MPLA com a festa em suspenso

Contadas 16 692 das 25 474 mesas de voto, partido no poder desde 1975 volta a vencer, à frente da UNITA e da CASA-CE. Isaías Samakuva, o candidato do principal partido da oposição, diz terem indicações bem diferentes

Nem parecia que os primeiros resultados provisórios já tinham sido divulgados. Na sede nacional do MPLA, em Luanda, os poucos elementos do partido que se encontravam no rés-do-chão do edifício continuavam, noite dentro, agarrados às televisões, à espera de mais informação por parte da Comissão Nacional Eleitoral (CNE). No momento mais aguardado desde a votação de quarta-feira, a porta-voz da CNE divulgou os resultados quando estavam contados mais de metade dos votos. Nessa altura, o MPLA contava com 64,57%, enquanto a UNITA reunia 24,4% e a coligação CASA-CE apresentava-se como terceira força mais votada, com 8,56% dos votos.

Os números não foram motivo de festa. Na cidade, o dia terminou calmo e nem as conhecidas "maratonas" do MPLA (festas nos bairros que se prolongam por muitas horas) animavam a Cazenga, um dos maiores bairros em Luanda.

Com a festa em suspenso, o secretariado político do MPLA voltou a reunir-se, ontem à noite, e, no final, o secretário para os assuntos políticos eleitorais, João Martins, afirmou que o partido acompanha com "naturalidade" o apuramento dos resultados, estranhando o comportamento dos atores políticos de outros partidos. O apelo à serenidade repetiu-se quer do lado do MPLA quer da UNITA, numa Luanda bem diferente da de outros dias. Depois da tolerância de ponto concedida no dia da votação, esta quinta-feira voltou a registar pouco movimento, com o trânsito a fluir, anormalmente, sem grandes demoras.

Uma jovem que prefere guardar o anonimato nota que a cidade esteve "bastante deserta" nos últimos dois dias e, como muitos amigos, ela fez compras para cinco dias, "para qualquer eventualidade. Porque sabemos que a paz vai continuar, mas é a primeira vez que mudamos de presidente nestes anos todos. Há algum receio" e as pessoas preferem resguardar-se em casa. Muito antes do dia da eleição, as famílias abasteceram-se de massas, arroz, latas de atum, algumas trataram também de encher os depósitos de combustível. Algumas empresas pagaram os salários mais cedo, revela a jovem de 25 anos, que não para de receber chamadas de familiares que vivem fora do país. "Querem saber se está tudo bem, se há novidades. As pessoas estão muito ansiosas."

A trabalhar em Luanda, a jovem diz estar "presa à televisão e às redes sociais, com o rádio sempre ligado", à espera de notícias, por se tratar de uma "eleição histórica, que encerra um capítulo e começa outro". O novo capítulo será de "provações", uma certeza partilhada pelos amigos da mesma idade, que lhe chamam a "fase da peneira". Este "é o tempo dos angolanos competentes e com formação se afirmarem, de Angola deixar de estar dependente do petróleo, de terminar ou pelo menos reduzir a corrupção". Seja quem for o presidente, "terá uma tarefa árdua" e, como costumam dizer nas conversas entre amigos, "vai começar a trabalhar para as próximas eleições desde o primeiro momento".

Antes mesmo de se conhecerem os resultados provisórios, o presidente da UNITA, Isaías Samakuva, tinha afirmado ao DN e à TSF que o partido tem indicações bem diferentes, com uma "tendência que coloca o MPLA em desvantagem", sobretudo nas áreas com mais eleitores. O candidato do maior partido da oposição denuncia várias irregularidades no ato eleitoral, não excluindo a possibilidade de contestar os resultados. À hora do fecho desta edição, nem a UNITA tinha assumido a derrota nem o candidato do MPLA, João Lourenço, tinha proferido o discurso da vitória, apesar dos resultados da CNE.

Enviada DN/TSF a Luanda

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