Mark Rutte, o "vigário com cafeína" holandês que ameaça implodir o plano de recuperação da UE pós-covid

Aos 53 anos, o primeiro-ministro holandês é o líder não oficial dos quatro países chamados "frugais" - Holanda, Áustria, Dinamarca e Suécia - que se opõem a um plano de recuperação da UE para a crise do coronavírus.

O primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, parece tranquilo ao andar de bicicleta pelas ruas de Haia, mas na Europa é conhecido pelas suas tentativas de conter os planos económicos da União Europeia.

O líder liberal de 53 anos, no poder há uma década, tem a imagem de uma pessoa modesta e franca que responde aos valores dos holandeses.

Não é casado e mora no mesmo apartamento que comprou depois de obter o seu diploma. Conduz um Saab em segunda mão ou anda de bicicleta e dá aulas de instrução cívica como voluntário numa escola.

Rutte é uma pessoa jovial e um tanto desajeitada que já formou três governos de coligação na Holanda, um país politicamente fragmentado.

Mas as suas convicções económicas direcionam-no para uma nova rodada de negociações difíceis com a União Europeia nesta sexta-feira e sábado em Bruxelas, numa cimeira extraordinária sobre um plano de recuperação de 750 mil milhões de euros pela pandemia do coronavírus.

"É uma espécie de camaleão", diz Pepijn Bergsen, investigador de um programa sobre Europa no Chatham House, um instituto político de Londres. Mark Rutte, descrito como "vigário com cafeína" pela revista The Economist, transmite uma imagem de abertura, embora seja muito discreto sobre sua vida privada.

O mais novo de uma família de sete filhos que sempre morou em Haia, descreve-se como um "homem de costumes e tradição". Embora quisesse ser pianista, acabou por estudar História e depois tornou-se diretor de recursos humanos da Unilever.

Graças aos seus talentos políticos, Rutte chegou à liderança do partido liberal-conservador VVD em 2006 e quatro anos depois foi nomeado primeiro-ministro.

E foi mesmo acusado algumas vezes de correr atrás de votos, como quando reforçou a sua política de imigração no contexto das legislativas de 2017, quando o deputado de extrema-direita Geert Wilders estava a ganhar terreno.

Mais recentemente, o seu "confinamento inteligente" frente ao novo coronavírus valeu-lhe elogios dos compatriotas. "O que ele sempre teve é a perceção de ser uma personalidade de liderança competente", diz Bergsen, que foi consultor de política económica do governo holandês.

Mark Rutte soube gerir a sua imagem pessoal com muito cuidado, com vídeos virais nos quais aparece a chegar de bicicleta para falar com líderes estrangeiros.

Em plena pandemia, cumpriu as medidas contra a covid-19 e não visitou a mãe algumas semanas antes de sua morte.

Franqueza internacional

No plano internacional, Rutte recorre à franqueza. Em 2018, visitou Washington e fez-se notar ao interromper Donald Trump com um retumbante "não" quando o presidente americano disse que seria "positivo" não chegar a um acordo comercial com a UE.

A sua posição firme na crise migratória na Europa, assim como na crise da dívida grega em 2010, irritou alguns dos restantes Estados membros.

Rutte é agora considerado o líder não oficial dos quatro países chamados "frugais" - Holanda, Áustria, Dinamarca e Suécia - que se opõem a um plano de recuperação da UE para a crise do coronavírus.

Ele gosta do papel de "malvado", disse à AFP um diplomata holandês em Bruxelas, porque Rutte "prefere ser visto como alguém que melhora as coisas".
Vários líderes, incluindo o presidente francês Emmanuel Macron e os primeiros-ministros italiano e espanhol, foram a Haia nas últimas semanas, na esperança de levar as negociações adiante. António Costa também esteve com Rutte já esta semana, tendo saído de Haia "mais confiante" num potencial acordo.

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