Jihadistas detidos ligados a imã que aplaudiu morte de cartoonistas

Pelo menos 15 pessoas detidas em operação realizada em seis país europeus

A polícia de seis países europeus desmantelou ontem uma rede jihadista que pretendia atacar diplomatas britânicos e noruegueses como forma de pressão para conseguir libertar o imã Krekar, um iraquiano curdo que está preso na Noruega desde fevereiro por glorificar o ataque terrorista ao jornal satírico francês Charlie Hebdo.

Na operação coordenada pelas autoridades italianas foram detidas pelo menos 15 pessoas em Itália, no Reino Unido, na Noruega, na Finlândia, na Alemanha e na Suíça, embora tenham sido emitidos 17 mandados de captura ao todo. Segundo a Reuters um dos procurados encontrar-se-á agora no Iraque, enquanto um outro poderia já ter sido localizado em território suíço. Todos os detidos são de origem curda, à exceção de um que é kosovar, precisou a agência Ansa.

"Foi uma investigação incrivelmente complicada e difícil, que decorreu ao longo de cinco anos, disse o procurador Franco Roberti, chefe da unidade de combate à máfia e ao terrorismo em Itália. "No curso da investigação vimos alguns combatentes partirem para a Síria e morrerem nesse conflito", precisou o procurador de Roma Giancarlo Capaldo, citado pela Reuters, enquanto o ministro do Interior italiano falou "numa importantíssima operação antiterrorismo que põe em evidência a força do Estado e a da cooperação a nível internacional". Angelino Alfano, ex-aliado de Berlusconi, declarou inclusivamente: "Somos um país exposto ao risco do terrorismo internacional porque formamos parte dessa grande coligação que luta contra o califado. Hoje é um grande dia para o nosso país."

Segundo o Eurojust, organismo da União Europeia que ajuda investigadores e procuradores a trabalhar em conjunto contra a criminalidade transfronteiriça, a rede jihadista operava através da internet e, de acordo com informações veiculados por alguns media europeus, pretendia libertar o imã Krekar. Nascido Najmuddin Ahmad Faraj, o pregador radical sunita fundou o grupo Ansar al-Islam, que luta contra o governo do Norte do Iraque. Chegado como refugiado à Noruega no ano de 1991, o imã de 59 anos considerou, em 2006, a publicação dos cartoons de Maomé como "uma declaração de guerra" e no início deste ano glorificou numa entrevista televisiva o ataque que resultou na morte dos cartoonistas do jornal francês Charlie Hebdo. Por isso, foi preso, em fevereiro. "O cartoonista tornou-se um infiel na guerra e por isso é permitido matá-lo", declarou à televisão NRK.

Apesar da insistência das autoridades do Norte do Iraque e da vontade das autoridades norueguesas, Krekar não pode ser extraditado, pois a lei norueguesa proíbe que uma pessoa seja deportada para o seu país de origem se aí correr perigo de condenação à morte. Hipótese que, neste caso, existe. Em entrevista à televisão Al-Jazeera, também no início deste ano, o pregador iraquiano curdo afirmou: "O Estado Islâmico não é algo estranho. É o único elemento que pode realizar as nossas ambições e sonhos."

A rede ontem desmantelada constitui, segundo o Eurojust, uma evolução do Ansar al-Islam. "O Rawti Shax ou o Didi Nwe ["novo rumo" ou "rumo à montanha"] é liderado por Najmuddin Ahmad Faraj e tem como objetivo primordial derrubar de forma violenta o atual governo curdo do Iraque e substituí-lo por um califado que seja governado pela lei da sharia. Ao contrário do Ansar al-Islam, o Rawti Shax tem as suas raízes na Europa, com células que comunicam e operam através da internet. À medida que evoluiu, o grupo tornou-se ativo em fornecer apoio financeiro para recrutar combatentes estrangeiros para a Síria e para o Iraque, com o objetivo de os treinar para um conflito futuro no Curdistão."

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