Morreu Elie Wiesel, para quem "nenhum ser humano é ilegal"

Laureado com o Nobel da Paz em 1986, o ativista sobreviveu ao Holocausto. Lamentava não ter ajudado a mudar o mundo

Foi mandado para Auschwitz aos 15 anos. Saiu um ano depois com o fim da guerra e passou o resto da vida a defender os direitos humanos. Elie Wiesel morreu ontem aos 87 anos, na sua casa em Manhattan, confirmou ao The New York Times o amigo de longa data Menachem Rosensaft.

O sobrevivente do Holocausto, nascido na Roménia, recebeu o Nobel da Paz, em 1986, por ser "um mensageiro para a humanidade" e um dos "mais importantes líderes espirituais numa era em que a violência, a repressão e o racismo continuam a caracterizar o mundo". Vinte anos após ter sido galardoado, admitia à Time que a sua missão ainda não tinha mudado nem chegado ao fim. "No início, pensei, talvez o meu testemunho seja entendido e as coisas mudem. Mas não. Caso contrário não teríamos tido o Ruanda, o Darfur, o Camboja e a Bósnia. A natureza humana não pode ser mudada numa geração."

Defendia que "esquecer os mortos era permitir que fossem mortos uma segunda vez". Wiesel tinha 16 anos e era órfão quando foi libertado do campo de concentração alemão de Buchenwald, com A-7713 gravado no braço. A mãe e uma irmã morreram em Auschwitz para onde a família foi inicialmente levada. O pai morreria em Buchenwald. No livro de memórias Noite, Wiesel descreveu a vergonha em ficar quieto enquanto o pai estava a ser espancado. Depois da guerra, foi para França onde estudou na Sorbonne e aos 19 anos tornou-se jornalista. Pensou em suicidar-se e durante dez anos não quis falar sobre o que viveu durante a II Guerra Mundial. Noite, foi publicado pela primeira vez em 1955. E explica por que foi tão difícil revelar aquelas memórias: "Nunca poderei esquecer aquela noite, a primeira noite no campo, que transformou a minha vida numa longa noite, sete vezes amaldiçoada e sete vezes selada." Em 2008, teriam sido vendidos dez milhões de cópias, segundo o The New York Times.

Através da sua fundação ajudou refugiados do Camboja e fugitivos do apartheid, entre outras pessoas que precisam de ajuda. A igualdade entre todos era um tema recorrente nos seus discursos. É dele a frase "Nenhum ser humano é ilegal", que usou para defender os imigrantes ilegais.

Oprah Winfrey é uma das muitas figuras públicas que admiravam Elie Wiesel. Num tributo que lhe escreveu, em 2006, quando este entrou na lista dos 100 Heróis & Pioneiros, defendeu que o escritor "ensinou-nos a responder ao Mal". A apresentadora norte-americana visitou Auschwitz com Wiesel e contou essa experiência. "Estar na sua presença, exposta à sua sabedoria, foi uma das maiores bênçãos da minha vida. Ele é o meu herói não só pelo que sofreu, mas pelo que se tornou - um professor, um sábio, um ativista, um humanitário, um grande espírito."

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