Xi quer a China em lugar de primeiro plano no mundo

Presidente prometeu uma "potência socialista" de projeção internacional em 2050. E reconheceu desafios económicos.

O presidente Xi Jinping falou durante três horas e meia na abertura do XIX Congresso do Partido Comunista da China (PCC) que se iniciou ontem Pequim. E nesta intervenção recorreu 36 vezes à expressão "nova era" para sublinhar a ideia de que a China está em vias de se tornar "um país socialista moderno", com capacidade de criar riqueza, combater a corrupção assim como as desigualdades sociais, aberto ao mundo e com direito a lugar de primeiro plano no quadro internacional.

O presidente Xi estabeleceu como metas a transformação do país "numa sociedade socialista moderna" em menos de duas décadas - ou seja, até 2035 - e numa "potência socialista" com projeção mundial até 2050. Deixou também claro que não há espaço para reformas no sistema político, que classificou como genuinamente orientado para a defesa dos interesses de toda a população.

O discurso - pronunciado perante cerca de 2300 delegados que, de forma ostensiva, segundo as agências, mostravam estarem a lê-lo enquanto ouviam Xi - foi transmitido em direto pelas principais estações televisivas. Assim, foi possível observar os delegados a passarem de forma praticamente simultânea as folhas do discurso do líder do PCC e os aplausos a intervalos regulares com que foram pontuando a sua intervenção. As reportagens televisivas dedicaram igualmente bastante espaço das suas emissões aos delegados provenientes de regiões mais distantes e de minorias étnicas, envergando os trajes tradicionais dos respetivos povos.

Bastante notada foi a presença de Jiang Zemin (sucessor de Deng Xiaoping e no poder entre 1993 e 2002), de 91 anos, cuja aparente tentativa de fazer pesar a sua influência nos destinos do partido, foi sibilinamente criticada em publicações oficiais pouco antes do congresso. Também presente esteve Hu Jintao, sucessor de Jiang, que tem mantido um perfil de absoluta discrição.

Importante parte da alocução de Xi esteve centrada nas questões económicas, com o secretário-geral do PCC a garantir que a China vai reforçar a importância das regras de mercado e criar melhores condições para a presença de empresas estrangeiras, cujos "interesses e direitos legítimos serão protegidos". Noutro ponto da sua intervenção, ecoando algumas das ideias que apresentou em janeiro no Fórum de Davos - naquilo que foi então considerado uma crítica à política isolacionista de Donald Trump e uma aposta na mundialização -, Xi afirmou que "a abertura traz consigo progresso, o isolacionismo leva-nos de volta ao passado", garantindo que "a China não vai fechar portas".

No plano dos factos, os empresários estrangeiros têm denunciado situações de discriminação, a obrigação de se associarem a empresas locais e, em muitos casos, de estarem forçados a transferências de tecnologia para conseguirem operar no mercado chinês.

Na sua intervenção, Xi não deixou de referir as crescentes desigualdades nos salários, mas também a importância do setor público da Economia, e apontou para os riscos de bolhas imobiliárias: "uma casa é feita para se viver nela, não deve servir para especulação". Como não podia deixar de ser, o dirigente comunista sublinhou a importância da campanha anticorrupção no seio do PCC e da sociedade, iniciativa desencadeada após a sua chegada ao poder em 2012.

Xi será certamente reeleito secretário-geral do PCC, continuando os analistas a especular se é sua intenção permanecer no poder para além de 2022. Um cenário ontem delineado é o de que Xi deixará a presidência do país, mas continuaria como dirigente do partido e líder da Comissão Militar Central. Jiang Zemin manteve a direção deste último órgão durante três anos após deixar a presidência e a liderança do PCC.

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