Lori Loureiro Trahan, a candidata ao Congresso com raízes portuguesas

Se vencer as eleições intercalares de 6 de novembro, Lori Trahan torna-se na primeira mulher de raízes portuguesas no Congresso

Lori Loureiro Trahan já percorreu um longo caminho. Com raízes profundas no Vale Merrimack e nascida e criada em Lowell, Massachusetts, se for eleita, será a primeira mulher de ascendência portuguesa no Congresso a representar o estado de Massachusetts.

A revista digital Feel Portugal teve a oportunidade de se encontrar com Lori em Lowell e questionar porque é que está a concorrer ao Congresso e o que espera mudar em Washington.

O nosso encontro estava originalmente programado para acontecer na Nana"s Kitchen, na Central Street, em Lowell, um pequeno restaurante mesmo em frente do clube Portuguese Civic League (Reds Club). Lori tem boas memórias de ir lá com o pai quando era criança. Infelizmente, o lugar estava fechado no dia em que lá fomos e acabámos por nos encontrar no Coffee & Cotton dentro do Mill No 5, uma das emblemáticas e antigas fábricas de tecidos de Lowell construídas em 1873, no coração da cidade.

A jornada da Lori começou com os seus ancestrais que vieram para Lowell de Portugal e do Brasil. O pai de Lori, Tony Loureiro, foi delegado sindical do sindicato dos trabalhadores metalúrgicos Local 7, e é filho de Fernando de Freitas Loureiro (do Porto) e de Adalice Leite Loureiro (da Bahia). Fernando trabalhou como carpinteiro profissional e foi presidente do clube Portuguese Civic League (Reds Club) e do clube Portuguese American Center (Blues Club). A sua esposa Adalice nasceu no Brasil, mas após a morte da sua mãe foi para a Graciosa, onde foi criada pela tia. Ela trabalhou nos moinhos de Lowell como muitos dos imigrantes que vieram para Lowell nessa época.

A mãe de Lori, Linda, criou-a e às suas três irmãs ao mesmo tempo que trabalhava em part-time em vários empregos. John de Sousa, bisavô materno de Trahan, nasceu nas ilhas dos Açores. Ele esteve muito envolvido na comunidade portuguesa de Lowell sendo um dos membros fundadores da paróquia de St. Anthony em 1901.

De papergirl e voleibolista a chefe de gabinete em Washington

Lori frequentou as escolas públicas de Lowell e começou a trabalhar logo que teve possibilidade. Aos 11 anos, o seu primeiro emprego foi entregar o Lowell Sun no bairro, e foi distinguida no hall of fame de desporto do Liceu de Lowell, onde ganhou uma bolsa de estudos para jogar voleibol na Universidade de Georgetown. Mais tarde, trabalhou no Congresso como chefe de gabinete do representante Marty Meehan.

Por causa das suas raízes, Lori acredita firmemente nas políticas de imigração e começamos a nossa conversa perguntando sobre a atual situação da imigração nos EUA. "Começa com uma conversa aberta em torno da reforma abrangente da imigração", respondeu ela. "Precisamos de preservar as liberdades que sempre defendemos", e referiu-se à história de nosso país, que foi sempre um "porto seguro para refugiados em busca de uma vida melhor". Apontou que não apoia a atual promessa de campanha divisiva de um muro, e prosseguiu dizendo: "Vieram por uma vida melhor e por oportunidades que não tiveram no seu país, e têm o direito de trabalhar em Lowell ou noutras cidades e de se tornarem membros ativos da comunidade ".

Trahan também defende a proteção das necessidades dos dreamers com todo o apoio bipartidário. "Acho que entrámos num discurso divisivo com esta última eleição e precisamos de novas lideranças para que possamos restabelecer os nossos valores norte-americanos e, para isso, obtermos abertamente do que precisamos para a proteção dos nossos dreamers", disse.

Somos quem somos como país por causa da influência dos imigrantes

"Somos quem somos como país por causa da influência dos imigrantes... Não consigo entender por que é que este governo decidiu difamar e atacar as populações imigrantes de hoje", disse Lori, e continuou dizendo que "está na hora do Congresso agir sobre a reforma abrangente da imigração", e que "não se pode confundir segurança nas fronteiras com a reforma da imigração porque são duas coisas diferentes".

Quando perguntamos sobre qual a sua posição em relação ao DACA [programa de proteção de crianças imigrantes indocumentadas], Lori respondeu: "Eu acredito num caminho para a cidadania para todas as pessoas que estão a viver no nosso país", e continuou dizendo que "a retórica divisiva da última eleição atraiu muitas manchetes e não é exatamente onde está o coração deste país". Ela apontou que "ninguém neste país tem uma reivindicação mais forte para este país do que qualquer outra pessoa."

Como imigrante portuguesa de terceira geração, ela vê muitas pessoas de diferentes origens culturais no seu distrito, pois existem diferentes comunidades no seu distrito, como Lowell, Lawrence, Haverhill ou Hudson, "há muitas pessoas que trabalham duro, que contribuem para a nossa economia, e que pagam os seus impostos e precisamos de fazer o que é certo para eles", disse Lori.

Educação pública e cultura de inclusão

Lori vê a educação desempenhar um papel importante na nossa sociedade e acredita que há que melhorar o trabalho a fazer nas escolas públicas. Enfatizou a importância de haver "mais professores a trabalhar para assimilar e incluir as nossas diversas populações nas escolas". "Frequentemente dizemos neste país que a diversidade é a nossa força. Bem, a diversidade é apenas a nossa força se encontrarmos uma maneira de incluir a nossa diversidade".

"As pessoas precisam de ter as mesmas oportunidades que todos os outros e é assim que realmente conseguimos dar um impulso nesta economia", disse ela. Ela continuou dizendo: "Quando encontrarmos uma maneira de ter uma cultura de inclusão para todas as pessoas que estão aqui, elas nos ajudarão a estimular e impulsionar a nossa economia".

Ela também defende a necessidade de tornar a educação universitária mais acessível. "É escandaloso estarmos agora a mandar as nossas crianças para a faculdade e elas ficarem atoladas e sobrecarregadas com enormes dívidas. Dívidas que não deveriam surgir porque não fizemos um trabalho suficientemente bom para estimular a nossa economia na criação de emprego e aumento de salários para um nível que pudéssemos absorver esse tipo de empréstimos", disse Lori.

Lori acredita que a lacuna de desigualdade de rendimentos vai terminar e ela pretende ir lutar pela educação para evitar que as famílias continuem lutando contra as dificuldades financeiras como estão hoje. Ela também acredita firmemente numa fundação sólida para as oportunidades económicas e sucesso.

"Na economia de hoje, precisamos de abrir todas as faixas da educação, para os nossos jovens isso nem sempre significa a faculdade, significa áreas de treino vocacional, aprendizagem, colégios comunitários, programas que possam dar credenciais e certificação para conseguir um emprego bem remunerado, com melhores benefícios e sem a carga das dívidas. Eu acho que a educação está diretamente ligada à mobilidade económica", disse Lori.

Defensora do Obamacare

A reforma no serviço de saúde é outra questão que Lori sempre se refere como sendo extremamente pessoal para ela e para a sua família devido à doença do seu pai. Ele foi um metalúrgico e sindicalista cuja carreira foi interrompida porque lhe foi diagnosticado esclerose múltipla.

Mostrou-se feliz por o Affordable Care Act (ACA, conhecido como Obamacare) estar em vigor porque se não fosse a lei constitucional as companhias de seguros poderiam discriminar com base em condições pré-existentes, o que teria falido a sua família, bem como muitas outras. "Não conhecemos uma família que não tenha um membro com uma condição pré-existente e, por isso, isto foi o mais certo para nós fazermos como país", disse Lori.

Ela acredita que a saúde é um direito, não um privilégio. A batalha para aprovar o Affordable Care Act foi muito disputada. "Estou comprometida em melhorar e fortalecer o ACA antes de mais nada, e impedir que os republicanos em Washington a desmantelem... o ACA dá-nos uma ótima estrutura para trabalharmos, e assim podermos tornar a assistência médica universal e acessível."

Lori Trahan concorda que ainda há muitos custos no sistema de saúde e que há que atacar esses custos, sejam eles benefícios de medicamentos prescritos ou responsabilizando as companhias farmacêuticas.

"Temos defendido o Afordable Care Act desde que foi aprovado e por isso estou relutante em começar de novo quando vejo o quanto a jornada tem sido difícil para nós até agora, mas estou totalmente comprometida em tornar a saúde mais acessível porque sei que ainda não é perfeito."

Texto originalmente publicado a 17 de agosto na revista Feel Portugal in the USA

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