Mueller sob ataque a dias de ouvir advogados de Trump

Equipa jurídica do presidente vai reunir-se com o procurador especial que investiga interferência russa nas presidenciais de 2016. Democratas temem fim da investigação.

A campanha de Trump e um dos seus advogados acusaram ontem o procurador especial Robert Mueller - que investiga alegadas cumplicidades entre colaboradores próximos do presidente dos Estados Unidos com entidades russas durante as eleições de 2016 - de ter obtido ilegalmente "milhares" de mensagens eletrónicas da equipa de transição do primeiro.

As acusações surgiram a poucos dias de um encontro entre a equipa jurídica particular do presidente com Mueller, e seus colaboradores, para debaterem as próximas fases da investigação em curso.

Os desenvolvimentos de ontem sugerem, ainda que isso tenha sido desmentido, que o presidente e seus próximos estariam apostados em afastar Mueller. Um dos advogados da Casa Branca, Ty Cobb, garantiu à CNN e ao Politico que, "como tem sido repetido de forma enfática, nos últimos meses, não há qualquer intenção de pôr fim ao trabalho do procurador especial". Mas para o principal democrata na comissão dos serviços de informações da Câmara dos Representantes, Adam Schiff, há uma estratégia para enfraquecer a posição de Mueller ou mesmo acabar com a investigação. Para outra democrata, Jackie Speier, Trump quer afastar o procurador especial antes do Natal. O pretexto seria a recente divulgação pelo Departamento de Justiça de mensagens de agentes do FBI, envolvidos na investigação sobre a interferência russa nas presidenciais de 2016, revelando a preferência pela vitória de Hillary Clinton.

Speier, falando sexta-feira à noite ao site Newsroom, afirmou que "correm rumores no Congresso de que o presidente irá proferir um discurso relevante" até dia 22, concluindo pela necessidade de afastar Mueller. Para a democrata, e para alguns comentadores políticos, esta decisão abriria caminho a "uma crise constitucional", por um lado, e a "um esforço para destituir o presidente", por outro, garantiu Speier.

Trump não pode demitir diretamente Mueller, mas pode indicar ao procurador-geral adjunto, Ross Rosenstein, que supervisiona a investigação, que o faça. O procurador-geral Jeff Sessions pediu escusa do caso, alegando possível conflito de interesses.

As mensagens agora obtidas pela equipa de Mueller pertencem a 13 das principais figuras do grupo que preparou a transição de Trump para a Casa Branca.

Para o advogado Kory Langhofer, a requisição das mensagens à Administração de Serviços Gerais (GSA, na sigla em inglês; entidade utilizada para alojar os endereços utilizados pela equipa de transição de Trump entre o período da eleição e a tomada de posse e a cuja guarda ficaram as comunicações realizadas) foi feita em violação de vários princípios legais e, nomeadamente, da 4.ª Emenda à Constituição americana. A 4.ª Emenda estipula que buscas ou apreensão de documentos só devem ocorrer com mandato judicial, suportado no princípio de "causa provável". Tese corroborada num comunicado da equipa de transição, que ainda existe oficialmente sob a designação Trump for America (TfA). O que não terá sucedido.

Peter Carr, um dos elementos da equipa de Robert Mueller, desmentiu as alegações de Langhofer (feitas numa carta de sete páginas à comissão de supervisão do Congresso), declarando à UPI que "quando obtivemos as mensagens, no quadro da investigação criminal que efetuamos, fizemo-lo com autorização do proprietário da conta ou através dos meios processuais apropriados".

Um dos responsáveis da GSA, Lenny Loewentritt, defendeu a atuação da agência, afirmando que a equipa de transição sabia que as mensagens poderiam ser entregues, em caso de investigação, logo, "nenhum princípio de privacidade podia ser dado como adquirido".

Até agora, quatro pessoas envolvidas na campanha de Trump ou na equipa de transição foram atingidas pela investigação dirigida por Mueller, diretor do FBI entre 2001 e 2013. Foram eles o general na reserva Michael Flynn, que teve de ser afastado do cargo de conselheiro de segurança nacional, o ex-diretor de campanha de Trump, Paul Manafort, e um seu colaborador, Rick Gates, e ainda George Papadopoulos, um elemento da campanha. O segundo e terceiro, por terem ocultado ligações ao antigo presidente ucraniano Viktor Yanukovych, pró-russo; o primeiro, por ter escondido ao FBI encontros com o representante diplomático de Moscovo nos EUA e compromissos profissionais na Rússia; o último, por ter ocultado ao FBI os encontros que manteve com elementos ligados ao governo russo.

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