborem em matéria de cyber segurança. Putin garantiu ainda que a Rússia não interferiu nas eleições norte-americanas - apesar das conclusões em sentido contrários dos serviços secretos dos EUA - e que Trump aceitou e ficou "satisfeito" com os seus argumentos. O presidente russo disse estar convencido de que conseguiu estabelecer com Trump uma relação pessoal: "Na realidade é uma pessoa diferente daquela que aparece na televisão. É muito preciso, analisa os assuntos com rapidez e responde às perguntas que lhe são colocadas".

Putin e Trump chegaram a acordo para a implementação de um cessar-fogo no sudoeste da Síria. "É a primeira indicação de que os EUA e a Rússia são capazes de trabalhar em conjunto nesta questão", afirmou Rex Tillerson, o secretário de Estado norte-americano. Donald Trump considerou "tremendo" o encontro com Putin.

Sobre a situação na Ucrânia - em causa a anexação russa da Crimeia e os combates no Leste do país - Merkel disse que o processo de implementação dos acordos de Minsk irá continuar, mas admitiu que os avanços têm sido "muito, muito lentos" e que em alguns casos tem havido mesmo "retrocessos". Ontem de manhã, Merkel, Macron e Putin conversaram sobre a necessidade de um cessar-fogo na Ucrânia.

A cimeira do G20 do próximo ano, ainda sem datas definidas, terá lugar na Argentina. Japão e Arábia Saudita serão os anfitriões dos encontros de 2019 e 2020.

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