Mariano Rajoy contra todos e todos contra Mariano Rajoy

Unidos Podemos pisca o olho ao PSOE, mas socialistas não retribuem o gesto de carinho político. Rivera apelida Iglesias de "vendedor de fumo". Parece difícil um bom casamento

Tiro de partida na corrida eleitoral em Espanha. Está oficialmente aberta a época da caça ao voto e o prémio de atiradora do dia vai para a socialista Susana Díaz. Incomodada com as sondagens que colocam o PSOE em terceiro lugar - atrás do Partido Popular e do Unidos Podemos (a coligação entre o Podemos e a Esquerda Unida) -, a presidente da Junta da Andaluzia foi tudo menos meiga para com Pablo Iglesias: "Não é por acaso que agora quer mascarar-se de social-democrata. Se alguma coisa o caracteriza é que não é de fiar. Uma pessoa não acorda comunista num dia e social-democrata no outro. A única coisa que o senhor Iglesias quer é o poder."

Menos virulento do que Susana, o líder Pedro Sánchez procura desvalorizar as sondagens ao afirmar que "o futuro não está escrito" e continua a acreditar que poderá ser ele a chefiar o próximo governo. "Por duas vezes disseram-me que não [tentativas de investidura que enfrentou]. À terceira será de vez." A esperança, dizem, só morre no fim.

Além do Podemos, o outro alvo dos socialistas continua a ser o velho inimigo, o Partido Popular. "Somos os únicos capazes de garantir uma mudança. Se ganhar Mariano Rajoy haverá mais austeridade e mais casos de corrupção", afirmou ontem Sánchez, num discurso na Praça Pedro Zerolo, em Madrid.

À esquerda do PSOE, Pablo Iglesias anda radiante com o que as sondagens vão vaticinando. "É provável que venhamos a ter de assumir responsabilidades muito importantes." Sentado num hipotético segundo lugar, o líder da coligação Unidos Podemos aproveitou para piscar o olho ao PSOE: "Estamos dispostos a estender a mão e a dialogar para liderarmos um governo de mudança." O que para já parece pouco óbvio é o posicionamento ideológico do UP nesta caça ao voto. Será possível fazer a síntese entre o comunismo - reclamado por Alberto Garzón, líder da Esquerda Unida - e a social-democracia defendida por Iglesias?

O Partido Popular, por seu turno, continua na liderança da corrida, depois de o barómetro do Centro de Investigações Sociológicas, divulgado nesta semana, voltar a atribuir-lhes a vitória, com 29,2% das intenções de voto, o que equivaleria a uma bancada parlamentar com 118-121 deputados. Mesmo sublinhando a vontade de fazer uma campanha pela positiva, Rajoy não desistiu a disparar em várias direções: "Não podemos entregar a tarefa da recuperação económica a quem nos trouxe a crise [PSOE], nem aos seus companheiros de viagem extremistas [Podemos], nem a quem nunca teve responsabilidade de gestão [Ciudadanos]."

Correndo por fora e em quarto lugar nas intenções de voto, surge o Ciudadanos. Albert Rivera, no lançamento da campanha, voltou a criticar Mariano Rajoy pelo seu "imobilismo" e apelidou Pablo Iglesias de "vendedor de fumo". Ainda assim ficou bem clara qual será a principal linha da estratégia eleitoral do Ciudadanos: o combate à abstenção. "Aqueles que não sabem se irão votar que pensem de onde vimos e para onde queremos ir."

De acordo com a sondagem do CIS, há 11% dos eleitores que garantidamente não irão votar e 14,7% que ainda não decidiram se vão preferir ficar em casa ou cumprir o dever cívico.

Aparentemente depois da ida às urnas a 26 de junho, a Espanha continuará num impasse político. A solução preferida pelo PP seria um bloco central com o PSOE, num governo liderado por Rajoy. Essa grande coligação conseguiria entre 196 e 201 deputados (para a maioria absoluta são necessários 176), mas tudo indica que os socialistas não querem assinar um acordo que para muitos seria um suicídio político.

A outra hipótese seria um executivo do Unidos Podemos com o PSOE. Mesmo assim, esta ampla aliança de esquerda, em princípio, seria curta para a maioria (entre 166 e 172 mandatos). Por outro lado, mesmo que a soma de deputados atingisse os 176 e que fosse possível passar um pano por cima das declarações de Susana Díaz sobre Iglesias, neste caso o haraquiri socialista, ao aceitar um papel subalterno num acordo com o Podemos, seria ainda mais sanguinário.

Uma alternativa? Talvez um governo do PP viabilizado pelo PSOE. Rajoy já admitiu que está disponível para tentar governar em minoria. E Pedro Sánchez também já afirmou que tudo fará para que finalmente seja possível romper o impasse.

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