"Não estamos a acelerar uma Irlanda unida por causa do brexit"

Em Lisboa, o ministro dos Assuntos Europeus irlandês reconhece que não é o momento certo para um referendo à reunificação com a Irlanda do Norte.

Na residência da embaixadora Orla Tunney no Restelo, Dara Murphy conta ao DN como o brexit uniu os 27. Com a Irlanda a depender das trocas comerciais com o Reino Unido, o ministro dos Assuntos Europeus garante ainda que a saúde da economia britânica é importante para Dublim "e para todos na UE".

Bruxelas emitiu um comunicado a garantir que a Irlanda do Norte pode automaticamente juntar-se à UE como parte de uma Irlanda unida. O brexit acelerou o cenário da reunificação?

Não, não acho que tenha acelerado. Há um acordo internacional entre o Reino Unido e a Irlanda que diz que se as pessoas da Irlanda - em ambas as partes - assim o escolherem no futuro, através de um referendo democrático, há a possibilidade de uma Irlanda unida. O ponto de partida aqui é que não há uma disputa entre o governo britânico e o governo irlandês. Os acordos de paz puseram fim a um período na Grã-Bretanha e na Irlanda em que a violência fez mais de três mil mortos. E apesar de ter havido alguns desafios nos últimos 20 anos, este foi um dos maiores sucessos na história da UE. Mas claramente, hoje, em maio de 2017, estamos a olhar para as coisas à luz do brexit. O governo irlandês sentiu que era importante haver um texto explícito. [Uma reunificação] seria semelhante à alemã. A Alemanha de Leste tornou-se parte imediata da Alemanha e parte também da UE. Essa é a posição, o texto apenas a reafirma. O governo irlandês, na verdade, não acha que este seja o momento certo para um referendo a uma Irlanda unida, não acreditamos que estejam reunidas as condições. Por isso, não estamos a acelerar uma Irlanda unida por causa do brexit.

Um referendo à reunificação não está portanto no horizonte?

Não. É muito improvável que aconteça a curto prazo. Os desafios que os povos da Irlanda e do Reino Unido enfrentam por causa do brexit são significativos. Queremos trabalhar com os nossos amigos no Reino Unido, com os nossos parceiros na UE para proteger o processo de paz, para proteger a Zona Comum de Viagem. Entre as nossas ilhas - muito antes de aderirmos à UE em 1973 - já tínhamos uma zona de viagem comum. Tem centenas de anos. As fronteiras que existiam na Irlanda não eram entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda, eram entre comunidades - os muros da paz que mantinham as comunidades separadas. Há 1,8 milhões de habitantes na Irlanda do Norte. Todos têm direito - ao abrigo do Acordo de Sexta-Feira Santa - a passaporte irlandês, ou seja, passaporte da UE. Há ainda cerca de um milhão de irlandeses de primeira geração a viver na Grã-Bretanha, na outra ilha. Mais, 10% dos habitantes da Grã-Bretanha têm direito a cidadania irlandesa por terem um pai ou avô irlandês. São mais seis ou sete milhões.

Muitos já pediram passaporte irlandês. Tem números?

Não. Os nossos serviços de emissão de passaportes estão demasiado ocupados para os contar neste momento! Mas tem havido uma pressão significativa. Sempre dissemos que o brexit ia ser mau para a Irlanda, Norte e Sul, mau para a UE e mau para o Reino Unido. Mas agora eles fizeram a sua escolha. Respeitamo-la. Não gostamos dela, achamos que vai trazer desafios enormes para os irlandeses, para os britânicos e para a Europa. Mas estive no Luxemburgo e em Bruxelas e nunca vi tanta união. Não só entre os 27 mas também entre as três instituições europeias, o que é quase único.

O brexit conseguiu o impossível: unir a União Europeia?

Tem sido uma estranha consequência de um acontecimento obviamente divisivo dentro da UE: o primeiro Estado membro que decidiu sair. E isso causa danos. Mas nos restantes 27 - e estive em duas dezenas de países, alguns outros foram à Irlanda - o que sinto é que a UE está mais forte agora porque quanto ao princípio de se devemos ter uma UE? A resposta é sim. Se podemos melhorar a UE? Claro que podemos e temos de trabalhar para isso. Infelizmente a pergunta no Reino Unido foi: fora ou dentro?

Acha que esta união dos 27 vai durar? Se houver negociações bilaterais entre os países e o Reino Unido?

Acho que não devia haver negociações bilaterais. Isso era má ideia. Devemos ter discussões bilaterais entre os 27 e chegar a um entendimento e depois deixar Michel Barnier [principal negociador da UE para o brexit] e a sua magnífica equipa negociar por nós [com Londres]. Mas uma das melhores coisas que saíram deste processo é a UE ter querido que fosse transparente. As pessoas querem transparência. Publicar as nossas posições, dar acesso às pessoas àquilo que está a acontecer. A confiança das pessoas é o mais importante.

Qual seria o maior obstáculo a uma Irlanda unida?
Neste momento mais de metade das pessoas não quer uma Irlanda unida. Isso é algo que temos de respeitar. Historicamente, a maioria das pessoas na Irlanda do Norte preferiu ficar no Reino Unido. É o seu direito, a sua escolha democrática. O governo irlandês concordou, o povo irlandês concordou em referendo. Já não reivindicamos a Irlanda do Norte. Mas queremos ver ao longo do tempo um caminho democrático e pacífico para a união. Por isso sentimos que esta não é a melhor altura. Queremos trabalhar para que a economia da Irlanda, Norte e Sul, seja forte. E isso vai ser um desafio porque temos um enorme relação comercial com o Reino Unido: 1,2 mil milhões de bens por semana atravessam o mar entre as duas ilhas. É importante para nós que a economia britânica continue forte. Mas afetaria todos os países.

A economia irlandesa cresceu 5,2%, a crise foi ultrapassada e esquecida?

Não foi esquecida. Há quatro anos o desemprego era de 15%, agora de 6,5%. Nos últimos quatro anos fomos a economia da OCDE que mais cresceu. E mais importante: quem saiu do país pode agora voltar. Mas ainda temos problemas. Os nossos bancos estão a recuperar mas não está tudo resolvido. Como foi uma crise do imobiliário, o sector ficou destroçado e demora a reconstruir-se. Mas no próximo ano, devemos ter as contas equilibradas, a troika saiu há uns anos, a nossa dívida baixou de 121% do PIB para metade. Perdemos quase uma década. Mas a história da Irlanda deve-se ao povo irlandês. Muitos perderam dinheiro, muitos perderam o emprego. Mas felizmente o país começou a reconstruir-se. E aprendemos uma lição. O essencial para uma pequena ilha no Atlântico é ser competitiva. Temos de investir na educação. A população está a crescer, é uma das mais jovens na UE. Por isso o brexit é tão lamentável.

Quando se fala da Irlanda ser competitiva, fala-se sempre dos impostos e do investimento, mas há mais segredos para o sucesso?

Temos as mesmas regras há mais de 40 anos. A OCDE diz que é o melhor e mais simples sistema que existe. Desde que tenha uma empresa, seja qual for, a taxa é de 12,5%. As empresas todas lhe dirão que o mais importante é o acesso à mão-de-obra. Há 40 milhões de americanos que dizem ter origem irlandesa, por isso a proximidade cultural é muito importante. Também o nosso sistema de ensino, onde os filhos dos empresários podem ter aulas em inglês. É uma economia muito aberta. E como muitos irlandeses tiveram de sair, ir para os EUA, para o Canadá, somos acolhedores. As pessoas integram-se muito bem na Irlanda. Todas as principais empresas de tecnologia do mundo têm as sedes na Irlanda. Por isso outras empresas podem ver o ecossistema que temos. Se for uma empresa de tecnologia, isso dá-lhe confiança para ir para a Irlanda. E trabalhamos muito nas parcerias com as universidades.

Trabalhou por conta própria, viveu a crise em primeira mão. Imaginava que algo assim podia acontecer?
Foi uma surpresa. Em 2007 a economia irlandesa estava excecionalmente bem. Depois surgiram as dificuldades no sector do imobiliário e foi um efeito dominó. No meu negócio - tinha dois restaurantes, fornecia o equipamento para catering e tinha umas lojas - tive de fechar algumas coisas. Não fui tão afetado como outros. Consegui reabilitar-me. Trabalhar por conta própria pode ser muito solitário. Foi uma boa experiência de vida... pela qual dispenso voltar a passar. Mas o que não nos mata torna-nos mais forte.

Com o que aconteceu nos EUA e eleições em França, Alemanha e Reino Unido ainda este ano, a proteção de dados passou a ser uma prioridade na Europa?

Fui o primeiro ministro para a Proteção de Dados na Europa. E a ideia era falar com os governos enquanto negociávamos as novas regras europeias. Agora completámos as negociações que entram em vigor a partir do verão de 2018. Vai dar à UE um conjunto de regras ao nível da proteção de dados. Depois da paz, a criação de um mercado comum foi o maior sucesso da UE. Livre circulação de bens e pessoas. Mas não criámos um mercado comum de serviços ou um mercado comum digital. A Irlanda apoia a Comissão Europeia e este conjunto de regras muito ambiciosas. Temos de garantir que as pessoas podem transportar os seus dados de forma segura. Isso é importante para países com muitas pessoas no estrangeiro, como Portugal. Precisamos de ambição na Europa. Temos a capacidade ideológica para equilibra a liberdade de expressão e a proteção da privacidade. Ambas são importantes. Esse é o próximo desafio.

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