Morte de peixeiro reacende chama da Primavera Árabe em Marrocos

Mouhcine Fikri morreu esmagado num carro do lixo que destruía peixe apanhado ilegalmente. Milhares saíram à rua em protesto e Mohammed VI ordenou abertura de inquérito

Em dezembro de 2010, o vendedor tunisino Mohamed Bouazizi imolou-se pelo fogo depois de a polícia apreender os seus bens. Os protestos que se seguiram levaram à queda do presidente Ben Ali e as ondas de contestação transformaram-se na Primavera Árabe, que resultou em mudanças de regime no Egito e na Líbia. Em Marrocos, as manifestações de 2011 foram apaziguadas pela promessa de reformas constitucionais do rei Mohammed VI. Agora, a morte do peixeiro Mouhcine Fikri, esmagado por um carro do lixo que destruía uma carga de 500 quilos de espadarte que tinham sido apanhados ilegalmente, está a reacender a chama dos protestos.

As manifestações começaram logo na sexta-feira à noite nas ruas de Al-Hoceima, onde Fikri morreu, mas acabaram por alastrar a outras cidades no domingo, dia do funeral. Um vídeo do que aconteceu surgiu nas redes sociais, servindo para incendiar os ânimos, tendo o rei (que está numa viagem pela África Subsariana) ordenado a abertura de um inquérito para apurar as causas da morte do homem de 31 anos.

Segundo o ministro do Interior marroquino, Mohammed Hassad, a polícia descobriu "uma quantidade importante de espadarte, cuja pesca é proibida nesta altura do ano", na viatura de Fikri, depois de este ter recusado parar numa operação policial. "Foi tomada a decisão de destruir a mercadoria ilegal. Todas as questões surgem a partir daí", indicou o ministro, citado pela imprensa local.

A polícia chamou o carro do lixo para destruir o peixe, mas depois a história complica-se, com várias testemunhas e diferentes versões. Umas dizem que os agentes pediram um suborno a Fikri (que recusou pagar); outras, que eles só pretendiam assustar o peixeiro e dois companheiros que tinham saltado para o interior do carro do lixo, para tentar recuperar o espadarte; há ainda quem alegue ter ouvido o polícia a dar a ordem para acionar o compactador de lixo. A Polícia de Marrocos emitiu um comunicado, no domingo, a negar as acusações.

No vídeo que circula nas redes sociais vê-se o momento em que os três homens saltam para o interior do carro do lixo e o pânico que se gera quando o compactador é ativado. Dois deles conseguem saltar para fora, mas Fikri fica preso e é esmagado. O ministro do Interior, que o rei enviou para o local para apresentar as condolências à família da vítima, diz que as conclusões do inquérito deverão ser conhecidas em breve. "Não podemos aceitar que os responsáveis atuem precipitadamente, em cólera, ou em condições que não respeitam os direitos das pessoas", indicou, citado pela AFP.

"Acabem com a hogra"

A rápida reação das autoridades de Rabat é uma tentativa de esfriar os ânimos, depois de milhares de pessoas terem saído às ruas no domingo, já não apenas em Al-Hoceima mas também em Casablanca, Marraquexe e na capital. Nos protestos, as palavras de ordem são "Escuta makhen [palácio real]" ou "Acabem com a hogra" - expressão usada no Magrebe para referir o abuso de poder governamental e a injustiça.

Mas num cartaz em Rabat lia-se também "Bem-vindos ao COP 22. Aqui trituramos pessoas". A 22.ª Conferência sobre o Clima decorre entre 7 e 22 de novembro em Marraquexe e o governo marroquino não quererá que as manifestações desviem as atenções dos encontros ou deem má imagem do país.

Para já, os protestos não parecem esmorecer em Al-Hoceima, no Norte da região montanhosa de Rife, famosa pela sua veia rebelde. A cidade costeira de 55 mil habitantes foi palco da revolta contra os colonizadores espanhóis na década de 1920 e, em 1958, deu-se a Revolta do Rife, insurreição popular contra o poder instituído em Rabat que foi esmagada pelo novo exército marroquino, apoiado pelos franceses e liderado pelo futuro rei Hassan II.

Em 2011, durante a Primavera Árabe, o desaparecimento de cinco jovens em Al-Hoceima - os corpos seriam encontrados carbonizados - deu origem ao Movimento 20 de Fevereiro, que exigiu reformas políticas ao monarca. O rei entregaria parte da sua autoridade ao governo eleito - o primeiro-ministro Abdelilah Benkirane, islamita moderado, foi reeleito no início de outubro - mas grande parte do poder executivo ainda continua na monarquia.

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