Merkel diz que foram corretas as reformas realizadas em Portugal

Chanceler alemã admite ter uma relação conflituosa com o presidente francês Emmanuel Macron numa entrevista publicada em seis jornais da União Europeia

Angela Merkel faz a defesa da sua gestão da crise do euro e da crise dos refugiados numa entrevista publicada esta quarta-feira nos jornais The Guardian, Le Monde, Sueddeutsche Zeitung, La Vanguardia, La Stampa e Gazeta Wyborcza. Na primeira, a chanceler alemã foi líder, conseguiu impor-se, ser ouvida e seguida. Na segunda, ficou a falar sozinha, praticamente isolada. Face à contracorrente nacionalista anti-imigração. Nesta altura muito em voga na UE.

"O importante para a União Europeia é que o euro tenha sido mantido. As reformas levadas a cabo na Irlanda, em Espanha, em Portugal e na Grécia revelaram-se corretas, mesmo se, não tenho dúvidas, a carga suportada pelas populações foi enorme. A crise da dívida da zona euro mostrou-nos que nalguns países houve e há que corrigir erros económicos. É certo que necessitamos de uma convergência, ou seja, uma harmonização económica nos Estados membros, mas para isso temos que orientar-nos na concorrência à escala mundial com a China, Estados Unidos, Coreia do Sul. Se nos limitássemos a uma convergência média europeia as futuras crises poderiam voltar a afetar-nos com dureza ", sublinhou a chanceler alemã e ex-líder dos democratas-cristãos da CDU na Alemanha.

Questionada sobre se a dívida de Itália constitui um fator de risco para a Zona Euro Merkel respondeu: "Desejo que a Itália encontre a melhor maneira de melhorar o seu crescimento. Todos somos interdependentes. O que vimos durante a crise do euro foi que, dentro da Zona Euro, ninguém atua sozinho, desde a sua autarquia ou isolado. Isso é aplicável também à Alemanha, caso o nosso crescimento se debilite", avisou a chanceler, de 64 anos.

As declarações de Merkel surgiram no mesmo dia em que Frans Timmermans e Manfred Weber, candidatos dos Socialistas e do Partido Popular Europeu à presidência da Comissão Europeia, respetivamente, trocaram farpas sobre a austeridade imposta a Portugal durante o debate dos seis candidatos à sucessão de Jean-Claude Juncker em Bruxelas. "Em Portugal, no Porto, onde existe salário mínimo, estive com estudantes, eles pediram empregos e salários bem pagos", declarou o alemão Weber, face a Timmermans, defensor do salário mínimo em toda a UE.

"Quando eu estive em Portugal o que os jovens me lembraram foi de quando Weber disse que era preciso punir Portugal", realçou, por seu lado, Timmermans, atual vice-presidente da Comissão. Weber retorquiu lembrando que entre os responsáveis pela gestão da crise financeira estão também o socialista Pierre Moscovici, o trabalhista Jeroen Dijsselbloem e agora o atual ministro das Finanças português, Mário Centeno, que preside ao Eurogrupo. "Todos devem assumir as suas responsabilidades e os socialistas não devem atacar as suas próprias políticas".

Timmermans, holandês tal como Dijsselbloem, ressalvou: "Moscovici e Juncker aprovaram os planos [dos portugueses], olharam para eles, disseram que estavam Ok. Mas Weber continuou a dizer que não, não podia ser, era preciso castigá-los. A justiça é maior e há mais emprego em Portugal porque eles puseram um ponto final à austeridade".

Em maio de 2016, Weber, líder do grupo parlamentar do PPE, escreveu à Comissão Europeia a pedir que Bruxelas endurecesse as suas posições sobre os países - Portugal e Espanha - incumpridores do défice de 3% definido pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento e admitindo até o recurso a instrumentos corretivos.

Sobre a crise dos refugiados Merkel defendeu, naquela mesma entrevista, a sua política de portas abertas. "As decisões só podem ser avaliadas em todo o seu alcance quando se leva em conta os efeitos de uma política contrária. Se na crise do euro e na crise dos refugiados não tivéssemos atuado ou tivéssemos feito algo diferente, considero que teríamos tido consequências piores do que alguns dos problemas que temos hoje em dia. Não se trata de decisões teóricas, mas sim de respostas para a vida real. Se há, em todo o mundo, 70 milhões de deslocados à força, era compreensível que a Europa tivesse que tomar conta de pelo menos um milhão. Entendo que isso gere debates sociais, mas é preciso, também aprendemos muitos por causa desta situação", afirmou Merkel, que vai seu terceiro mandato como chanceler.

Questionada sobre se, como membro do PPE, aceitaria a Liga de Matteo Salvini no grupo político, como seria a vontade do primeiro-ministro da Hungria e líder do Fidesz, Viktor Orbán, Merkel respondeu apenas: "Não". À pergunta de quanto populismo conseguirá a União Europeia suportar antes de se dissolver a chanceler alemã retorquiu: "Estamos certamente numa era em que devemos lutar pelos nossos princípios e valores fundamentais. São os chefes do Estado e do governo que têm que decidir até que ponto se vai permitir que chegue o populismo e se, finalmente, existirá uma vontade de assumir a responsabilidade de uma forma conjunta. É responsabilidade de todos cuidar da UE. Para não pôr em perigo a Europa todos temos de ser capazes de nos pormos na pele do outro, estar dispostos a fazer compromissos, a ser honestos e, sem dúvida, tratarmos uns aos outros com delicadeza em todas as ocasiões".

Classificando o Brexit como o ponto de inflexão mais difícil dos últimos anos, Merkel admitiu que tem uma relação conflituosa com o presidente de França Emmanuel Macron. Ela apoia Weber, bávaro da CSU, para a presidência da Comissão, ele não gosta da ideia e há quem diga que preferia mil vezes ter Michel Barnier, também do PPE, no lugar de Jean-Claude Juncker. Ela foi partidária de dar mais tempo ao Reino Unido sobre o Brexit, ele não gostou da ideia e exigiu uma extensão mais curta do Artigo 50.º "Sempre conseguimos encontrar um meio-termo. Além disso, a Alemanha tomou uma série de iniciativas. Temos mentalidades diferentes e a forma como encaramos o nosso papel também é diferente. Sempre foi assim. O presidente Macron não é o primeiro presidente francês com o qual trabalho".

Merkel, que governa a nível federal novamente em Grande Coligação com os sociais-democratas, tem visto o eleitorado alemão castigar os depois grandes partidos - CDU e SPD - virando-se para a Alternativa para a Alemanha (AfD).O partido de extrema-direita já está representado em todos os parlamentos estaduais alemães, no Bundestag e agora prepara-se para ter também eurodeputados no Parlamento Europeu em Bruxelas e Estrasburgo após as eleições europeias da próxima semana. Segundo o Euracitv.de, citando o ministro do Interior, Horst Seehofer, o antissemitismo aumentou na Alemanha em 20%, por comparação ao ano passado e, dos 1800 incidentes registados, 90% foram perpetrados por grupos de extrema-direita.

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