Mais perto de acordo, mas Guterres diz que não há milagres

Boris Johnson define momento como "oportunidade única", mas secretário-geral das Nações Unidas pede paciência. Desde 1974 que país está dividido entre gregos e turcos

Que Chipre seja um "símbolo de esperança". Este é o desejo de António Guterres, que ontem presidiu em Genebra a uma cimeira para tentar resolver o longo conflito cipriota, que teima em dividir o país. "O objetivo é conseguir resultados. Para isso temos que trabalhar durante o tempo que for necessário. Estamos perante tantas situações de desastre [no Mundo] que precisamos de um símbolo de esperança. Acredito que Chipre pode ser esse símbolo no início de 2017", afirmou o secretário-geral das Nações Unidas, ladeado por Mustafa Akinci, líder dos cipriotas-turcos, e por Nicos Anastasiades, líder dos cipriotas-gregos.

Antiga colónia britânica, Chipre conseguiu a independência do Reino Unido em 1960. Em 1974 deu-se um golpe de Estado, orquestrado pela Grécia, com o objetivo de anexar o país. A Turquia respondeu com uma invasão e desde então o país encontra-se dividido entre a República de Chipre - que aderiu à União Europeia em 2004 - e a República Turca de Chipre do Norte, cuja independência, autoproclamada em 1983, só é reconhecida pela Turquia.

Presentes em Genebra estiveram os ministros dos Negócios Estrangeiros dos três Estados garante do território: Boris Johnson (Reino Unido), Mevlüt Cavusoglu (Turquia) e Nikos Kotzias (Grécia). Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, e Federica Mogherini, chefe da diplomacia da UE, também marcaram presença.

O encontro é visto como histórico. Apesar de todas as dificuldades que ainda será preciso ultrapassar até alcançar a reunificação, nunca o clima foi tão propício para que finalmente seja assinado um acordo.

Nicósia é a última capital dividida na Europa. Há mais de 40 anos que as Nações Unidas patrulham uma zona de ninguém, que separa os dois lados da cidade. Conta o The Guardian que foi nesta faixa de território - numa área abandonada do antigo aeroporto - que Mustafa Akinci e Nicos Anastasiades se encontraram por diversas vezes ao longo dos últimos 18 meses. "Pela primeira vez a ilha tem líderes que estão determinados a ultrapassar as divisões", escreve Helena Smith, correspondente do diário britânico para a Grécia, Turquia e Chipre.

"Estamos a trabalhar para chegar a um acordo que responda às questões centrais, mas não haverá uma solução rápida. Estamos perto, mas temos de ser pacientes e não podemos esperar milagres", avisou ontem o novo secretário-geral das ONU. Uma resolução para a questão cipriota representaria um auspicioso início de mandato para António Guterres e colocaria um ponto final num conflito na Europa que se arrasta há décadas e que, em vários momentos, deixou Grécia e Turquia no limiar de um conflito.

Um dos principais entraves a um entendimento é a posição da Turquia relativamente às questões de defesa e segurança. "A manutenção dos acordos que estão na base da estabilidade dos últimos 43 anos é uma necessidade", defendeu Cavusoglu em Genebra. A Turquia mantém na zona norte de Chipre um contingente de cerca de 30 mil militares com a finalidade de garantir os direitos da minoria cipriota-turca.

A Grécia parece disposta a abdicar do estatuto de Estado garante e os cipriotas gregos entendem que esses poderes não seriam necessários num Chipre unificado, que fizesse parte da União Europeia. Quem se mostrou otimista foi Boris Johnson. O chefe da diplomacia britânica definiu o momento atual como uma "oportunidade única" e o Reino Unido já disse estar disposto, num acordo de paz, a abdicar de metade dos seus 253 Km2.

Na quarta-feira deu-se um avanço histórico, com os dois lados a apresentarem propostas para o mapeamento das fronteiras das duas futuras entidades políticas. Os 37% de território atualmente na mão dos cipriotas turcos seriam reduzidos para entre 28,2% e 29,2%. Outra das questões a resolver prende-se com os direitos de propriedade de muita gente obrigada a abandonar as terras aquando da divisão territorial.

Ontem ao final da tarde, a agência Reuters noticiava que Kotzias, o chefe da diplomacia grega, avançava com a possibilidade de um novo encontro entre os ministros dos Negócios Estrangeiros para dia 23.

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