Manual da cimeira Trump-Kim: quem é quem, problemas e possibilidades

Tudo o que de mais relevante precisa de saber sobre o histórico encontro entre o presidente dos EUA e o líder da Coreia da Norte

Donald Trump e Kim Jong-un vão reúnem-se pela primeira vez esta madrugada (2.00 de dia 12 em Lisboa, 9:00 em Singapura), numa cimeira histórica. As armas nucleares estão no centro das preocupações. O diário britânico The Guardian sintetiza o que está em causa e quem são os protagonistas

As "estrelas"

Kim Jong-un: o líder de 34 anos da Coreia do Norte que tem um poder extraordinário e vai conseguir benefícios pelo simples facto de se encontrar com Trump. Isso conferirá um sentido de legitimidade à sua nação, uma das mais isoladas do mundo. Resta saber até onde estará disposto a ceder.

Donald Trump: o errático presidente dos EUA procura uma grande vitória depois de a sua Administração estar a ser marcada por uma série de escândalos que paralisaram os esforços legislativos em casa. Chegou a cancelar a cimeira, mas entretanto mudou de ideias e até deixou a cimeira do G7 mais cedo para viajar para Singapura.

Moon Jae-in: embora o presidente sul-coreano não esteja a viajar para Singapura, o seu governo liberal - eleito após a queda de seu predecessor conservador - tem sido um grande impulsionador da aproximação com o Norte. Durante os Jogos Olímpicos de Inverno, organizados pela Coreia do Sul em janeiro, as duas Coreias desfilaram sob a mesma bandeira e Moon recebeu a irmã de Kim. Desde então já se reuniu duas vezes com o líder norte-coreano.

Mike Pompeo: chefe da diplomacia norte-americana, o ex-diretor da CIA tem estado na linha da frente para salvar da reunião entre Trump e Kim. Foi o mais alto funcionário norte-americano a encontrar-se com Kim Jong-un.

Kim Yong-chol: O septuagenário é o principal negociador nuclear do Norte e ex-espião de topo. Focou-se na política dos EUA durante décadas e foi conselheiro do pai e do avô de Kim Jong-un que lideraram o país antes dele.

Como se chegou aqui?

Depois de uma retórica inflamada entre a Coreia do Norte e os EUA no ano passado, Kim declarou no seu discurso de Ano Novo que o programa de armas nucleares do seu país estava completo. De seguida, lançou uma ofensiva de charme à Coreia do Sul, usando as Olimpíadas de Inverno para enviar uma delegação com altos representantes norte-coreanos que se reuniram com presidente do Sul, Moon Jae-in. Esses contactos culminaram num encontro entre Moon e Kim, em abril, em Panmunjom, na zona desmilitarizada que separa as duas Coreias. E numa declaração conjunta, segundo a qual ambos os líderes estavam comprometidos com a "completa desnuclearização" da península coreana. Depois Moon intermediou conversas entre as autoridades norte-americanas e norte-coreanas, e quando um alto funcionário sul-coreano disse que Kim queria encontrar-se com Trump, o impulsivo presidente dos EUA, aparentemente, aceitou na hora. Moon e Kim voltaria a encontrar-se numa reunião inesperada, já depois de Trump ter cancelado o encontro... e voltado atrás.

Qual é o foco das conversas?

A reunião Trump-Kim está centrada em convencer a Coreia do Norte a abandonar o seu arsenal nuclear. No discurso de Ano Novo, Kim revelou que o desenvolvimento de armas do país estava completo. Isto depois de uma poderosa detonação nuclear, em setembro de 2017, e testes de mísseis que poderiam, teoricamente, atingir os EUA. Na segunda-feira, a imprensa estatal da Coreia do Norte disse que a dupla discutiria um "mecanismo permanente e durável de manutenção da paz" na península coreana, desnuclearização da península e outros tópicos de preocupação mútua. Há outras questões importantes que a comunidade internacional gostaria de abordar, incluindo a reserva de armas biológicas e químicas da Coreia do Norte e o péssimo histórico de direitos humanos do país. Mas é improvável que seja Trump diretamente a levantar essas questões.

Quais são os potenciais pontos de atrito?

Tradicionalmente, ambos os lados têm definições radicalmente diferentes sobre a palavra "desnuclearização". Para os EUA, significa que Pyongyang desmantelaria imediatamente o seu programa de armas nucleares, enviaria as ogivas para fora do país e permitiria que inspetores internacionais verificassem os resultados. No discurso diplomático, isto é conhecido como desmantelamento completo, verificável e irreversível. A Coreia do Norte, provavelmente, prevê um processo encenado, onde cada concessão de Pyongyang é compensada com alguma contrapartida de Washington. O alívio das sanções, a ajuda económica, um tratado formal de paz para acabar com a guerra da Coreia de 1950-53 e os laços diplomáticos formais poderiam ser potenciais adoçantes para qualquer acordo.

Porquê em Singapura?

No mundo da diplomacia, cheio de protocolos, tudo tem um significado. Falou-se em manter as conversações na Panmunjom, a "aldeia de trégua" na fronteira entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, mas as autoridades americanas temiam que isso fosse interpretado como sendo os EUA muito complacentes com Kim. Singapura mantém relações diplomáticas com os EUA e com a Coreia do Norte, e pode ser vista como uma zona neutra.

Que desfecho se pode esperar?

Quando anunciou que a cimeira ia realizar-se, Trump disse: "Não vamos assinar nada!" Recusou comentar um possível alívio de sanções à Coreia do Norte, mas acrescentou estar "ansioso" pelo dia em que "possa levantar as sanções" ao país. Também disse que há mais restrições económicas adicionais prontas para serem implementadas, caso as negociações desmoronem. Kim está provavelmente a contar que sejam levantadas algumas sanções, enquanto tenta melhorar a economia do seu país. Houve relatos de que Kim e Trump poderiam declarar um fim formal à guerra da Coreia, que terminou num armistício em vez de um acordo de paz. Mas isso pode ser complicado pelo facto de que a China precisaria aprovar esse tratado, já que era signatária do pacto de armistício.

Segurança apertada para Kim

No final de abril, 12 guarda-costas masculinos fizeram manchetes internacionais, quando cercaram o Mercedes-Benz de Kim Jong Un e correram ao lado dele quando o carro do líder entrou na zona desmilitarizada, antes do encontro com Moon. Espera-se que a segurança para o presidente norte-coreano, no seu primeiro encontro com Trump, seja extremamente apertada, superando mesmo as observadas na cimeira com o seu homólogo da Coreia do Sul, a 27 de abril, dizem especialistas e analistas ouvidos pela Reuters. Trata-se da primeira visita de Kim Jong-un a um país estrangeiro que não a China ou a Coreia do Sul desde que assumiu o poder.

"Como o local e a hora da cimeira já foram anunciados, a segurança para Kim Jong-un será mais apertada do que para qualquer outro VIP", sublinhou à Reuters Kim Doo-hyun, professor de políticas de proteção e segurança da Universidade Nacional do Desporto da Coreia. "Acho que podemos presumir que a Coreia do Norte fez mais exigências a Singapura do que os Estados Unidos em termos de segurança", reflete. Na sua opinião além de usar veículos à prova de bala, os detalhes de segurança da Coreia do Norte provavelmente consistem em desdobrar camadas de proteção em volta do local da cimeira e tentariam desviar a atenção do carro de Kim Jong-un sempre que ele se movesse.

"Provavelmente veremos uma escala sem precedentes de proteção em terra, mar e ar, já que esta cimeira é atualmente a maior questão do mundo", considera Chae Kyou-chir, diretor-executivo da Top Guard, uma empresa de segurança sul-coreana."Kim Jong Un é reverenciado como um ser divino no seu país, mas fora dele está sujeito a hostilidade devido à forma como gere o seu regime. E isso é o suficiente para causar preocupações de segurança para seus funcionários", afiançou Chae .

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