Brexit. Pode o homicídio de Jo Cox mudar a história?

No exterior do Parlamento, palco de homenagens a Jo Cox, acredita-se que morte de deputada anti-brexit influenciará o voto.

As letras a vermelho com a mensagem "juntos somos mais fortes" parece destacar-se entre as outras. Não é um cartaz da campanha do referendo para a saída do Reino Unido da União Europeia, mas uma frase entre tantas outras num mural na Praça do Parlamento, escrita em homenagem a Jo Cox, a deputada britânica que foi assassinada quinta-feira depois de um encontro com eleitores em Birstall. A tinta azul do "nunca serás esquecida" é menos resistente à chuva que caiu durante toda a noite e que obrigou os que ontem de manhã lhe prestaram tributo a esconderem-se debaixo dos chapéus. Ao lado há várias flores, entre as quais rosas brancas de Yorkshire, a sua região natal. São iguais às que os deputados usaram nas lapelas quando à tarde encheram a Casa dos Comuns para chorar aquela que disseram ser uma "estrela em ascensão" da política britânica.

"Ninguém muda o voto por causa de um louco", diz Julia, uma mãe e avó londrina que ficou em choque com o que aconteceu a Jo Cox mas que acredita que isso não terá impacto na hora de os britânicos decidirem o seu futuro na União Europeia. O "louco" de que fala é Thomas Mair, um homem de 52 anos, alegadamente um apoiante da extrema-direita com problemas mentais, que foi acusado de matar a deputada, atingindo-a com três tiros e múltiplas facadas. Sábado foi presente a tribunal, tendo apenas confirmado o seu nome (na primeira audiência dissera chamar-se "morte aos traidores"), devendo voltar a ser ouvido na quinta-feira, o dia do referendo.

"Acho que isto não vai alterar nada, posso estar errada, mas acho que este crime horrendo não teve nada a ver com isso", diz Christine, de Porthsmouth, depois de deixar uma mensagem no mural. "Não a conhecia, mas já tinha ouvido falar dela. Era uma excelente deputada. E isso é algo que não podemos dizer de todos", acrescenta.

O líder dos independentistas do UKIP, Nigel Farage, defensor do brexit, acusou ontem o primeiro-ministro britânico, David Cameron, de tentar "confundir" os eleitores, ligando o crime ao referendo para tirar benefícios para o "ficar". As sondagens, que mostravam uma tendência de voto crescente no brexit, parecem ter dado a volta nos últimos dias.

Mas, no caso da baronesa Sayyeda Warsi, o trocar a campanha do "sair" pela do "ficar" não se deve a Jo Cox mas ao discurso de "ódio e xenofobia" da campanha do brexit. O limite da antiga dirigente do Partido Conservador foi atingido com o cartaz dos refugiados, que lembrava a propaganda nazi, revelado por Farage. Ontem, após anunciar que mudava de posição, foi atacada pelos apoiantes do brexit, que alegaram não se lembrar dela a fazer campanha e falando numa "falsa deserção".

"Mudar o voto? Não me parece que vá afetar. Mas espero que as campanhas aproveitem para diminuir a retórica", contou Dina, uma grega que vive há 16 anos em Londres e que, apesar de não poder votar no referendo, usa um autocolante na lapela onde se lê "I"m in" (estou dentro). "Acredito na UE e penso que as pessoas não percebem porque é que foi fundada. Depois de duas guerras mundiais começadas no coração da Europa, a união foi a solução. E, mal ou bem, tem funcionado pelo menos nesse aspeto", diz.

Julia e Christine conhecem pessoalmente os deputados que as representam (são eleitos por círculo eleitoral). "Faz parte da nossa democracia. Eu cruzo-me com ele na rua e sei que posso falar com ele, se precisar", explica Julia. "Espero que a morte da Jo Cox não tenha um impacto nessa relação, na forma como os deputados fazem o seu trabalho", refere Christine.

O líder do Labour, Jeremy Corbyn, foi o primeiro a falar no tributo à deputada eleita há pouco mais de um ano por Batley & Spen numa Câmara dos Comuns onde não parecia caber mais ninguém, com os deputados sentados nas escadas e a galeria do público cheia. O trabalhista lembrou como ela defendia os refugiados e condenava a islamofobia. "A sua integridade e talento eram conhecidos por todos", disse, apelando ao fim dos discursos carregados de ódio que às vezes parecem marcar a política.

Na zona reservada aos convidados, o marido de Jo Cox procurava distrair os filhos, de 3 e 5 anos, lendo-lhes histórias e fazendo desenhos. Mas com um ouvido sempre atento nos discursos dos deputados, muitos deles amigos pessoais há décadas, limpando como eles uma lágrima que teimava em cair de vez em quando. Ao seu lado, os pais e a irmã da deputada, quase sempre de mãos dadas.

Ouviram David Cameron recordar que tinha conhecido "Jo", como era tratada por todos, quando ainda era líder da oposição e fez uma visita ao Darfur, onde ela estava a trabalhar com a Oxfam. "Há pessoas hoje no nosso planeta que estão vivas por causa da Jo", disse. E riram quando, por exemplo, uma deputada lembrou a noite que jantou com o casal na casa-barco deles e achou que já tinha bebido demais, até se aperceber que era o balançar do barco.

Mas a expressão mais repetida foi "mais em comum", proferida por Cox no seu primeiro discurso no Parlamento. "Estamos mais unidos e temos mais em comum uns com os outros do que as coisas que nos dividem", disse, referindo-se aos imigrantes. O referendo não foi falado, mas a xenofobia na campanha sim, com Stephen Kinnock, que partilhava o gabinete com ela, a atacar o cartaz de Farage. "A Jo sabia que a retórica tem consequências."

Enviada a Londres

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