Maior empreiteiro do Brasil condenado a 19 anos de prisão

Marcelo Odebrecht, detido desde junho, ouviu sentença do juiz Sérgio Moro. Ex-presidente brasileiro Lula da Silva foi chamado a depor como testemunha na segunda-feira

O dono da maior construtora do Brasil, a Odebrecht, foi condenado ontem a 19 anos e quatro meses pelo escândalo da Petrobras, investigado na Operação Lava-Jato. Além de Marcelo Odebrecht, acusado de corrupção ativa, lavagem de dinheiro e associação criminosa, mais quatro executivos da empresa conheceram ontem as suas sentenças do juiz de primeira instância Sérgio Moro, que coordena a investigação. Estavam todos detidos desde junho.

Segundo os procuradores, as irregularidades cometidas por Marcelo Odebrecht e os seus funcionários envolvem o pagamento de subornos através de empresas off-shore entre 2007 e 2011 num total de 108 milhões de reais e 35 milhões de dólares divididos por onze vezes. O objetivo era corromper funcionários da petrolífera estatal brasileira para fraudar as licitações de obras da empresa. Os advogados dos empresários não tinham reagido até ao fecho desta edição.

Além dos executivos da construtora, que receberam penas entre os 9 e os 19 anos, dois dos funcionários da Petrobras também foram condenados ontem: Renato Duque, a 20 anos, e Pedro Barusco, a 15. Paulo Roberto Costa, outro diretor da petrolífera, viu a sentença suspensa porque está em processo de delação premiada. O mesmo sucedendo com Alberto Yousseff, intermediário do esquema.

Horas antes de se saber da sentença, o jornal O Globo noticiava em manchete que Marcelo Odebrecht, os outros executivos da sua construtora e a cúpula dirigente da OAS, empreiteira envolvida também no escândalo da Petrobras, negociavam com os investigadores da Lava-Jato a realização de delações premiadas.

Também José Carlos Bumlai, amigo do ex-presidente Lula da Silva e homem com entrada franca no seu gabinete no Palácio do Planalto, equaciona assinar acordo de delação, segundo a imprensa. A decisão aparentemente justifica-se porque, como disse em entrevista recente à rádio Bandnews, Deltan Dallagnol, outro procurador da Lava-Jato, se a todos os crimes de Marcelo Odebrecht se somassem os ilícitos da empresa, a pena do outrora considerado príncipe da construção do Brasil excederia os 2000 anos. "Se formos somar as penas de todos os crimes em série, por incrível que pareça as penas somariam mais de 2000 anos de prisão", disse Dellagnol.

Por outro lado, os até agora 13 delatores da Lava-Jato somariam em condições normais pena de mais de 274 anos de prisão; ao aderirem ao prémio por denunciarem vão cumprir, todos juntos, meros sete anos. Críticos veem na delação premiada o triunfo da impunidade, os seus defensores dizem que "é troca de peixe por cardume". O Globo adianta ainda que os procuradores da Lava-Jato acreditam que conseguindo as delações dos patrões da Odebrecht e da OAS, as duas construtoras que terão ajudado Lula nas obras das suas casas de férias, chegarão maias facilmente ao ex-presidente.

Lula foi aliás chamado a depor por Sérgio Moro como testemunha de Bumlai na segunda-feira. O antecessor da presidente Dilma Rousseff estará na justiça de São Paulo em vídeo-conferência com os juízes da Lava-Jato, sediados em Curitiba. Bumlai é acusado de usar dinheiro da Petrobras para pagar empréstimo contraído pelo Partido dos Trabalhadores, de Lula e Dilma, no Banco Schahin. O PT nega ter recebido donativos ilegais.

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