Joachim Gauck, o presidente que criou um problema político a Merkel

Chefe de Estado recusa segundo mandato com o argumento da idade avançada. Novo nome escolhido em setembro.

"O presidente Joachim Gauck não pode tornar-se nem mais popular nem mais novo." Foi com esta frase que a cadeia de televisão ARD começou a notícia em que dava conta de que o atual Bundespräsident, de 76 anos, não vai candidatar-se a um novo mandato quando cessar o atual, em março de 2017.

Gauck invocou a idade como principal razão, recordando que, a permanecer na presidência, teria 82 anos ao terminar o segundo mandato. "Não teria a energia nem a vitalidade" necessárias para o exercício das funções, afirmou este pastor luterano nascido em 1940 na cidade portuária de Rostock, no Báltico, e que se tornou uma figura conhecida na antiga República Democrática Alemã (RDA) como um dos porta-vozes do movimento Novo Fórum, oposição ao regime comunista no final dos anos 80.

A decisão de Gauck, elogiada transversalmente na sociedade alemã, vem criar um problema político à chanceler Angela Merkel.

O percurso e a estatura ética do presidente tornavam-no um nome consensual à sua própria sucessão, podendo contar com o voto dos democratas-cristãos da chanceler, dos sociais-democratas do SPD e dos Verdes, terceira força política no Bundestag e principal formação da oposição.

Segundo as mais recentes sondagens, a atuação de Gauck na presidência é referendada por dois terços dos inquiridos. E sendo a função presidencial na Alemanha essencialmente honorífica, a dimensão ética assume uma relevância central na linha de uma tradição que, sob diferentes formas e em diferentes momentos desde a criação da República Federal da Alemanha (RFA), em 1948, até à reunificação, em outubro de 1990, foi praticada por vários presidentes, com destaque para Richard von Weizsäcker. Presidente entre 1984 e 1994, Weizsäcker foi o primeiro nestas funções a reconhecer, em 1985, a responsabilidade do seu país no Holocausto e a afirmar que o fim da Segunda Guerra Mundial significara a libertação e não a capitulação da Alemanha.

Tendo como referência Weizsäcker - note-se que este foi o único candidato a presidente que não teve adversários, tendo recebido 881 votos do colégio eleitoral (1260 deputados e representantes dos 16 länder ou regiões) -, Gauck teve 991 votos enquanto uma outra candidata, Beate Klarsfeld, apoiada pelo partido A Esquerda (Die Linke) teve 126 votos.

Ao ser conhecida a decisão de Gauck, o Frankfurter Allgemeine Zeitung, estabelecendo um pri-meiro balanço, escreveu que este, que fora candidato pelo SPD nas presidenciais antecipadas de 2010, foi "independente", "um homem honesto que soube conduzir-se entre a direita e a esquerda, as elites e o povo, o medo e a esperança" - o seu desempenho "honrou a função e o país", conclui o diário.

Gauck, que viveu toda a vida até à reunificação na RDA, viu três dos seus quatro filhos procurarem refúgio na Alemanha Federal e foi proibido de estudar filosofia e literatura alemã devido à reputação de anticomunista e por ter nascido numa família em que o pai foi oficial do exército e membro do partido nazi.

Na sequência da reunificação, foi responsável pelo tratamento dos arquivos dos serviços secretos da RDA, a Stasi, de 1990 a 2000. O modo como geriu a divulgação de informações relativas à cumplicidade de figuras públicas e cidadãos anónimos com aquela polícia política, em paralelo com um debate sobre o âmbito da responsabilidade e do perdão, foi determinante para consolidar a sua reputação e a popularidade entre os alemães.

Merkel e as escolhas possíveis

Para substituir o presidente que acusou Vladimir Putin de ter "grande apetite", a propósito da atuação russa na Ucrânia, e reconheceu o genocídio arménio pelo império otomano, o que motivou em 2015 críticas do homólogo turco, Recep Tayyip Erdogan, a chanceler tem um número limitado de possibilidades.

Um quadro complicado pela contestação que enfrenta no próprio partido (a CDU-CSU) na questão dos refugiados sírios, no quadro da coligação com o SPD e da própria relação com a oposição dos Verdes. O principal desafio é o de encontrar um nome consensual para todas estas formações. No momento atual, o nome que poderia estar mais próximo disso seria o do ministro dos Negócios Estrangeiros, o social-democrata Frank-Walter Steinmeier, figura popular no país.

Candidato a chanceler pelo SPD nas legislativas de 2009, Steinmeier foi responsável pela diplomacia de Berlim no primeiro governo de coligação CDU-CSU/SPD (2005-2009), posição a que voltou na segunda coligação, a partir de 2013.

Outros nomes incluem o ministro das Finanças Wolfgang Schäuble, o presidente do Parlamento, Norbert Lammert, dirigente da CDU como Schäuble, e ainda Gerda Hasselfeldt, da CSU. Qualquer destas personalidades, a confirmarem-se, indicam que Merkel poderia optar por um candidato próprio, a pensar nas legislativas a realizarem-se cerca de seis meses após o final de mandato de Gauck, em setembro de 2017. Uma lógica que pode também aplicar-se ao SPD e também aos Verdes. Os media alemães referiram que estes poderiam avançar com o nome do chefe do governo regional de Bade-Vurtemberga, Winfried Kretschmann, que teria o apoio do SPD e do Die Linke, tendo dirigentes deste último evidenciado disponibilidade para uma tal solução.

A questão é se a CDU-CSU conseguiria, por exemplo, com o apoio dos representantes regionais dos liberais do FDP e dos eurocéticos da Alternativa para a Alemanha (AfD) impor um candidato próprio. Neste cenário, Schäuble seria talvez o nome mais interessante, mas as críticas que dirige à AfD poderão comprometer esta opção. Ou, se Merkel, apesar de tudo, aposta numa aliança com o SPD.

A chanceler, que disse ter "preferido" que Gauck desempenhasse novo mandato, anunciou que a escolha do sucessor será feita após as regionais de setembro no Mecklemburgo-Pomerânia e em Berlim.

O colégio eleitoral, a reunir-se hoje, teria 550 representantes da CDU-CSU e 490 para o SPD, com os restantes 120 repartidos pelas restantes forças. Ora, esta relação pode ser modificada em setembro.

A escolha do novo presidente será em fevereiro de 2017. De qualquer modo, um candidato como Gauck parece impossível de se encontrar. Por isso, o Die Tageszeitung sugeria a meio da semana que "está na altura de uma mulher ser presidente". Angela Merkel seria a escolha?

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