Negócios e petróleo na viagem de presidente iraniano à Europa

Petróleo Brent abaixo dos 30 dólares após anúncio de que o Irão aumentará produção. Rouhani visita Roma e Paris na próxima semana e quer atrair 45,8 mil milhões de euros

O regime de Teerão anunciou ontem o aumento da produção em mais de 500 mil barris de petróleo por dia, 48 horas após terem sido levantadas as sanções ao Irão, empurrando para menos de 30 dólares o valor a que se transacionou ontem o barril nos mercados.

Teerão irá colocar, a breve trecho, 50 milhões de barris de petróleo no mercado, afirmando as agências que estavam a ser ultimados os preparativos para que uma frota de 25 superpetroleiros deixasse as refinarias iranianas com este volume.

Reflexo destas notícias foi a queda do preço do petróleo Brent, que foi ontem transacionado a 28 dólares o barril, o que sucede, pela primeira vez, desde 2003. A decisão iraniana foi justificada pelo presidente da petrolífera nacional, Rokneddin Javadi, explicando que se o país não o fizesse, "outros conquistariam a sua quota de mercado dentro de seis meses a um ano". Antes das sanções, o Irão produzia 2,5 milhões de barris/dia (valores de 2011), tendo esta média caído para um milhão de barris/dia nos últimos anos. Mas, em 2014, segundo números da Agência de Informação de Energia (EIA, norte-americana), a produção foi de 3,4 milhões de barris/dia, dos quais 1,1 milhões foi exportada. Este último valor é o registado pela OPEP, da qual o Irão é Estado membro. A renda do petróleo corresponde a 25% da receita total do Orçamento de Estado, conforme se refere no projeto ontem apresentado por Rouhani no Parlamento de Teerão; na Arábia Saudita, corresponde a 70% do Orçamento nacional.

O anúncio do incremento da produção iraniana coincidiu com a confirmação da visita que o presidente Hassan Rouhani visitará a Itália e a França na próxima semana. Na sua passagem por Roma e Paris, o dirigente iraniana espera atrair investimentos e apoios financeiros na ordem dos 50 mil milhões de dólares (45,8 mil milhões de euros). Investimentos e apoios fundamentais para a modernização e desenvolvimento das infraestruturas no setor energético e noutras áreas para competir, de forma eficaz, com os outros principais exportadores de petróleo e gás natural.

Um sinal do que irá suceder nos próximos meses com as relações Irão-Europa foi dado, no domingo em Bruxelas, pelo comissário europeu para a Energia, Miguel Arias Cañete. Este anunciou o envio de uma missão técnica em fevereiro ao Irão para avaliar as necessidades técnicas do setor petrolífero do país.

As empresas da UE têm aqui uma importante vantagem sobre as americanas, que têm a esfera de ação circunscrita no que respeita às relações com o Irão, permanecendo em vigor restrições que deixaram de se aplicar às congéneres europeias.

Uma situação que não irá conhecer alterações significativas. Cerca de 200 personalidades e empresas permanecem sujeitas a sanções de vários tipos. E, noutro plano, foram aplicadas novas sanções a onze figuras do regime de Teerão e empresas iranianas, de algum modo, envolvidas na recente realização de um teste de um míssil balístico por Teerão. Onze personalidades e empresas foram agora interditas de utilizarem o sistema bancário americano. Sanções já classificadas como "ilegítimas" pelo Irão. O argumento é que os seus mísseis balísticos não têm capacidade de transporte de ogivas nucleares.

Por outro lado, Washington tem uma longa e estratégica relação com o arqui-inimigo do Irão, a Arábia Saudita, uma realidade que não deve mudar no futuro previsível. Mesmo que os EUA entendam hoje que o regime de Teerão é indispensável para os presentes e futuros equilíbrios em todo o Médio Oriente. Washington encontra-se ainda pressionado por Israel, cujo governo acusa o Irão de tentar dotar-se da arma nuclear

Analistas antecipam que a presença reforçada do Irão no mercado energético, numa conjuntura em que o principal exportador mundial, a Arábia Saudita, insiste em não restringir as exportações como forma de manter o petróleo a baixo preço, irá atirar este para valores ainda mais baixos ao longo do corrente ano. Por exemplo, uma estimativa divulgada ontem pelo banco JP Morgan Chase coloca o Brent nos 25 dólares até à primavera. Em contrapartida, para a OPEP, os países produtores irão reduzir a oferta na segunda metade de 2016, estabilizando o preço, ainda que esta continue a ser superior à procura.

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