Merkel não teme mão russa nas legislativas de setembro

Chanceler alemã e Putin discordaram abertamente em vários temas e Merkel pediu respeito pelos direitos humanos na Rússia.

"Não sou uma pessoa ansiosa. Farei campanha com base nas minhas convicções", declarou a chanceler Angela Merkel em resposta a uma pergunta se temia a interferência, informática ou de outra natureza, da Rússia nas eleições de 24 de setembro. E acrescentou que a Alemanha atuaria sem complacência contra quaisquer interferências.

"Sabemos que a cibercriminalidade é um sério desafio internacional, mas esperamos que as eleições na Alemanha possam decorrer sem problemas", afirmou ainda.

A governante alemã falava na estância balnear russa de Sochi, onde ontem esteve com o presidente Vladimir Putin num encontro de contornos manifestamente tensos. Uma outra resposta da chanceler, naquela que foi a primeira deslocação à Rússia desde maio de 2015, evidenciou isso mesmo. "Sou da opinião de que se há profundas diferenças de opinião, as negociações devem continuar", porque, de outro modo, prosseguiu Merkel, "ficamo-nos pelo silêncio e há cada vez menos e menos hipóteses de entendimento".

Por seu turno, Vladmir Putin comentando a mesma pergunta sobre interferências ou tentativas de manipulações de eleições noutros países, como se verificou nas presidenciais de novembro nos Estados Unidos, disse palavras que vão mais além de uma simples resposta. "Nunca interferimos na vida política e nos processos políticos de outros países e também não queremos que ninguém interfira na nossa vida política e nos processos da nossa política externa", declarou o presidente russo tendo, decerto, em mente a situação na Ucrânia, na Síria e as críticas que são dirigidas ao caráter autoritário do seu governo e desrespeito geral pelos direitos humanos.

Para Putin, as notícias sobre um alegado envolvimento russo para favorecer a eleição de Donald Trump não foram mais do que "rumores" alimentados por questões de política interna dos EUA.

A deslocação de Merkel à Rússia resultou do facto de a Alemanha presidir ao G20 e estar em preparação a cimeira da organização.

Ao longo do encontro com a imprensa, foram evidentes o desconforto e a tensão dos dois dirigentes, de rostos invariavelmente fechados e que mal cruzaram olhares. E quando se pronunciavam sobre um assunto, faziam-no, quase invariavelmente, em sentido diametralmente oposto. Veja-se a situação na Ucrânia. Para Putin, o que está a suceder com o movimento secessionista pró-russo no Leste do país resulta do "golpe de Estado, da mudança inconstitucional de poder em Kiev", onde o governo atual segue uma linha pró-europeia e pró-NATO. Noutro plano, Merkel declarou abertamente que "é importante o direito de livre manifestação" e disse "ter lembrado ao presidente Putin como são importantes os direitos das minorias e das testemunhas de Jeová". Os últimos foram impedidos recentemente de proselitismo na Rússia e a referência às minorias prende-se com as perseguições, em especial na Chechénia, aos LGBT. Só em março mais de cem gays terão sido detidos assim como se tem deteriorado a sua situação geral em toda a Rússia, de acordo com ONG ligadas a esta comunidade.

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