Merkel IV: governo mais jovem e mais feminino para um mandato difícil

Travar o avanço do populismo e reformular a União Europeia são os grandes desafios da chanceler para os próximos quatro anos.

Todos sabem que a nova grande coligação entre a CDU e o SPD "não é um casamento de amor", como dizia ontem o novo ministro das Finanças, o social-democrata Olaf Scholz. A prova é que na eleição no Parlamento para o quarto mandato de chanceler, Angela Merkel obteve 364 dos votos secretos - mais nove do que a maioria, mas menos 35 do que a soma dos deputados da CDU e do SPD. Um resultado que mostra bem as dificuldades que esperam a chanceler, que nos próximos quatro anos enfrenta desafios como a subida do populismo e a reformulação de uma União Europeia confrontada com o brexit, as tensões com alguns países do Leste e a popularidade crescente dos partidos antissistema.

Seis meses depois de umas eleições em que a CDU e a sua aliada bávara CSU ficaram longe da maioria dos votos, Merkel foi ontem investida chanceler pelo presidente Frank-Walter Steinmeier. Na sala, a assistir a este momento histórico, tinha o marido, Joachim, e a mãe, Herlind Kasner, de 89 anos. No poder desde 2005, Merkel foi durante anos vista como a garante da estabilidade, mas isso acabou por se virar contra ela a partir de 2015 e da sua política de portas abertas em relação aos refugiados. Só em 2015, a Alemanha recebeu mais de um milhão. O medo de muitos alemães em relação a estes migrantes, na larga maioria muçulmanos, acabou por se refletir na subida da Alternativa para a Alemanha (AfD) que depois das últimas eleições e com o SPD a manter-se no governo, se tornou o principal partido de oposição. A própria Merkel foi obrigada a ceder à ala mais à direita do seu partido, criando um teto para a entrada de migrantes.

Enfraquecida pelo resultado eleitoral curto, pelas mais longas negociações para formar um governo alemão desde a II Guerra Mundial e pelas acusações de imobilismo, Merkel tem sido pressionada para apontar um (ou uma) possível sucessor(a). A escolha de Annegret Kramp-Karrenbauer para número dois do governo foi encarada como uma resposta a essa pressão. E a chanceler deu ainda um lugar no executivo (à frente da Saúde) ao seu maior crítico, o ambicioso Jens Spahn. Aos 37 anos, é o mais jovem do novo executivo, cuja média de idades (pouco mais de 51 anos) é mais baixa do que a sua anterior. Com sete mulheres - para nove homens -, também está mais próximo da paridade.

E se alguns temem que a coligação não resista à avaliação que o SPD tem prevista para daqui a 18 meses, Merkel não deixa contudo de ser um pilar para a Europa. Ainda ontem, Spahn era esperado em Paris para preparar a visita da chanceler amanhã. Esta vai discutir com o presidente Emmanuel Macron as propostas deste para a criação de um orçamento da zona euro - uma ideia que parece não entusiasmar muito Berlim. Os dois líderes procuram uma posição comum antes do Conselho Europeu dos dias 22 e 23 em Bruxelas. "É preciso clareza para a próxima etapa", afirmou Merkel.

ALGUNS MINISTROS

Olaf scholz

O mayor de Hamburgo é o novo ministro das Finanças e vice-chanceler. Líder interino do SPD depois da demissão de Martin Schulz pertence à ala mais conservadora do partido. Aos 59 anos, o perito em finanças é um negociador temível. Ontem, admitiu que o novo executivo de grande coligação CDU/CSU-SPD "não é um casamento de amor", mas que terão de trabalhar juntos.

Heiko Maas

Como ministro da Justiça, Maas, de 51 anos, destacou-se pela retórica forte. Uma característica que deverá agora controlar nas novas funções como ministro dos Negócios Estrangeiros.

Horst Seehofer

Duro nas críticas à política de asilo de Merkel, o líder da CSU, a congénere bávara da CDU, já prometeu acelerar e aumentar as deportações mal assumisse a chefia do Ministério do Interior. Aos 63 anos, defende ainda tolerância zero para os criminosos.

Ursula von der Leyen

À frente da Defesa alemã desde 2013, Von der Leyen vai manter o cargo no novo governo de Merkel. Aos 59 anos, esta mãe de sete filhos chegou a ser apontada como possível sucessora da chanceler e fala-se nela para futura secretária-geral da NATO (seria a primeira mulher no cargo). A sua relação com as forças armadas sofreu algum desgaste nos últimos anos, mas Merkel confia nela.

Katarina Barley

Filha de um britânico (antigo editor da rádio Deutsche Welle) e de uma alemã, Barley passa das pastas da Família e do Trabalho para a Justiça. Aos 49 anos, pertence à ala mais à esquerda dentro do SPD.

Julia Klöckner

Ex-professora de Religião e Moral e antiga jornalista, aos 45 anos Julia Klöckner é a nova ministra da Agricultura alemã. Socialmente conservadora - opõe-se ao aborto e à investigação com células estaminais -, Klöckner era a líder da CDU no estado da Renânia-Palatinado.

Jens Spahn

Aos 37 anos, Jens Spahn é o mais jovem ministro do novo governo alemão. Representante da nova geração de políticos da CDU, fala-se nele para um dia ser chanceler. Duro crítico da política de asilo de Merkel, foi escolhido por ela para a pasta da Saúde.

Peter Altmaier

Até agora chefe de gabinete da chancelaria, Peter Altmaier é o novo ministro da Economia. É a primeira vez em mais de 50 anos que um membro da CDU ocupa este cargo. Altmaier, de 59 anos, é considerado extremamente leal a Merkel. Considerado um centrista, terá de ligar ainda com todos os assuntos ligados à energia.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG