"Wall Street é a maior força política do país", diz Sanders a Hillary

Ataques subiram de intensidade no debate democrata entre o senador do Vermont e a ex-secretária de Estado de Barack Obama

Bernie Sanders e Hillary Clinton, os dois candidatos à nomeação democrata para as eleições presidenciais de 8 de novembro nos EUA, aumentaram a intensidade dos ataques que dirigiram um contra o outro no debate de quinta-feira à noite - madrugada em Lisboa - na Universidade do New Hampshire, na cidade de Durham.

Foi o quinto debate democrata, mas o primeiro frente-a-frente entre o senador do Vermont e a ex-secretária de Estado norte-americana. O terceiro aspirante, Martin O"Malley, desistiu após os maus resultados obtidos no 'caucus' do Iowa - os quais evidenciaram uma grande divisão no partido que apoia o atual presidente Barack Obama.

"Wall Street é a maior força política deste país", disse Sanders, atacando diretamente o modo de financiamento das campanhas, por vezes marcado por fundos ocultos. Farta de insinuações, Clinton respondeu em tom desafiador: "Basta. Se tem algo a dizer, diga. Mas não conseguirá demonstrar que alguma vez mudei a minha opinião ou o meu voto por causa de qualquer donativo que tenha recebido." Por isso, reafirmou, "penso que é altura de se deixarem dos astutos boatos que o senhor e a sua campanha têm vindo a espalhar".

Não foi a primeira vez que o senador do Vermont, de 74 anos, insistiu no tema de Wall Street. Recorde-se que a crise do mercado imobiliário e a queda da Bolsa norte-americana lançou ondas de choque fortíssimas, que chegaram até à União Europeia, com os efeitos conhecidos. A especulação que esteve na origem dessa mesma crise chegou a inspirar vários filmes, como sejam, por exemplo, O Lobo de Wall Street e A Queda de Wall Street (este último atualmente em exibição nos cinemas).

Entre as propostas que são feitas por Bernie Sanders está a criação de um novo imposto sobre a especulação de Wall Street, que serviria para pagar as propinas aos estudantes nas universidades públicas dos Estados Unidos. "A classe média resgatou Wall Street quando eles precisaram. Agora é a vez de Wall Street ajudar a classe média", disse, no debate, realizado a cinco dias das primárias no estado do New Hampshire.

Depois de ter ficado por muito pouco atrás de Clinton no Iowa (ela teve 49,8% e ele 49,6%), Sanders surge agora em primeiro lugar nas sondagens realizadas com vista às primárias de dia 9. Assim, um inquérito de opinião WMUR, divulgado na quinta-feira pela CNN, dá ao senador do Vermont 61% e à ex-primeira-dama dos EUA 30%. O estudo foi realizado entre os dias 2 e 4, já depois do Iowa, pelo centro de sondagens da Universidade do New Hampshire, com recurso a 556 entrevistas telefónicas a residentes desse estado.

Na troca de galhardetes que teve no debate com Sanders, Clinton, atualmente com 68 anos, disse não deixar de "ser divertido" considerar que "uma mulher a concorrer para ser a primeira mulher presidente" seja vista como alguém que faz parte do 'establishment'. Os dois discutiram em seguida sobre qual deles é o melhor representante dos ideais progressistas. O senador, durante anos, foi independente, prometeu uma "revolução política". A ex-secretária de Estado questionou a capacidade do rival para fazer aprovar medidas num Congresso dominado pelos republicanos e aproveitou para sublinhar: "Um progressista é uma pessoa capaz de fazer progressos."

No capítulo da política externa, Clinton marcou claramente pontos e fez-se valer da sua experiência como chefe da diplomacia na primeira administração Obama. A can- didata à nomeação democrata para presidente dos EUA lembrou que foi ela a iniciar o trabalho diplomático que agora resultou no acordo com o Irão sobre o seu programa nuclear. "Fui eu que criei a equipa que impôs novas sanções." Clinton, ao contrário de Sanders, recusa acelerar a normalização de relações com Teerão.

Recusando explorar a polémica utilização da conta pessoal de e--mail por Hillary para enviar informações classificadas quando era secretária de Estado, Sanders considerou que a maior ameaça aos EUA é a Coreia do Norte. "A Rússia vive na realidade, a China também, mas a Coreia do Norte é um país muito estranho e vive isolado." Clinton escolheu Moscovo como principal ameaça: "A Rússia está a tentar alterar as fronteiras do pós-II Guerra Mundial na Europa. É preciso enviarmos uma mensagem clara a Vladimir Putin."

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