Liberdade de imprensa em Angola está em "cuidados intensivos"

Jornalistas denunciam intimidação psicológica. "Não há" liberdade de imprensa em Angola, diz Rafael Marques

A liberdade de imprensa em Angola "está em situação de cuidados intensivos", porque há mecanismos de "intimidação psicológica" dos jornalistas, apesar de, nos últimos 40 anos da independência, registar-se pluralismo dos "media", consideram jornalistas ouvidos pela Lusa.

Em declarações à Lusa, a secretária-geral do Sindicato de Jornalistas de Angola, Luísa Rogério, considerou que 40 anos depois de proclamar a independência, Angola tem "uma liberdade de imprensa com muitas oscilações".

"A liberdade que temos é muito condicionada por fatores económicos, influenciada pela visão do patronato e agravada com a crise económica que o país vive", cujo impacto recai sobre o processo de produção de jornais que "é muito elevado", disse Luísa Rogério.

De acordo com Índice de liberdade da Freedom House, Angola goza o estatuto de "não livre", com o valor de "5,5" (numa escala de 1 a 7), média resultante de "5" nas liberdades civis e "6" nos direitos políticos.

A propaganda do estilo soviético-cubano continua agora com uma roupagem brasileira

A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) coloca o país na posição 123.ª concernente ao Índice de liberdade de imprensa, enquanto a World Press Freedom atribuiu Angola 37,84% este ano.

"Não há" liberdade de imprensa em Angola, diz por seu turno o jornalista Rafael Marques em entrevista à Lusa sobre a passagem dos 40 anos da independência da antiga colónia portuguesa.

"Por isso é que desde a independência até hoje só temos um jornal diário no país. E a propaganda do estilo soviético-cubano continua agora com uma roupagem brasileira dada por "marketeiros` brasileiros que continuam a ser a forma dominante de se fazer informação no país através dos órgãos de comunicação social", acrescenta.

Questionado a esclarecer, Rafael Marques afirmou: "a liberdade de imprensa em Angola está em situação de cuidados intensivos, porque há cada vez menos respeito pelo direito à vida por parte do Governo, por parte dos direitos e deveres consagrados na Constituição".

Exemplificando, o jornalista e ativista angolano apontou os "vários títulos privados" que "não chegam a imprimir 2500 exemplares e são quase todos eles detidos por círculos ligados ao poder político, para dar uma ideia de pluralidade".

"Mas não há" liberdade de imprensa em Angola, insistiu, assinalando haver "dois elementos conflituosos no jornalismo angolano: por um lado, a propaganda estatal e, por outro lado, o ativismo para a criação do espaço para a liberdade de imprensa".

"Não se pode falar de jornalismo sério sem liberdade de imprensa. Então, há uma luta desequilibrada para conquistar este espaço que permita a realização do jornalismo", afirmou.

A opinião de Rafael Marques é corroborada pela secretária geral do Sindicato de Jornalistas de Angola que considerou que, embora se assista a um certo pluralismo que se traduz em mais meios de comunicação social, o país continua a ter um único meio generalista.

"Este pluralismo é aparente, porque muitos dos órgãos de comunicação social estão concentrados num meio ligado ao poder político e, em Angola, a fronteira entre o poder político e o económico é ténue", refere Luísa Rogério.

O diretor do Nova Gazeta, o único jornal angolano gratuito distribuído semanalmente, Evaristo Mulaza, considerou, no entanto, que "aquilo que está acontecer agora é um processo normal da evolução" de uma Angola que viveu vários anos de guerra, mesmo depois da independência.

"Encaro particularmente esta questão numa perspetiva evolutiva. A sociedade angolana, desde a independência, sofreu vários estágios de evolução. Acredito que as próprias forças da sociedade estão a encarar como uma certa normalidade este processo de evolução, porque não havia como ser diferente", afirmou o jornalista.

"É verdade que o nosso país é relativamente novo, que ainda vai passar por dificuldades a este nível, que se abriu a democracia em 1992, processo interrompido por causa da guerra. Retomamos à normalização depois de 2002. As primeiras eleições multipartidárias foram em 1998, portanto, estamos num processo de aprendizagem e a própria sociedade vai-se moldando a isso", conclui Evaristo Mulaza.

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