Líderes religiosos com Hollande. Oposição defende medidas drásticas

Sarkozy quer todos os suspeitos jihadistas presos ou sob vigilância eletrónica mesmo que não tenham cometido crimes

A sequência de ataques terroristas em França está a deixar François Hollande cada vez mais debaixo de fogo. "Não podemos perder mais tempo e não pode haver misericórdia. O governo tem de implementar imediatamente as propostas que apresentámos há vários meses", afirmou o ex-presidente e provável candidato às primárias da direita, Nicolas Sarkozy.

Que propostas são estas? A oposição de centro-direita quer que todos os suspeitos islâmicos sejam detidos ou colocados sob vigilância eletrónica mesmo que não tenham cometido qualquer crime.

Os serviços secretos franceses têm atualmente cerca de 10 500 cidadãos identificados como suspeitos jihadistas, mas o governo rejeita a pretensão da oposição alegando que seria inconstitucional. Além disso, explica o ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, o facto de os serviços secretos puderem vigiar os suspeitos sem o seu conhecimento tem possibilitado o desmantelamento de várias redes terroristas.

O debate surge na sequência do ataque de terça-feira à igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray , na Normandia, que terminou com o padre Jacques Hamel, de 84 anos, degolado. Os dois atacantes foram mortos pela polícia. Um deles - Adel Kermiche, 19 anos, nascido em França e de origem argelina - estava sob prisão preventiva, mas saiu em liberdade em março, tendo ficado sob vigilância eletrónica. Segundo o regime que lhe foi imposto pelo tribunal, Kermiche estava autorizado a sair de casa apenas quatro horas por dia, entre as 8.30 e as 12.30. Foi nesse intervalo que realizou o ataque.

O adolescente francês - que se radicalizou-se na sequência do ataque ao Charlie Hebdo, em janeiro de 2015 - foi detido pela polícia depois de duas tentativas de chegar à Síria, em março e em maio de 2015, utilizando documentos de identificação de familiares.

Apesar da oposição dos procuradores, o juiz optou por deixá-lo sair em liberdade condicional depois de Kermiche ter mostrado "arrependimento" pelas duas vezes em que tentou escapar para a Síria. "Quero a minha vida de volta, ver os meus amigos e casar", afirmou durante uma audiência em tribunal, de acordo com documentos divulgados pela imprensa francesa.

Ainda não foi confirmada oficialmente a identidade do segundo atacante. Segundo a Reuters, que cita uma fonte judicial, deverá tratar-se de outro jovem de 19 anos, sem cadastro criminal e oriundo do sudoeste francês. O seu documento de identificação foi encontrado na casa de Kermiche e as autoridades aguardam as análises de ADN para confirmar a identidade.

Ontem , uma agência de informação do Estado Islâmico divulgou um vídeo em que ambos juram fidelidade à organização.

Em editorial, o francês Le Monde anunciou que tomou a decisão de não voltar a publicar fotografias dos autores de atentados, nem imagens de documentos de propaganda do Daesh, para "evitar efeitos de glorificação póstuma" dos terroristas.

Também o jornal La Libre Belgique lançou este debate. Para David Thomson, jornalista e autor do livro Jihadistas Franceses, a identidade dos atacantes deve ser revelada porque "existe uma necessidade legítima de informação". Opinião contrária tem o antropólogo Adbu Gnava, para quem "um falso soldado não merece o estatuto de guerreiro".

O presidente francês reuniu-se ontem com líderes de diferentes religiões. Estes representantes pediram mais vigilância securitária para todos os locais de culto. Os religiosos fizeram questão de mostrar unidade. "Não nos podemos deixar levar pela política do Estado Islâmico, que quer os filhos da mesma família a lutar entre si", afirmou o arcebispo de Paris, André Vingt-Trois, ladeado por representantes de outras denominações cristãs e por líderes muçulmanos, judeus e budistas.

Em declarações aos jornalistas a bordo do avião que o levou até à Polónia para uma visita que durará cinco dias, o Papa também fez referência aos ataques. "O mundo está em guerra. Mas não é uma guerra de religiões. Todas as religiões querem a paz. É uma guerra de de interesses, uma guerra por dinheiro, sublinhou Francisco.

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