Radovan Karadzic recorre à justiça internacional para anular sentença

Foi condenado a 40 anos de prisão por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade no decurso do conflito na Bósnia-Herzegovina

O ex-chefe político dos sérvios bósnios, Radovan Karadzic, exortou esta segunda-feira a justiça internacional a anular a sua condenação por genocídio e outros crimes graves e pedir novo julgamento, após negar ter planeado uma limpeza étnica nos Balcãs.

"É totalmente impossível que seja justa alguma coisa que me foi imputada neste julgamento", declarou Karadzic no primeiro de dois dias de processo em recurso em Haia.

"As minhas declarações foram alteradas, os meus direitos ridicularizados, as motivações dissimuladas", acrescentou o sérvio de 72 anos, natural da então república jugoslava do Montenegro, mas que liderou a proclamada República Sérvia da Bósnia (Republika Srpska, RS), no decurso da guerra civil (1992-1995).

Em março de 2016, o Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia (TPIJ), uma instância judicial 'ad hoc' da ONU, reconheceu-o culpado e condenou-o a 40 anos de prisão por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade no decurso do conflito na Bósnia-Herzegovina.

Associado ao massacre de Srebrenica e ao cerco de Sarajevo, o ex-presidente da Republika Srpska denunciou "mitos", ao fornecer uma versão muito diferente da que tem sido aceite pela generalidade das organizações internacionais.

O acusado "lança de ferro das estruturas militares, políticas e governamentais" dos sérvios da Bósnia, procurou dividir o país.

Após a morte, durante o seu processo, do antigo presidente sérvio, Slobodan Milosevic, é o mais alto responsável julgado por uma guerra que provocou mais de 100.000 mortos e 2,2 milhões de deslocados em ações atribuídas às três partes em conflito (muçulmanos, sérvios e croatas bósnios).

Considerado um "herói" por parte considerável da população sérvia local, emitiu um recurso dirigido a 50 pontos da sua acusação, perante o Mecanismo para os tribunais penais internacionais (MTPI), que sucedeu ao TPIJ no final da 2017.

"Estamos aqui para pedir a anulação da condenação de Radovan Karadzic e ordenar um novo processo", declarou o seu advogado, Peter Robinson, considerando o primeiro "injusto".

"O que pedimos que façam no caso presente não será popular a curto prazo, mas servirá a causa da justiça por muito tempo e depois de nós", referiu perante os cinco juízes do MPTI.

A defesa argumentou o seu apelo pelo facto de, em primeira instância, Karadzic ter sido forçado a optar, por pressão da acusação, entre representar-se a si mesmo, o que fez, ou testemunhar em seu favor, e não as duas.

Radovan Karadzic foi detido em 2008 em Belgrado, após 13 anos em fuga

No seu veredicto, o TPIJ considerou que o acusado "lança de ferro das estruturas militares, políticas e governamentais" dos sérvios da Bósnia, procurou dividir o país.

Foi reconhecido culpado de genocídio pela morte de cerca de 8.000 homens e rapazes muçulmanos em idade de combater em Srebrenica em julho de 1995, definido como o pior massacre cometido na Europa após a I Guerra Mundial.

Segundo os juízes, este massacre estava integrado no processo de "limpeza étnica" planificada por Karadizc, o chefe militar dos sérvios bósnios, Ratko Mladic (condenado pelo TPIJ a prisão perpétua), Slobodan Milosevic.

"Nunca houve a intenção de separar as populações", asseverou o acusado.

Radovan Karadzic foi detido em 2008 em Belgrado, após 13 anos em fuga.

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