Mais de 270 artistas e autores querem Reino Unido na UE

Sim à União Europeia é quase consensual nos meios artísticos. Maioria das sondagens colocam em vantagem o campo que defende permanência britânica no projeto europeu.

São mais de 270 nomes de personalidades do mundo das artes e das letras a subscreverem um manifesto divulgado ontem no diário The Guardian a favor da permanência do Reino Unido na União Europeia (UE). Nele se sustenta que o abandono do bloco dos 28 Estados tornaria os britânicos "estrangeiros a gritarem na periferia" da Europa. Para os signatários, o Reino Unido "não fica só mais forte" na UE; "o nosso sucesso criativo global seria seriamente afetado com a saída", que poria em causa "o protagonismo britânico nos palcos mundiais".

O referendo sobre a permanência na UE realiza-se a 23 de junho, devendo os eleitores responder sim ou não à seguinte pergunta: "Deve o Reino Unido continuar a ser um membro da União Europeia ou deve abandonar a União Europeia?"

O manifesto contém 282 nomes que vão do escritor John le Carré às atrizes Keira Knightley e Helena Bonham Carter, à estilista Vivienne Westwood e a figuras do universo da música popular, como elementos das bandas Pulp, Hot Chip e Editors. O amplo leque de personalidades envolvidas revela um consenso alargado na esfera das atividades criativas em torno da continuação do Reino Unido na UE. No entanto, figuras como o veterano ator Michael Caine e um dos fundadores e vocalista dos históricos The Who, Roger Daltrey, têm dado o rosto pela campanha da saída, também conhecida sob o vocábulo brexit.

A iniciativa do manifesto foi saudado pelo primeiro-ministro David Cameron durante uma visita aos estúdios de Abbey Road, em Londres, onde The Beatles gravaram a maior parte dos seus discos, e onde o governante britânico se encontrou com alguns dos signatários, como o ator Dominic West e o escultor indo-britânico Anish Kapoor.

Na ocasião, Cameron sublinhou que a permanência na UE não está ligada apenas a questões económicas mas resulta também da troca de ideias e de como a presença no espaço da UE é benéfico para a cultura britânica enquanto atividade artística e indústria. Ideias também defendidas no manifesto, no qual se pode ler que muitos projetos criativos "nunca se teriam concretizado sem o imprescindível financiamento da UE ou através de colaborações" entre artistas e entidades de diferentes Estados membros.

O manifesto surgiu a público num dia em que, no plano das apostas, segundo a Reuters, a tendência revela uma significativa percentagem (79%) para a vitória do sim à continuação na UE. Na passada semana era de 70%, segundo o site de apostas online Betfair.

Uma tendência que encontrou também expressão relevante nas diferentes sondagens que foram reveladas ao longo dos últimos dias.

Sondagens

Assim, das sete mais recentes sondagens, só duas dão a vitória ao campo do brexit, tendo ambas sido realizadas online. Das restantes cinco, uma outra realizada também por inquérito online concede a vitória à continuação na UE. Outras quatro, realizadas por consulta telefónica, colocam sempre em maioria o campo do sim à permanência. No entanto, em mais de 50% das sondagens, o número de indecisos é superior a 10%, sendo de 21% na sondagem online do instituto TNS, em que o campo da saída é maioritário, com 41% das intenções de voto, e os partidários da permanência obtêm 38%. Por outro lado, em duas outras sondagens em que o número de indecisos é também elevado, os defensores da continuação na UE surgem em maioria. Assim, na sondagem online do instituto YouGov, o sim à UE recolhe 44% das intenções de voto e o não 40%, sendo 12% os indecisos. Na sondagem por telefone do ICM, o sim à UE obtém 47% e o não 39%; a percentagem de indecisos é elevada: 14% dos inquiridos.

Os números das sondagens levam um especialista em política europeia, Anand Menon, do King"s College em Londres, a considerar que estas refletem um estado de espírito transitório e que o resultado a 23 de junho será inequívoco. Ouvido pela Reuters, o académico defende que os eleitores tomarão opções definitivas perto da data do referendo e que o sim à permanência será claramente maioritário. A sustentar esta tese dá como exemplo o referendo sobre o mesmo tema, em 1975, quando as sondagens apontavam para uma vitória por dois terços do não à então Comunidade Europeia; o que veio a verificar-se foi o oposto: o sim à Europa ganhou com 67% dos votos.