Ministro espanhol pede demissão depois de ser associado a offshore

Jose Manuel Soria terá utilizado uma sociedade offshore até 2002, quando era alcaide de Las Palmas, revelam Papéis do Panamá

Jose Manuel Soria, ministro da Indústria espanhol, apresentou esta quinta-feira o seu pedido de demissão, depois de o jornal espanhol El Mundo ter revelado informações dos Papéis do Panamá que provam que o governante tinha utilizado até 2002 uma offshore com sede na ilha inglesa de Jersey, numa altura em que ainda era alcaide de Las Palmas.

Em comunicado, Soria diz que renuncia ao cargo "à luz da sucessão de erros cometidos nos últimos dias", relacionados com as explicações sobre as suas atividades empresariais, e considerando o "óbvio prejuízo que esta situação está a ter para o governo espanhol".

Soria deixa o governo e demite-se igualmente do cargo de presidente do Partido Popular nas Canárias, renunciando ao cargo de deputado. O El Mundo aponta que ministro da Indústria de Rajoy, desde a divulgação das informações nos Papéis do Panamá- tinha mantido "contra ventos e marés" que tudo não passava de falsidades.

O nome de José Manuel Soria - e de membros da sua família - apareceu associado a empresas offshore listadas nos "Papéis do Panamá" no início da semana. Porém, perante a impossibilidade de Soria de atestar que os documentos eram falsos, Mariano Rajoy terá perdido a confiança no governante.

Quando foram conhecidas as informações dos Papéis no Panamá relativas à atividade do ministro na sociedade offshore, a maioria da direção do PP pediu imediatamente a demissão de Soria. O governo espanhol em funções não pode, assinala a imprensa espanhola, nomear um novo ministro - o PP ganhou as eleições em dezembro com 123 deputados, mas sem maioria absoluta, pelo que os espanhóis têm até 2 de maio para negociar acordos com vista à formação de um novo executivo; caso contrário, serão convocadas novas eleições.

As responsabilidades do ministro da Indústria terão agora de ser transferidas para um outro governante.

As contradições de Soria

As contradições de José Manuel Soria - antigo presidente da Câmara de Las Palmas (Ilhas Canárias) - neste processo começaram na segunda-feira, 11 de abril, quando o jornal El Confidencial e a televisão La Sexta (que integram o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação) noticiaram que este tinha sido diretor de uma empresa 'offshore' criada pelo escritório de advogados Mossack Fonseca.

Segundo o El Confidencial, Soria tinha sido administrador, durante alguns meses em 1992, da empresa UK Lines Limited, inscrita nas Bahamas pelo escritório de advogados panamenho. A Mossack Fonseca pediu na altura que o nome de José Manuel Soria fosse mudado para o do seu irmão Luís, alegando que tinha havido um erro na nomeação dos administradores.

A empresa foi dissolvida em março de 1995, poucas semanas antes de começar a campanha eleitoral para a Câmara de Las Palmas, que Soria ganhou.

Logo na segunda-feira, em Lanzarote, o ministro negou "rotundamente" ter alguma ligação com sociedades radicadas no Panamá ou em qualquer outro paraíso fiscal. Reconheceu, no entanto, que conhecia a empresa UK Lines Limited, por ser uma das empresas com as quais as sociedades da sua família tinham relações comerciais.

Também afirmou que não sabia a razão de o seu nome aparecer nos documentos mostrados pela imprensa. No mesmo dia, no Congresso dos Deputados em Madrid, Soria disse que o seu nome nos documentos era "um erro" e que se tinha apercebido no próprio dia de que "era secretário da empresa UK Lines".

Na terça-feira a imprensa espanhola noticiou que a UK Lines, sediada no Reino Unido, foi propriedade do pai de Soria e que o ministro tinha sido administrador.

Soria insistiu que não sabia: "Apercebi-me esta manhã de que consto no Registo Mercantil de Londres como secretário da UK Lines" entre 1991 e 1997. Sublinhou ainda que tudo era "um erro".

Na quarta-feira a imprensa mostra que os documentos que Soria dizia desconhecer tinham sido assinados pelo próprio. O tema provoca desconforto no Governo e no PP espanhol, ainda que ninguém tenha defendido abertamente a sua demissão.

No dia seguinte, o jornal El Mundo noticiou que Soria ocultou o facto de ter sido administrador (até 2002) da empresa Mechanical Trading Limited, uma sociedade na ilha britânica de Jersey, considerada o paraíso fiscal com maior volume de fundos em todo o mundo.

A Mechanical Trading Limited foi constituída em 1993 e era detida em 80% pela empresa familiar Soria Oceanic Lines.

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