Leopoldo López. O opositor que a prisão não silenciou

O líder do partido Vontade Popular foi condenado por incitar à violência nos protestos de 2014, mas mantém presença nas redes sociais, onde é mais popular do que Maduro

"Se a minha prisão ajuda ao despertar do povo venezuelano, valerá a pena", lê-se no perfil do Twitter do opositor Leopoldo López. O líder do partido Vontade Popular, condenado a 14 anos de prisão por incitar à violência nos protestos de 2014, é seguido nesta rede social por 3,88 milhões de pessoas - mais 1,3 milhões do que o presidente venezuelano, Nicolás Maduro. Mesmo atrás das grades, López move multidões e lança apelos à mudança nas eleições parlamentares de amanhã, para as quais a oposição surge como favorita nas sondagens.

A conta do Twitter é alimentada pelas mensagens que o opositor vai enviando através dos advogados, da família e dos amigos que o visitam. De vez em quando, são publicadas fotografias das páginas manuscritas que consegue fazer sair da prisão militar de Ramo Verde, nos arredores de Caracas, onde está detido desde 18 de fevereiro de 2014. Após seis dias na clandestinidade e quando Maduro o apelidava de "terrorista", López entregou-se às autoridades. O relato do primeiro dia da prisão inaugurou, na semana passada, o blogue Diário de Leopoldo López.

Estes escritos, intervenções, discursos e notas reuniram-se com o esforço e dedicação de muitas pessoas

"Estes escritos, intervenções, discursos e notas reuniram-se com o esforço e dedicação de muitas pessoas", lê-se no texto de apresentação do blogue. Segundo a mesma fonte, vários manuscritos do opositor foram "confiscados pela ditadura" de Maduro e Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional. Os textos foram escritos "durante as audiências e a partir da sua cela, nos poucos momentos em que contava com papel e lápis, e que conseguiu fazer chegar aos familiares e amigos". Segundo a mesma fonte, "hoje já nem tem esse direito de escrever ou receber correspondência".

Há 15 anos na política

López, um economista de 44 anos, começou a carreira política aos 29, com a eleição para presidente do município de Chacao, o bairro mais rico de Caracas. Foi reeleito em 2004 com 81% dos votos, enfrentando acusações de desvio de fundos. Quatro anos depois foi declarado inelegível até 2014, por alegadamente ter recebido em 1998 fundos da empresa pública de petróleo PDVSA (onde trabalhava a mãe), para financiar a fundação do partido Primeiro Justiça - junto com Henrique Capriles, que foi por duas vezes candidato presidencial da oposição. Após deixar esse partido em 2006, passou pelo Um Novo Tempo (de onde foi expulso) antes de fundar o Vontade Popular.

Nos protestos de janeiro e fevereiro de 2014, durante os quais se registaram mais de 40 mortes, apelou aos seguidores para irem para as ruas e acabaria detido por incitar à violência. Foi condenado em setembro deste ano a 13 anos, 9 meses, 7 dias e 12 horas de prisão. Mas a detenção não o silenciou e continuou a usar as redes sociais para se dirigir aos apoiantes.

"Venezuelanos, encham-se de força, encham-se de fé, de coragem cívica e inteligência para votar e defender o caminho que todos queremos", lê-se num dos últimos tweets. O próprio López pediu para votar - como apelou da sentença esta ainda não é definitiva e ainda não perdeu esse direito. Mas as autoridades dizem que só nas prisões onde há mesa de voto os detidos podem votar, não sendo claro se vai ser instalada uma em Ramo Verde.

A detenção de López lançou também para a ribalta a mulher, Lilian Tintori, que tem viajado pela Europa e Américas ao encontro de dirigentes políticos para ganhar apoios. Em final de outubro, Tintori denunciou as humilhações que sofre cada vez que visita a prisão, dizendo que as guardas a obrigam a despir-se, saltar e gatinhar, sob ameaça de que não a deixam ver o marido caso não ceda. Casados desde 2007, López e Tintori têm dois filhos.

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