Jornalista do New York Times deixa Colômbia após controverso artigo sobre exército

Nicholas Casey afirmou que o exército colombiano tem ordens para duplicar número de ataques e capturas, ameaçando civis.

O jornalista do New York Times Nicholas Casey disse ter deixado a Colômbia no domingo devido a "falsas acusações" por parte do partido no poder, na sequência de um artigo sobre o exército publicado um dia antes no jornal norte-americano.

"Tomei a decisão de deixar o país por causa das falsas acusações feitas no Twitter por Maria Fernanda Cabal [senadora], repetidas por vários políticos nas últimas 24 horas", escreveu o repórter numa mensagem enviada às redações.

De acordo com a reportagem publicada no sábado, o chefe do exército colombiano ordenou às tropas, no início do ano, que duplicassem o número de ataques e capturas, ameaçando civis e provocando "mortes suspeitas e desnecessárias". Cassey diz ter consultado documentos oficiais do exército e entrevistado funcionários superiores do exército.

A senadora Cabal, do partido no poder, publicou no Twitter uma fotografia do jornalista com a mensagem: "Aqui está o jornalista Casey que fez uma excursão em 2016 com [os guerrilheiros das] FARC na selva. Quanto lhe terão pagado por este relatório contra o exército colombiano?" O 'tweet' rapidamente se tornou viral.

Na mesma rede social, o New York Times defendeu o jornalista: "Informamos com precisão e imparcialidade (...) Neste caso, simplesmente relatamos o que dizem os documentos escritos pelo exército, bem como as informações fornecidas pelos próprios oficiais colombianos".

Antes das trocas nas redes sociais, o Ministro da Defesa descreveu o artigo como "cheio de inconsistências".

O diretor da divisão das Américas da Human Rights Watch (HEW), José Miguel Vivanco, voltou a criticar as autoridades colombianas, depois de a organização já ter denunciado em fevereiro execuções extrajudiciais por parte de generais colombianos envolvidos. "Estas práticas sugerem que o atual exército e o Ministério da Defesa não aprenderam nada com um dos capítulos mais negros da história da Colômbia, os 'falsos positivos' colocam a população civil em grande perigo", reagiu no Twitter.

Os "falsos positivos" dizem respeito a execuções de civis por membros das forças de segurança entre 2002 e 2008, para falsificar por alto o número de guerrilheiros abatidos com o objetivo de obterem promoções e outras vantagens.

Segundo a HRW, "mais de 3.000 civis" foram mortos durante este período. Um total de 961 militares foram condenados por esses crimes, de acordo com o Ministério Público. A Colômbia tenta terminar com um conflito armado que se prolonga há mais de 50 anos - em particular após o acordo de paz de 2016 e o desarmamento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) -, que envolveu dezenas de organizações guerrilheiras, milícias paramilitares de extrema-direita e forças da ordem, com um balanço de oito milhões de vítimas, entre mortos, desaparecidos e populações deslocadas.