Suspeito no assassínio de Marielle temia ser morto e domingo foi mesmo. 11 perguntas e respostas sobre o caso

Adriano Nóbrega, suspeito de liderar milícia especializada em crimes por encomenda, temia ser morto para "queima de arquivo", disse o próprio, na quarta-feira, ao seu advogado. E, no domingo de manhã, foi mesmo. Mas qual a ligação dele com a execução de Marielle? E com a família Bolsonaro?

Ao início da manhã de domingo (9 de fevereiro), o Brasil foi surpreendido com a notícia da morte de Adriano Nóbrega, até então um dos foragidos mais mediáticos do país, em função do suposto envolvimento no caso da execução de Marielle Franco. Nóbrega, 43 anos, foi morto após troca de tiros com a polícia em Esplanada, cidade na região rural do estado da Bahia, segundo informações das autoridades. Qual afinal a ligação dele ao crime contra a vereadora carioca? E que relações são essas, tão faladas, com o presidente da República Jair Bolsonaro e família? Porque é que o advogado dele disse acreditar que a ação que o matou foi "queima de arquivo"? O que se sabe - e o que não se sabe - até agora do assassinato de Marielle e do motorista Anderson Gomes.

QUEM ERA ADRIANO NÓBREGA?

Ex-capitão do BOPE, a tropa de elite do Rio de Janeiro, foi exonerado da polícia em 2014 por atuar em paralelo como segurança da máfia do jogo ilegal carioca. Foi, entretanto, preso três vezes, acusado de homicídio e tentativa de homicídio, e solto outras três. É considerado o chefe da milícia (máfia que em troca de oferta de proteção à população pratica extorsão) mais antiga e mais letal do Rio, a Escritório do Crime, especializada em assassinatos por encomenda. Estava foragido, não por causa do caso Marielle, mas por ser um dos alvos de uma operação contra milicianos em janeiro do ano passado.

COMO FOI MORTO?

De acordo com informações de quem o matou, ou seja, as polícias da Bahia e do Rio em operação conjunta, morreu já num hospital perto de Esplanada, onde ficava a propriedade rural que lhe servia de esconderijo, depois de se envolver em tiroteio com agentes. Na propriedade rural, que pertencia a Gilson de Dedé, vereador local pelo partido de Jair Bolsonaro à época da sua eleição, o PSL, a polícia encontrou 13 telemóveis e quatro armas.

QUAL A LIGAÇÃO DELE À EXECUÇÃO DE MARIELLE?

Ronnie Lessa e Élcio Queiroz, os autores materiais do crime segundo a polícia, são membros da Escritório do Crime, a milícia controlada por Nóbrega.

QUAL A LIGAÇÃO DELE À FAMÍLIA BOLSONARO?

Nóbrega foi colega no 18º batalhão da polícia militar carioca de Fabrício Queiroz, assessor de Flávio Bolsonaro suspeito de comandar um esquema de corrupção chamado "rachadinha" - desvio do salário dos outros assessores -, no gabinete do então vereador do Rio e hoje senador. Entre os assessores de Flávio, que é o primogénito de Jair Bolsonaro, estavam a mãe e a filha de Nóbrega. Flávio distinguiu Nóbrega em 2005 com a medalha Tiradentes - a mesma que Jorge Jesus, treinador português do Flamengo, recebeu há dois meses - e elogiou-lhe "a galhardia e o brilhantismo" dois anos antes durante a apresentação de uma moção de louvor em sua honra. Em 2005, na Câmara dos Deputados, em Brasília, o então deputado Jair Bolsonaro foi ao palanque defender Nóbrega, a enfrentar acusação de homicídio: "Um dos coronéis mais antigos do Rio de Janeiro compareceu fardado, ao lado da Promotoria, e disse o que quis e o que não quis contra o tenente [Nóbrega], acusando-o de tudo o que foi possível, esquecendo-se até do fato de ele [Nóbrega) sempre ter sido um brilhante oficial e, se não me engano, o primeiro da Academia da Polícia Militar."

O QUE DIZ O ADVOGADO DELE?

Paulo Catta Preta afirma que recebeu, pela primeira vez, um telefonema do seu cliente na última quarta-feira (5 de fevereiro). Na conversa, Nóbrega disse temer que a ação policial das polícias baiana e carioca não era para o prender mas sim para o matar. "Falou em queima de arquivo", segundo o advogado. Maurício Barbosa, superintendente da polícia da Bahia, disse que essa versão era "estapafúrdia".

COMO FOI MORTA MARIELLE?

Marielle Franco, vereadora do Rio pelo PSOL, partido de extrema-esquerda, e o motorista Anderson Gomes foram mortos a dia 14 de março de 2018, após um debate no centro da cidade. Por volta das 21 horas, quando ela, o motorista e a assessora Fernanda Chaves deixaram o local de carro, outro veículo seguiu-os. Cerca de 30 minutos depois, foram disparados 13 tiros desse veículo. Marielle foi atingida por quatro tiros na cabeça, Anderson por três tiros nas costas, e Fernanda sobreviveu sem ferimentos graves.

QUAL A MOTIVAÇÃO?

Colaboradora de Marcelo Freixo, deputado federal do PSOL que investigou as milícias no Rio de Janeiro, Marielle foi morta por supostamente ameaçar essas milícias, disse, ainda em dezembro de 2018, o secretário de Segurança do Rio, general Richard Nunes.

E QUE ARMA FOI USADA?

A arma usada para assassinar Marielle e Anderson era uma submetralhadora de uso restrito no Brasil. Cinco unidades desse modelo desapareceram do arsenal da Polícia Civil, segundo recontagem efetuada em 2011. As balas eram de um lote que foi vendido à Polícia Federal em 2006.

COMO DECORREU A INVESTIGAÇÃO?

Após muitas atribulações no comando das operações, dois dias antes de o crime completar um ano, Ronnie Lessa, apontado como o autor dos disparos, e Élcio Queiroz, suspeito de ser o motorista do carro usado no crime, foram presos. Lessa é um polícia reformado, Queiroz foi expulso da corporação. Os dois foram denunciados por homicídio qualificado de Anderson e Marielle e pela tentativa de homicídio de Fernanda Chaves. Ambos têm ligação à Escritório do Crime, milícia liderada por Nóbrega.

ONDE A FAMÍLIA BOLSONARO ENTRA NA HISTÓRIA?

O nome do hoje presidente da República tem sido associado ao caso porque há evidências de ligação próxima da sua família à de Adriano Nóbrega, como já foi detalhado acima, mas também a Ronnie Lessa, autor material dos disparos, que é vizinho de condomínio de Jair e Carlos Bolsonaro, segundo filho do presidente. E a filha de Lessa namorou Renan, o quarto dos filhos de Bolsonaro. Élcio Queiroz, por sua vez, partilhou nas redes sociais foto sua abraçado a Jair Bolsonaro em campanha. Finalmente, o porteiro do condomínio em causa disse em depoimento que, no dia do crime, foi Bolsonaro quem autorizou Élcio a entrar no local para visitar Ronnie pelo intercomunicador. Mais tarde o porteiro disse que pode ter-se confundido.

MAS QUEM MANDOU MATAR MARIELLE?

É a pergunta que toda a gente se faz e que pode ter ficado mais difícil de ser respondida após a morte de Nóbrega às mãos da polícia. Em setembro de 2019, a procuradora-geral da República cessante, Raquel Dodge, disse haver "indícios de autoria intelectual de Domingos Brazão", conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Estado do Rio, no assassinato de Marielle. De acordo com ela, suspeitava-se que Brazão tivesse ligações com a milícia Escritório do Crime. Ele nega. Mas essa é apenas uma linha de investigação.

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG