May culpa Estado russo, mas esta não é a única hipótese

Londres expulsa diplomatas russos após envenenamento de ex-agente. Pista criminosa não é de descartar, dizem especialistas

"Não há outra conclusão além daquela de que o Estado russo é culpado" pela tentativa de assassínio do antigo agente duplo Sergei Skripal e da sua filha no dia 4. As palavras da primeira-ministra Theresa May no Parlamento foram acompanhadas do anúncio de medidas para enviar uma "mensagem clara" à Federação Russa. A expulsão de 23 diplomatas - a maior em 30 anos - é uma das ações tomadas pelo governo britânico. Se o agente tóxico é de origem russa, a responsabilidade é de Moscovo. Para Theresa May é um axioma - tão óbvio que não precisa de ser demonstrado. Mas será assim?

No fim da Guerra Fria e com a derrocada da União Soviética algumas substâncias tóxicas e respetivo know-how podem ter passado para as mãos de criminosos. "Não descartaria essa possibilidade, especialmente uma pequena quantidade e, em particular, tendo em conta quão laxista era a segurança nas instalações químicas russas no início da década de 1990", comenta à Reuters Amy Smithson, especialista em armas biológicas e químicas.

Em 1995, o banqueiro russo Ivan Kivelidi e a sua secretária foram envenenados com uma toxina fornecida por um funcionário de um instituto de investigação química.

Armazenados em condições adequadas e misturadas agora, os ingredientes ainda poderiam ser mortais num ataque em pequena escala, disseram dois especialistas em armas químicas à Reuters .

Em resultado do contingente formado por mais de 250 agentes de contraterrorismo e 180 militares destacados para investigar o caso, foi revelado que os Skripal foram envenenados com o agente nervoso Novichok criado na União Soviética. Perante este dado, as autoridades britânicas levantaram duas hipóteses. Ou o Estado russo estava envolvido na tentativa de eliminação do antigo coronel - julgado e condenado na Rússia por ter revelado identidades de agentes secretos a operar na Europa -, ou o Estado russo perdera, a certa altura, o controlo desta substância proibida.

Perante a dúvida, o ministro Boris Johnson comunicou ao embaixador russo em Londres que teria até terça-feira à noite para dar explicações. As autoridades russas recusaram responder no prazo imposto pelos britânicos. O ministro dos Negócios Estrangeiros russo Sergei Lavrov disse que a resposta só seria dada através dos canais próprios, e após pedido oficial. Lembrou que a Convenção sobre a Proibição de Armas Químicas (CPAQ) estabelece um prazo de dez dias para responder. O diplomata, que se queixa de uma "campanha russófoba", exigiu uma amostra do veneno usado em Salisbury para análise laboratorial.

Ontem, na Câmara dos Comuns, a chefe do governo lamentou a ausência de explicações, mas também o tom de "sarcasmo, desprezo e desafio" por parte dos dirigentes russos. De seguida anunciou as primeiras medidas a tomar. Os 23 diplomatas, ou "agentes não declarados", têm uma semana para sair de solo britânico. A maior expulsão de russos desde o fim da Guerra Fria é uma retaliação que May acredita "reduzir as capacidades dos serviços de informações russos" nas ilhas britânicas.

As outras medidas da resposta "completa e robusta" passam por cancelar a visita do ministro Sergei Lavrov a Londres, bem como suspender todos os contactos de alto nível entre os dois países. Ministros e membros da família real não irão ao campeonato mundial de futebol, que se realiza em junho e julho na Rússia. As medidas de segurança relacionadas com os voos privados serão aumentadas, bem como nas alfândegas.

No ar paira a ameaça de que ativos do Estado russo podem ser congelados a qualquer momento, caso existam provas de que podem ser usados contra cidadãos ou residentes no Reino Unido. Outras medidas poderão ser tomadas. Nova legislação contra "atividades de Estados hostis" está em estudo.

"Inaceitável, injustificado e míope", respondeu a embaixada russa em Londres.

Já a embaixadora britânica em Lisboa relevou a importância do sucedido para o Ocidente. "Este incidente não é apenas uma questão bilateral. Tem repercussões para os outros países da União Europeia e para a segurança europeia. Foi um ataque em que um Estado usou uma arma química proibida contra outro Estado e, o que é mais grave, foi a primeira vez desde a II Guerra Mundial que um agente nervoso foi usado de forma hostil na Europa. A Rússia tem de ser responsabilizada pela violação de acordos internacionais sobre segurança e não proliferação", declarou Kirsty Hayes.

Também o Ministério dos Negócios Estrangeiros reagiu ao caso, tendo expressado "forte solidariedade para com o Reino Unido", e condenado "veementemente" o "ato absolutamente inaceitável em qualquer circunstância e em total desrespeito pelas leis internacionais e pelo qual os seus autores devem ser responsabilizados".

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