Xi recebe Trump como um imperador. Hoje é dia de discutir a Coreia do Norte

Presidente americano é o primeiro líder estrangeiro a ter a honra de jantar na Cidade Proibida, em Pequim, desde 1949.

Esvaziada dos milhares de turistas que ali se costumam amontoar, a Cidade Proibida recebeu ontem Donald e Melania Trump para uma visita guiada por Xi Jinping e a pela mulher, Peng Liyuan. O presidente chinês preparou uma receção digna de um imperador para o homólogo americano na primeira visita deste a Pequim. Um dia de turismo presidencial que culminou num jantar dentro do palácio dos imperadores chineses - uma honra nunca antes dada a um líder estrangeiro desde a fundação da China moderna - antes de passarem às coisas sérias, numa série de encontros bilaterais em que a Coreia do Norte vai dominar a agenda. A par do comércio.

Na Coreia do Sul, antes de embarcar para Pequim, Trump deixou um apelo aos países da região para isolarem Pyongyang, negando-lhe "apoio, abastecimento ou aceitação". A China é dos poucos aliados da Coreia do Norte e seu principal parceiro comercial, apesar de nos últimos anos Pequim se ter mostrado por vezes crítica em relação aos ensaios nucleares de Pyongyang.

Depois de na terça-feira de manhã ter mostrado alguma abertura para um acordo diplomático caso a Coreia do Norte abandone o nuclear "de forma completa", ao final do dia (madrugada de ontem em Lisboa) Trump voltou à retórica bélica. "Não nos subestimem, nem nos desafiem", alertou. Ao que responsáveis norte-coreanos ouvidos pela CNN responderam: "Não queremos saber do que esse cão raivoso diz, já ouvimos o suficiente".

Washington tem pressionado Pequim para convencer o líder norte-coreano, Kim Jong-un, a abandonar o programa nuclear. E nesta viagem, Trump deve pedir a Xi para respeitar as resoluções da ONU e cortar financiamento a Pyongyang. Pequim garante que o Ocidente exagera o seu apoio à Coreia do Norte e já anunciou a intenção de cumprir as resoluções da ONU, investigando se houve alguma violação.

Outro assunto em cima da mesa será o comércio, com o secretário do Comércio americano, Wilbur Ross, a assinar contratos de nove mil milhões dólares numa cerimónia em Pequim em que participaram empresários americanos. Mas segundo a Bloomberg o objetivo da Casa Branca é bem mais ambicioso: garantir negócios no valor de 250 mil milhões de dólares na China.

Uma relação a quente e frio

Recebido com passadeira vermelha quando saiu do Air Force One em Pequim - em contraste com a visita do antecessor, Barack Obama, obrigado a sair pela porta na traseira do avião em 2016 - Trump retomou ontem o bromance (um romance entre irmãos) com o presidente Xi Jinping. Os dois encetaram as boas relações no passado mês de abril durante uma visita do líder chinês e da mulher ao resort do presidente, em Mar-a-Lago, na Florida.

"Acredito que esta visita vai conseguir resultados importantes e positivos, com esforços concertados de ambos os lados", afirmou ontem Xi Jinping, citado pela agência oficial chinesa, Xinhua. Reforçado na sua liderança durante o recente Congresso do Partido Comunista Chinês, que inscreveu a sua doutrina na sua constituição - uma honra só reservada a Mao Tse-tung. E a Deng Xiaoping, mas apenas após a sua morte - Xi fez as honras da casa, conduzindo Trump e Melania num passeio pela Cidade Proibida que incluiu tirarem fotos com atores de uma ópera chinesa a que assistiram e ver um vídeo de Arabella, uma das netas do presidente americano a cantar em mandarim - prestação que Xi disse merecer "nota máxima" -, enquanto tomavam chá. "Xi vai tratar Trump como um imperador", explicava à CNN Ming Wang, professor de governação na George Mason University, na Virgínia.

Antes ainda de chegar a Pequim, onde o esperavam vários jovens alunos chineses com bandeiras americanas e até, segundo a CNN, alguns gritos de "I love you!", Trump teceu elogios a Xi, destacando a sua "grande vitória política". Mas as palavras do milionário em relação à China nem sempre foram tão simpáticas. Em maio de 2016, seis meses antes de vencer as eleições americanas, Trump garantia: "Não podemos continuar a permitir que a China viole o nosso país e é isso que eles estão a fazer. É o maior roubo da história do mundo"

Desde que chegou à Casa Branca, Trump moderou a retórica e parece agora mais interessado em trabalhar com Pequim para travar as ambições norte-coreanas do que em acusar Pequim de manipulação cambial e em ameaçar tomar medidas contra o que dizia serem "práticas comerciais abusivas".

Depois da descontração, hoje é dia de discussões sérias, antes de Trump seguir para as duas últimas etapas da sua visita à Ásia: o Vietname e as Filipinas. Estas últimas recebem a Cimeira da Cooperação Económica Ásia-Pacífico, à margem da qual deverá encontrar-se com o presidente russo, Vladimir Putin.

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