Moro, Lula, Bolsonaro. Eleição de 2022 pode reunir trio de inimigos

Caso o Supremo decida, como parece plausível, que o ex-juiz, ele próprio pré-candidato, foi parcial no julgamento do antigo presidente, este será ilibado e estará habilitado a concorrer num sufrágio em que o atual inquilino do Palácio do Planalto tentará a reeleição.

Em O Bom, O Mau e o Vilão, western spaghetti de Sergio Leone, a cena mais icónica não é um duelo mas um "impasse mexicano", a situação em que três inimigos entre si, no caso as personagens de Clint Eastwood, de Lee Van Cleef e de Eli Wallach, ficam frente a frente à espera do primeiro tiro. As eleições presidenciais de 2022 no Brasil podem tornar-se uma repetição dessa cena - só falta cada eleitor, ao som dos acordes de Ennio Morricone, decidir quem é o bom, o mau e o vilão deste filme.

O duelo, ou "impasse mexicano", melhor, começará já em outubro, quando um recurso dos advogados de Lula da Silva a alegar parcialidade de Sérgio Moro no julgamento do caso do apartamento tríplex no Guarujá será julgado por cinco dos 11 juízes do Supremo Tribunal Federal brasileiro, conhecidos por segunda turma do STF. Caso três deles optem por dar razão à defesa, o que, dado o histórico das decisões dos magistrados, é plausível, os processos serão anulados e a antigo presidente poderá concorrer pela sexta vez à presidência do Brasil.

Nesse caso, como o próprio ex-juiz e ex-ministro, embora não o admita publicamente, parece cada vez mais decidido a seguir uma carreira política e candidatar-se à presidência, apoiado na popularidade conquistada na condução da Operação Lava-Jato, o duelo Lula-Moro pode passar do plano estritamente jurídico para o plano eleitoral em 2022.

E como o presidente Jair Bolsonaro vem falando com frequência em reeleição, o trio de inimigos entre si, ao jeito de Leone, pode encontrar-se nas urnas dentro de pouco mais de dois anos numa eleição memorável, explosiva, inevitável - o adjetivo fica à vontade de cada um.

"A segunda turma do STF é formada por cinco juízes: Edson Fachin, Carmen Lúcia, Celso de Mello, Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes. Ali, Lula já colheu duas vitórias: a delação do ex-ministro Antonio Palocci foi excluída da ação penal sobre o Instituto Lula. E a defesa de Lula terá acesso ao acordo de leniência firmado pela Odebrecht", lembra Ricardo Noblat, em artigo de quinta-feira na revista Veja.

, o trio de inimigos entre si, ao jeito de Leone, pode encontrar-se nas urnas dentro de pouco mais de dois anos numa eleição memorável, explosiva, inevitável

"Fachin e Carmen são considerados votos certos contra o pedido de suspeição de Moro, e Lewandowski e Gilmar, a favor. Ninguém faz ideia de como votará Celso, e se votará. Ele será outra vez operado à coluna e reforma-se em novembro. O juiz Marco Aurélio Mello poderá substitui-lo na segunda turma", prossegue, antes de concluir que "se ainda lhe restarem unhas para roer, Lula as roerá na torcida para que Celso se restabeleça logo e possa votar. Ele acredita que o voto de Celso o beneficiará".

Ouvido pelo DN, o sociólogo e analista político Paulo Baía corrobora a visão de Noblat.

"Hoje, temos essa possibilidade. Jair Bolsonaro, sem partido, com certeza é candidato à reeleição em 2022. Lula, pelo Partido dos Trabalhadores [PT], é sempre candidato, para que esse cenário aconteça é necessária a tal reengenharia política e jurídica no STF. E Sérgio Moro, sem partido, é citado como candidato, o seu nome é forte nas últimas sondagens."

Mas Baía lembra que a luta não se resume a três - em vez do tal "impasse mexicano" podemos ter um tiroteio de proporções ainda mais cinematográficas: "Temos ainda o Ciro Gomes [PDT], o João Dória [PSDB], o Flávio Dino [PC do B], e o Henrique Mandetta [DEM]. Todos hoje são pré-candidatos à presidência da república em 2022..."

Vinícius Vieira, professor de Ciência Política na Fundação Armando Álvares Penteado, acredita que as outras pré-candidaturas possam ser inviabilizadas caso o trio Moro-Lula-Bolsonaro concorra mesmo.

"O cenário é cada vez mais provável, na medida em que o processo a Lula pode ser anulado pelo STF. Nesse caso, teríamos um representante do campo da esquerda ou do centro-esquerda, um representante do campo da direita propriamente dita, com Bolsonaro, e um do centro-direita, o Sérgio Moro, e esse cenário inviabilizaria outras candidaturas, na prática", explica ao DN.

"Tanto as mais à esquerda, como a do Flávio Dino [PC do B], governador do Maranhão, como a de centro-direita do [ex-ministro da saúde] Luiz Henrique Mandetta, que poderia eventualmente compor uma candidatura com Moro: em sondagem recente, Mandetta surge atrás de Moro mas o primeiro é muito mais político do que o segundo, de quem não se conhecem ideias na economia, na educação, sobre desigualdade, crescimento, relações internacionais."

Covarde, criminoso, ignorante

O que Moro, Lula e Bolsonaro pensam dos outros dois é por demais conhecido - e vem marcando a atualidade política no Brasil desde o impeachment de Dilma Rousseff.

Moro condenou Lula às vésperas da eleição de 2018, sentença mais tarde confirmada por juízes de graus superiores, soltou para a imprensa uma gravação que, em última análise, impediu o antigo presidente de assumir a Casa Civil de Dilma e obter foro jurídico privilegiado, e ainda divulgou trechos de uma delação de Palocci a meio da campanha eleitoral, na altura em que Fernando Haddad subia a pique nas sondagens.

O juiz de Maringá, que terá 50 anos nas próximas eleições, entrou com estrondo no governo de Bolsonaro mas saiu com ainda mais clamor, acusando-o de interferência na Polícia federal - o presidente responde por crimes de falsidade ideológica, coação no curso do processo, advocacia administrativa, prevaricação, obstrução de justiça, corrupção passiva privilegiada, denunciação caluniosa e crime contra a honra no âmbito do processo.

Lula, que completará 76 anos por alturas do próximo sufrágio, não vem poupando nem Moro nem Bolsonaro. "Bolsonaro não respeita os médicos nem a ciência, só respeita a sua própria ignorância, ele levanta-se de madrugada para começar logo a mentir e diz coisas em que só ele e os amigos milicianos acreditam", afirmou em recente entrevista a jornais estrangeiros, incluindo o DN.

Moro condenou Lula às vésperas da eleição de 2018

"Sempre achei Moro um mentiroso e covarde, manipulado pelo departamento de Justiça dos Estados Unidos", opinou, na mesma entrevista, sobre o ex-ministro da Justiça.

Para Bolsonaro, que fará 67 anos em 2022, "Lula é um canalha e um criminoso à solta". E Moro "um judas, um mentiroso e um covarde", adjetivo já usado pelo fundador pelo PT.

E, no caso de Moro, Lula e Bolsonaro concorrerem, quem seria o vencedor do tal "impasse mexicano"? O atual presidente, na perspetiva de Vinícius Vieira. "Bolsonaro tem grandes hipóteses de ser reeleito porque pode ter votos dos mais pobres, uma vez que eles se sentiriam gratos ao presidente atual, por causa do recente auxílio emergencial na pandemia e da proposta do projeto Renda Brasil [baseado no Bolsa Família da Era Lula]."

"E Lula, mesmo continuando forte no Nordeste e nas camadas mais intelectualizadas da sociedade, enfrentará uma antipatia muito grande da classe média, sobretudo no centro-sul", continua.

O politólogo leva em conta a sondagem recente da instituto PoderData. Na pesquisa, em eventual segunda volta, o presidente Bolsonaro (sem partido) empataria com o ex-ministro Sérgio Moro (também sem partido) com 41% das intenções de voto. E venceria todos os concorrentes, incluindo o governador de São Paulo João Dória (PSDB) e Fernando Haddad (PT) - o nome de Lula, ainda sujeito à decisão do STF, não foi colocado aos entrevistados.

"Seja como for", continua Vieira, "para quem ambiciona um Brasil mais moderno ou mais, digamos, civilizado, esta perspetiva denuncia falta de opções, por isso até fiz brincadeira nas redes sociais dizendo que, nesse cenário, seria melhor devolver o Brasil a Portugal".

"No primeiro século da sua existência como país independente, o Brasil foi ainda bastante escravista, a partir de 1922 tornou-se mais moderno e industrial e agora, ao entrar no terceiro século de vida, está mais conservador e menos secular, num regresso ao passado com o bolsonarismo. Brincando novamente, talvez a maior geringonça portuguesa, na verdade, seja o Brasil."

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