Macron anuncia "revolução" para chegar ao Eliseu em 2017

Ministro que abandonou o governo em rutura com François Hollande e Manuel Valls, pretende "reconciliar a liberdade com uma visão progressista" da sociedade.

Emmanuel Macron não quer só ganhar as eleições e tornar-se o próximo Presidente da República. O candidato, que apresentou ontem o seu programa eleitoral, diz querer uma revolução progressista que trave a alternância entre o Partido Socialista, à esquerda, e Os Republicanos, à direita. Durante duas horas, no pavilhão 6 do centro de congressos de Porte de Versailles, em Paris, essa revolução pareceu possível para as centenas de franceses que receberam o candidato em apoteose.

A escolha do Porte de Versailles não foi inocente. É a casa das grandes celebrações da direita e era um dos locais favoritos do antigo presidente e ex-candidato, Nicolas Sarkozy, para mostrar o seu poder de mobilização. Macron, sem o apoio oficial de qualquer partido e contando apenas com o movimento En Marche!, que lançou durante o verão (e que conta já com quase 120 mil pessoas), não desiludiu e mostrou-se à altura do desafio. A organização previa inicialmente uma afluência de cinco a sete mil pessoas, mas os números finais foram de 12 a 15 mil participantes.

As portas abriram às 14.30, e Naima e Katelin, de 25 e 19 anos respetivamente, chegaram 20 minutos depois. Mesmo com um pequeno atraso, as duas jovens tiveram dificuldades em encontrar um bom lugar. Resignaram-se a ficar atrás de um poste, com visibilidade reduzida para o pódio onde daí a umas horas falaria Macron. "Sou de esquerda, mas em 2017 não sei em quem votar e posso eventualmente votar em Macron. Vim descobrir as suas ideias", disse Naima ao DN, acrescentando que a juventude e abertura do candidato despertaram a sua atenção.

A entrada de Macron, de 38 anos, teve direito a música ritmada, cartazes com inscrições como "Marchons, marchons" (um verso de A Marselhesa) ou "Osez" ("Ousemos") e muita agitação para conseguir um vislumbre do candidato. O caminho para esta receção triunfante já tinha sido aberto por políticos à esquerda e à direita convertidos às ideias de Macron.

Renaud Dutreil, antigo presidente da UMP - agora Os Republicanos - e antigo ministro de Jacques Chirac, abriu as hostilidades políticas, afirmando que Macron é "uma força de renovação política" e fora das "caixas" tradicionais na política à direita e à esquerda que têm cometido erros sucessivos quando chegam ao Governo.

"Os jovens estão entre os dois"

A opinião de Dutreil é partilhada por Matthieu, de 27 anos, que se voluntariou para ajudar a organizar o comício. "Em França há demasiados nichos políticos. Se formos de esquerda, somos a favor de maior solidariedade social, e se formos de direita, somos a favor da liberalização da economia. Mas os jovens estão entre os dois. Eu sou a favor da liberalização da economia, mas também acredito na igualdade de oportunidades", disse o jovem de Nanterre ao DN.

Esta ausência de identificação partidária foi ainda reforçada por Richard Ferrand, deputado do Partido Socialista e secretário-geral da campanha de Macron, que também subiu ao palco para explicar o porquê de ter optado por apoiar este. E não é só no palco que há quem tenha feito essa escolha. "Acho que Macron tem a inteligência e o bom senso para mudar a política. À nossa volta vemos homens, mulheres, jovens e idosos de todos os meios sociais. Não vemos isto noutros comícios políticos", explicou Pierre, engenheiro florestal de 50 anos. Apesar de ser de esquerda, afirmou que a atuação dos socialistas o tem desiludido e crê na mudança que Macron pode trazer. "Sou de Tourenne, e estou muito surpreendido porque tenho muitos amigos que querem participar na campanha de Macron. Acho mesmo que pode haver uma revolução na política francesa", confessou. Numa das primeiras ações de campanha, Macron lançou recentemente um livro precisamente intitulado Révolution (Revolução).

Com ou sem revolução, Stéphane Travert, deputado socialista da Normandia, também já fez a sua escolha: Macron. "Estamos aqui para mostrar que conseguimos unir a França, os progressistas, os jovens e toda a gente que acredita que Emmanuel vai mudar o nosso país. E basta olhar para o que se está a passar aqui, com tão pouco tempo de preparação. Temos aqui cerca de 15 mil pessoas. É algo enorme", disse Travert ao DN, insistindo que esta não é uma candidatura contra o sistema, mas sim, a favor de França.

Liberdade, a bandeira de Macron

Foi de braços abertos que Macron se apresentou a todos os seus apoiantes. O candidato deixou claro que o seu principal objetivo é "reconciliar a liberdade com a visão progressista" da sociedade e não hesitou em disparar as medidas que constam do seu programa para concretizar o realizar.

Antes de mais, o trabalho. Macron mantém as 35 horas, mas quer mais flexibilidade para que patrões e sindicatos possam negociar políticas à medida das suas necessidades. Quer ainda diminuir a diferença entre salários brutos e salários líquidos para promover a procura interna, estimando um aumento de 500 euros mensais no orçamento mensal dos trabalhadores franceses - isso será possível através da supressão de taxas que pesam sobre os salários e com o aumento do imposto de contribuição social, que é aplicado em França ao conjunto dos rendimentos dos trabalhadores.

Macron prevê ainda criar uma nova polícia de proximidade que conheça e patrulhe os bairros mais problemáticos e continuar a reforçar o número de ativos nas diversas forças de segurança durante os primeiros três anos do seu mandato. Sem medo de chamar a Europa à sua campanha, o candidato alertou ainda que face ao risco da mundialização, só o projeto europeu "pode proteger a França".

Chamado esta semana a participar nas primárias do Partido Socialista por Manuel Valls, ex-primeiro-ministro e principal candidato do PS, Macron mostrou em Paris que pode não precisar de qualquer partido para fazer caminho até ao Eliseu. As primárias para Macron vão acontecer a 23 de abril de 2017, data da primeira ronda das eleições presidenciais. Até hoje, as sondagens indicam que não haverá um candidato de esquerda na segunda volta, a 7 de maio.

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