Investidores temem que se esteja a "poucos passos" de nova crise da dívida

Juros de dívida da Itália dispararam e causaram pânico. Analistas avisam que próximos tempos não vão ser fáceis. Bolsa de Lisboa ressente-se e perde 4000 milhões em cinco dias. Juros portugueses tocaram em máximos de seis meses

Juros da dívida dos países do Sul da Europa a disparar. Bolsas sob pressão. Bancos a pique. Dúvidas sobre o euro. Era o dia-a-dia nos mercados financeiros durante a crise de dívida soberana que ameaçou o euro. O guião foi desenterrado nos últimos dias com a instabilidade política em Itália, a terceira maior economia da zona euro. E de Espanha também surgem ventos de incerteza, com o governo a enfrentar moções de censura.

Os investidores temem um regresso ao passado recente que complicou o financiamento dos países mais frágeis e ameaçou a própria existência do euro. O governador do Banco de Itália, Ignazio Visco, avisou ontem que o país "está apenas a poucos passos do sério risco de perder a insubstituível confiança" dos investidores.

Vítor Constâncio, o vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE), entendeu que a situação é suficientemente grave para relembrar quais as regras que um país deve seguir para ter apoio do banco central caso deixe de conseguir obter dinheiro nos mercados. "A Itália sabe as regras. Talvez as queira ler outra vez", disse. Os programas de apoio do banco central destinam-se apenas a países que se comprometam com metas orçamentais predefinidas.

Dia de pânico

Os mercados já davam sinais de nervosismo com a possibilidade de um governo antieuro e que defende mais despesa orçamental constituído por uma coligação entre a Liga e o Movimento 5 Estrelas governar Itália. Mais ainda quando Giuseppe Conte, que tinha sido encarregado de formar governo, escolheu um economista antieuro para a pasta das Finanças. Essa nomeação acabaria travada pelo presidente, Sergio Mattarella. Conte desistiu de formar governo e Mattarella escolheu, nesta segunda-feira, um antigo diretor do Fundo Monetário Internacional, Carlo Cottarelli, para liderar um governo provisório até 2019.

A emenda aparenta ter sido pior do que o soneto. Apesar de uma reação inicial de curta acalmia dos mercados, rapidamente os investidores começaram a castigar as bolsas e a dívida. Esse impacto foi mais visível nas taxas das obrigações italianas. No prazo a dois anos foi um dos piores dias de sempre. Nem nos dias de maior pânico da crise de 2011-2012 houve um agravamento tão elevado. O juro exigido pelos investidores para comprarem dívida italiana a dois anos mais que duplicou para 2,55%. A bolsa de Milão perdeu 2,65%. Os grandes bancos lideraram as quedas.

E o pânico alastrou. O euro perdeu mais de 0,50% face ao dólar. A bolsa portuguesa não escapou e cedeu 2,61%. Leva já uma desvalorização de 7,20% em cinco sessões. Eclipsaram-se 4,07 mil milhões de valor de mercado. O BCP foi o mais afetado, já que a banca é o setor mais sensível à saúde dos soberanos. Desvaloriza mais de 15% naquele período, encolhendo 655 milhões. A dívida portuguesa também se ressente. A taxa a dez anos subiu ontem de 2,07% para 2,19%. Chegou a atingir o valor mais alto desde outubro do ano passado.

E há avisos de que este cenário de instabilidade não deverá terminar tão cedo. Apesar da decisão de Mattarella garantir um líder do governo a favor da permanência na zona euro, os analistas salientam que isso não passa de uma solução de curto prazo e que até pode reforçar as intenções de voto nos partidos antissistema. "Com muito poucas perspetivas de um desfecho diferente noutras eleições, os receios dos mercados têm pouca probabilidade de serem acalmados", alertou o banco RBC Capital Markets.

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