Kim Jong-un e Moon Jae-in: a hora do diálogo entre Coreias

Os presidentes da Coreia do Norte e da Coreia do Sul reúnem-se hoje em Panmunjon, na Zona Desmilitarizada. Os dois países vivem ainda tecnicamente em guerra, apesar de esta ter acabado em 1953 e os seus líderes, Kim Jong-un e Moon Jae-in, com 30 anos de diferença entre si, poderão dar passos importantes para chegar, por fim, à paz.

Kim Jong-un:
Homem foguete ou honrado?

Em setembro do ano passado, o presidente norte-coreano era, nas palavras que o seu homólogo norte-americano escreveu na sua conta de Twitter, "um pequeno homem foguete com uma missão suicida". Agora, Kim Jong-un tem-se revelado, para Donald Trump, "bastante aberto e honrado". O que mudou entre um tweet e outro?
Desde logo as circunstâncias: o líder do regime de Pyongyang aceitou a participação norte-coreana nos Jogos Olímpicos de Inverno em Pyeongchang, na Coreia do Sul, aceitou ir, pelo seu próprio pé, à cimeira de hoje em Punmunjom, na qual se reúne com o presidente sul-coreano Moon Jae-in e poderá ainda eventualmente reunir-se em breve com o próprio Trump.

Dos testes com mísseis, das trocas de acusações e ameaças ao Ocidente, Kim Jong-un, de 35 anos, passou a falar em desnuclearização. Tecnicamente em guerra desde 1953, apesar de a guerra ter acabado nesse ano, Coreia do Norte e Coreia do Sul têm ainda que assinar oficialmente a paz. As bases para um eventual acordo poderão ser lançadas na cimeira de hoje, naquela parte da Zona Desmilitarizada que divide os dois países. A reunificação da península coreana, essa, poderá ser tema para mais tarde.

Kim jong-un, que em 2011 sucedeu na liderança ao pai, Kim Jong-il, defendera no seu primeiro discurso público, em abril de 2012, uma doutrina de "os militares primeiro". Hoje está, ao que parece, mais disposto a dar uma oportunidade à diplomacia. Descontado o facto de esta não ser a primeira cimeira inter-coreana, mas sim a terceira (as outras duas realizaram-se em 2000 e 2007, com o seu pai a dirigir a Coreia do Norte). Será sim a primeira em solo sul-coreano e a primeira de Kim Jong-un.

Filho de Kim Jong-il com a sua terceira mulher, Ko Yong-hui, Kim Jong-un foi educado na Suíça, segundo testemunhos de antigos colegas e professores da escola onde estudou. No menu do jantar que hoje vai ter com Moon Jae-in isso será assinalado: na lista de pratos está o Rösti, receita tradicional de batata oriunda do cantão suíço-alemão de Berna.

Kim Jong-un não era o sucessor natural do pai. O eleito era o irmão mais velho, Kim Jong-nam, que saiu da linha de sucessão depois de uma tentativa fracassada de entrar no Japão com passaporte falso para visitar a Disneylândia de Tóquio em 2001. Kim Jong-nam morreu em 2017, envenenado por duas mulheres no aeroporto internacional de Kuala Lumpur na Malásia. O irmão do meio, Kim Jong-chol, de 36 anos, também foi preterido porque, segundo contou em livro o ex-chef de sushi de Kim Jong-il, Kenji Fujimoto, o pai achava que ele "parecia uma rapariga". Não é conhecido se Kim Jong-chol tem algum papel oficial no poder na Coreia do Norte, mas a irmã de Kim Jong-un, Kim Yo-jong, figura sénior do Partido dos Trabalhadores da Coreia, representou-o nos Jogos Olímpicos de Inverno.

Casado com Ri Sol-ju, o casal terá pelo menos três filhos, segundo os media sul-coreanos. De acordo com o ex-basquetebolista americano Dennis Rodman, que já visitou Kim Jong-un várias vezes e de quem se considera amigo pessoal, o líder norte-coreano e a mulher têm uma filha chamada Kim Ju-ae. Além de basquetebol, Kim JOng-un é também fã de personagens da Disney como o Rato Mickey. Agora tem a oportunidade de mostrar se é um homem "aberto e honrado" ou se não passa de "um pequeno homem foguete com uma missão suicida".

Moon Jae-in:
O defensor da política do Sol Radioso

Uma cimeira com a Coreia do Norte não é uma novidade para o presidente Moon Jae-in, no poder desde maio de 2017. Moon foi o responsável pela organização de idêntico encontro entre o então chefe do Estado sul-coreano Roh Moo-hyun e o pai de Kim Jong-un, Kim Jong-il, em 2007. A cimeira pareceu alterar, por algum tempo, o clima de tensão na península, mas a generalidade dos projetos acabou por ser suspensa ou nem sequer iniciada. Moon, de 65 anos, tem agora a oportunidade de retomar esses projetos - e ir mais além. Para este advogado e ativista dos direitos humanos, que esteve preso na época da ditadura de Park Chung-hee (pai da presidente Park Geun-hye, afastada de funções em 2017 por abuso de poder e corrupção), o objetivo é a pacificação permanente da península com a assinatura de um tratado de paz com Pyongyang. Após a guerra de 1950-1953, apenas foi assinado um armistício entre os beligerantes: as duas Coreias, República Popular da China (RPC), Rússia e Estados Unidos. O que significa que, em termos de Direito Internacional, o conflito não acabou. Os EUA e outros países ocidentais combateram ao lado do Sul sob mandato das Nações Unidas, aprovado pelo Conselho de Segurança devido à ausência do representante da União Soviética que boicotava os trabalhos desde o início de 1950 em protesto por ser a República da China (o governo de Chang Kai-shek refugiado em Taiwan) e não a RPC que ocupava o lugar reservado à China naquele órgão da ONU.

A possibilidade de Moon conseguir uma paz formal com Pyongyang seria um desenvolvimento histórico, que parecia praticamente impossível quando o antigo chefe de gabinete de Roh Moo-hyun chegou ao poder em 2017. Na época, o regime de Kim multiplicava os testes de mísseis e os ensaios nucleares (dos seis ensaios até agora realizados pela Coreia do Norte, quatro foram-no após a chegada ao poder de Kim Jong-un em dezembro de 2011). Moon, partidário da política do Sol Radioso - na esteira de Roh e de Kim Dae-jung, que concebeu esta estratégia de relacionamento com Pyongyang -, teve de alinhar com Donald Trump que queria o máximo de pressão sobre a Coreia do Norte, com a intensificação de sanções. A política do Sol Radioso advoga a cooperação económica entre as duas Coreias, o apoio ao desenvolvimento do Norte e gestos mútuos de boa vontade. A estratégia valeu a Kim Dae-jung o Nobel da Paz em 2000. Agora, a concretizar-se um acordo de paz entre as duas Coreias, a mesma distinção seria absolutamente merecida para Moon. E a melhor recompensa para este filho de norte-coreanos que fugiram da cidade de Hungman no início da guerra num navio americano, para se fixarem em Busan. Nascido a 24 de janeiro de 1953, Moon fez estudos nesta cidade, licenciando-se em Direito. Em 1963, envolveu-se nos protestos contra um terceiro mandato para Park Chung-hee, que ganhou as eleições desse ano contra Kim Dae-jung. Após duas décadas como advogado de ativistas e de lugar-tenente do Roh Moo-hyun (com quem partilhou escritório), Moon entrou na política e concorreu contra Park Geun-hye em 2012. Apesar de muito popular, foi derrotado.

A alteração da conjuntura na península aconteceu com o discurso de Kim Jong-un de finais de 2017, com o líder norte-coreano a propor negociações com o Sul. Abria-se o caminho para o regresso da estratégia do Sol Radioso.
Moon é casado e pai de um rapaz e de uma rapariga.

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