13 milhões de dólares da ONU para ajudar Moçambique e Comores

Após a passagem do ciclone Kenneth, situação em Cabo Delgado continua muito crítica. Inundações e derrocadas continuam em Moçambique.

As Nações Unidas anunciaram um financiamento no valor de 13 milhões de dólares (mais de 11 milhões e 600 mil euros) em fundos de emergência para apoiar Moçambique e as ilhas Comoros, para recuperar dos efeitos da passagem do ciclone Kenneth. O anúncio foi feito no domingo pelo chefe da equipa humanitária da ONU, Mark Lowcock:

De acordo com a agência Reuters, o dinheiro irá servir fundamentalmente para garantir comida e água, bem como reparação das infraestruturas afetadas.

Esta ajuda surge num momento em que se teme que a situação em Moçambique possa piorar devido ao agravamento da chuva e à subida dos níveis da água, segundo afirmou o porta-voz do Gabinete para a Coordenação dos Assuntos Humanitários (Ocha), Saviano Abreu, citado pela BBC. O porta-voz confirmou que a situação nas cidades de Macomia e Quissanga, no continente, na mesma faixa central da província de Cabo Delgado, é bastante crítica, acrescentando que também há preocupações com a ilha do Ibo.

Ondas de até quatros metros de altura são esperadas, e as organizações de ajuda temem que as chuvas piorem. "Estamos muito preocupados porque, de acordo com as previsões, espera-se chuvas fortes nos próximos quatro dias", disse no domingo Deborah Nguyen, porta-voz do Programa Mundial de Alimentos da ONU, à agência de notícias AFP. "Esperamos que as chuvas sejam duas vezes mais do que as que acompanharam o ciclone Idai", acrescentou.

Em Macomia estão cerca de metade das 166 804 pessoas afetadas pelo ciclone e também metade das cerca de 35 mil casas destruídas total ou parcialmente. As hortas de agricultura de subsistência foram muito afetadas nesta área de Moçambique que não tem uma segunda colheita anual e em que a próxima só deverá acontecer em abril de 2020, pelo que o risco de insegurança alimentar aumentou. Dados oficiais indicam que 31 256 hectares de culturas foram danificados. Abrigos e produtos para purificação da água são outras prioridades, porque muitas das pessoas afetadas estão a dormir ao relento ou sob chapas e plásticos.

Helicópteros à espera para intervir

As autoridades moçambicanas esperam uma melhoria das condições meteorológicas, esta segunda-feira, para poderem começar a usar helicópteros na distribuição de ajuda a zonas do norte do país de difícil acesso após o ciclone Kenneth, que atingiu o país na quinta-feira passada com ventos de 220 km/h que devastaram aldeias inteiras.

"Esperamos ter, pelo menos, dois helicópteros que nos possam ajudar a levar carga alimentar para o distrito do Ibo", ilha no arquipélago das Quirimbas, disse no domingo à noite, em Pemba, a ministra da Administração Estatal e Função, Carmelita Namashulua, um dos membros do governo destacados para apoiar as ações humanitárias. A governante falava em Pemba, capital da província atingida pelo ciclone, Cabo Delgado, quase um quadrado com 83 mil quilómetros quadrados, um pouco menos que a área de Portugal Continental.

A ilha do Ibo tem cerca de 15 mil pessoas afetadas, muitas abrigadas na fortaleza da antiga capital da província, depois de 4600 casas terem ficado parcialmente destruídas na noite de quarta-feira - resultando em duas das cinco mortes registadas até agora por causa do ciclone. Chegar ao Ibo é um desafio porque a chuva forte danificou sete estradas da província para quais não há alternativas, a maioria das quais em terra batida.

Centro de tratamento de cólera em Pemba é reativado

O centro de tratamento de cólera de Pemba vai começar esta segunda-feira a ser reativado, por prevenção, devido às águas estagnadas. "Com a chuva temos que reativar o centro de tratamento de cólera. Vamos começar", referiu António Assane, coordenador da resposta do Estado moçambicano na área da saúde após a tempestade. O centro já tem funcionado noutros anos na capital da província de Cabo Delgado, região atingida pelo ciclone, dado que a doença surge periodicamente na época das chuvas (de novembro a abril) na província.

Em Pemba, os deslizamentos de terra são uma preocupação crescente no bairro de Mahate, disseram as autoridades regionais de Ocha, enquanto no bairro de Natite as casas começaram a desmoronar. As Nações Unidas vão fazer chegar um avião de carga a Pemba com mais equipamento para apoiar as ações humanitárias, disse Sebastian Rhodes Stampa, dirigente do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitário (OCHA).

Na cidade já se encontra uma equipa de busca e salvamento de bombeiros brasileiros que está pronta a atuar no caso de inundações repentinas deixarem populações isoladas, uma vez que continua a haver ameaça de chuvas fortes nos próximos dias. Esta equipa ajudou no domingo a transportar cerca de 350 pessoas em bairros inundados em Pemba, bem como na aldeia de Mieze, nos arredores da cidade. As comunicações móveis e energia ainda não chegam a todas zonas que estavam cobertas antes do ciclone nos distritos afetados e uma parte da cidade de Pemba continua sem energia.

Guterres poderá visitar Moçambique

Em nota emitida pelo seu porta-voz, Stéphane Dujarric, e divulgada pela ONU, António Guterres apresentou também as suas condolências e solidariedade às famílias das cinco vítimas mortais, ao governo e ao povo moçambicano. Guterres garantiu que a ONU e os seus parceiros humanitários estão a apoiar as autoridades locais na avaliação das necessidades e apelou à comunidade internacional para que disponibilize financiamento para garantir a ajuda necessária. O secretário-geral da ONU deverá visitar o país "no mais curto espaço de tempo".

O Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC) estima em 168 219 o número de pessoas afetadas pelo ciclone Kenneth, na província moçambicana de Cabo Delgado, segundo os últimos dados hoje disponibilizados, que mantêm cinco vítimas mortais em Pemba. As famílias afetadas são 35 290, segundo o ponto de situação que usa dados preliminares de sábado.

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