Merkel recebe aviso. CDU ultrapassada por populistas da AfD em eleições regionais

Eleições no Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental foram ganhas pelo SPD. Após a crise migratória e a política de refugiados, analistas defendem que chanceler vai enfrentar pressões para deslocar o partido mais para a direita

Um ano depois de Angela Merkel ter aberto as portas aos refugiados e um ano antes das eleições a nível nacional, a CDU, partido da chanceler, foi ultrapassado pelos populistas da Alternativa para a Alemanha (AfD) e ficou em terceiro lugar nas regionais ontem disputadas em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Este é o estado onde Merkel joga em casa, aquele pelo qual é eleita deputada desde 1990.

"É uma derrota com um enorme simbolismo. Por agora, Merkel, a participar na cimeira do G20 que decorre na China, observa tudo a uma distância segura. Mas quando regressar vai encontrar um ambiente difícil, com os críticos dentro do próprio partido a exigir que a CDU se desloque mais para a direita", explica ao DN Thorsten Benner, politólogo e diretor do Instituto de Políticas Públicas Globais.

As eleições foram ganhas pelos sociais-democratas do SPD, partido situado no centro-esquerda do espectro político, com 30,5% (menos 5,1 pontos do que em 2011). A AfD, que concorreu pela primeira vez em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, obteve 20,8% dos votos e relegou a CDU (União Democrata Cristã) para terceiro lugar, com 19% (menos quatro pontos). Estes eram os valores às 23.00 em Lisboa, quando estavam apurados 34 dos 36 círculos eleitorais.

Ainda assim, o mais provável é que o SPD volte a coligar-se com a CDU e continuem à frente dos destinos do estado, algo que acontece desde 2006. As duas forças ficaram com 42 dos 71 lugares do Parlamento regional (26 para o SPD e 16 para a CDU). A AfD conquistou 18 e o A Esquerda os restantes 11.

Benner chama a atenção para o facto de Thomas de Maizière, ministro do Interior e aliado de Merkel, ter tentado ontem, ainda antes do fecho das urnas, antecipar-se ao críticos afirmando que é um "absurdo" justificar o crescimento da AfD com a política pró--refugiados do governo.

Mas a verdade é que essa é a opinião de muitos analistas e que foi essa a principal bandeira dos populistas durante a campanha. "Este resultado é uma chapada na cara de Merkel. Os eleitores disseram claramente que estão contra as desastrosas políticas de imigração que tem vindo a seguir", afirmou Frauke Petry, a líder da AfD, assim que foram conhecidas as primeiras projeções.

Curiosamente, segundo revela o The Guardian, o Mecklemburgo--Pomerânia Ocidental é o terceiro estado alemão que menos refugiados recebeu. Em 2015 foram registados 23 mil pedidos de asilo, cerca de um quarto dos alocados ao estado do Hesse, que tem sensivelmente a mesma dimensão. Com 1,6 milhões de habitantes, apenas 3,7% da população do Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental não é de ascendência germânica.

Kai Arzheimer, professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Mainz, ouvido pelo DN, não tem dúvidas de que a crise migratória e a política pró-refugiados de Angela Merkel foram os principais motores para o crescimento da AfD.

Nas eleições federais de 2013, a Alternativa para a Alemanha não elegeu nenhum representante para o Bundestag, mas desde então os resultados eleitorais têm sido muito diferentes. Além dos sete deputados para o Parlamento Europeu que conseguiu eleger nas europeias de 2014, com as eleições de ontem são já nove, em 16, os parlamentos regionais que contam com lugares ocupados pela AfD.

Numa sondagem da empresa Infratest dimap, divulgada na quinta-feira, a Alternativa para a Alemanha recolhe 14% das intenções de voto para as legislativas do próximo ano, situando-se como terceira maior força política na Alemanha. Ainda assim, a CDU de Merkel continua relativamente confortável na liderança com 33%, mais dez pontos do que os sociais-democratas do SPD.

"Merkel foi muito bem-sucedida na forma como modernizou a CDU, deslocando o partido para o centro. Mas isto não agradou aos membros mais conservadores, que se mostram agora ainda mais preocupados perante o crescimento da AfD", explica Arzheimer.

Nesse sentido, não é impossível que a chanceler tente afinar a estratégia nos próximos meses, à medida que se aproximam as eleições, agendadas para daqui a um ano. "Ela nunca irá admitir que cometeu um erro grave ao abrir as fronteiras a mais de um milhão de refugiados sem os necessários ajustes administrativos. Mas é possível que Merkel possa mudar o tom do discurso, sublinhando que muitos dos refugiados voltarão para os seus países uma vez que estejam resolvidos os problemas que os levaram a procurar asilo", sublinha ao DN Jürgen Falter, investigador e politólogo, também da Universidade de Mainz.

Dentro de duas semanas, no dia 18, haverá novas eleições regionais, desta vez em Berlim. Outro sufrágio que poderá também ser visto como uma espécie de referendo às políticas da chanceler.

"Por paradoxal que possa parecer, um mau resultado da CDU pode acabar por ajudar Merkel. O candidato local do partido [Frank Henkel] é de uma linha muito conservadora e, em larga medida, é exatamente o oposto daquilo que Angela Merkel representa", explica Thorsten Benner.

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