"Voto em Trump é resposta ao esfumar-se do sonho americano"

Jorge Argüello, antigo embaixador argentino nos EUA e em Portugal, oferece hoje em Lisboa a sua visão pessoal, e hispânica, das eleições americanas numa conferência no ISCTE-IUL. Académico e diplomata é autor de "Historia Urgente de Estados Unidos", publicado em Buenos Aires.

Foi estudante no Indiana, regressou como embaixador argentino junto da ONU e viveu em Nova Iorque, por fim instalou-se em Washington como embaixador nos Estados Unidos. Pode confirmar que há várias Américas?

Vivi em três locais diferentes, em três momentos diferentes. Na década de 1970, estive um ano e meio a estudar no que é um típico estado do Midwest americano. Aí, no Indiana, pude conhecer o que são os Estados Unidos profundos. Em 2007 nomearam-me embaixador junto das Nações Unidas e instalei-me em Nova Iorque, que é a mais icónica cidade do país e paradoxalmente uma cidade que tem muito pouco que ver com o resto dos Estados Unidos. Nos cinco anos em Nova Iorque aprendi a conhecer os Estados Unidos como superpotência, mostrando o seu poder no Conselho de Segurança da ONU. A minha visão completou-se anos mais tarde, quando fui designado embaixador em Washington. Ali encontrei o mundo do aparelho industrial-militar, o congresso e os lobbies. Tudo isto me deu um conhecimento deste país que vi mudar ao longo destas quatro décadas e é sobre essas mudanças que versa o livro que acabo de publicar.

Quando fala dos locais onde viveu quase identificamos um triângulo Trump: nova-iorquino, apoiado pela América profunda e odeia Washington. Surpreende-o este fenómeno Trump?

Creio que Donald Trump é uma consequência do processo de mudanças que os Estados Unidos vivem. E estas mudanças afastaram as certezas do sonho americano, essa promessa de que um trabalhador se se esforçasse muito podia sustentar a família, comprar casa e carro, pôr os filhos a estudar na universidade e ter a certeza de que iam viver melhor do que ele. O sonho americano esfumou-se. O que reina é a incerteza. O voto em Trump é a consequência desta incerteza.

É um voto de protesto?

Significa que querem escutar o que Trump diz. E talvez saibam que aquilo que promete não pode cumprir. Porque a promessa de Trump é devolver a grandeza aos Estados Unidos. E isso é impossível, porque o processo de mudanças determinou que é impossível. Creio que Trump é uma resposta, muito de curto-prazo, que serve para expressar o mal-estar das pessoas. Note que algo semelhante aconteceu no campo democrata. 2016 foi o ano dos outsiders. Bernie Sanders é um veterano socialista que há 40 anos diz o mesmo e ninguém o ouvia. No entanto, este ano foi capaz de mobilizar centenas de milhares de jovens, seduzidos pela proposta de renovar a política. E manteve em xeque Hillary até que finalmente lhe deu o apoio na convenção quando ela aceitou que várias das suas propostas fossem incluídas no programa.

Concorda quando descrevem Hillary como a pessoa mais preparada alguma vez candidata a presidente dos Estados Unidos?

Creio que Hillary é a pessoa mais preparada politicamente que existe nos Estados Unidos. Foi quatro vezes primeira-dama, duas vezes no Arkansas e duas vezes na Casa Branca, e não foi uma primeira dama decorativa. Assumia a execução de políticas importantes, como fez com a tentativa de reforma da saúde. Claro, foi chefe da diplomacia do presidente Obama e antes senadora por Nova Iorque. O nível de preparação que Hillary tem parece-me insuperável nos Estados Unidos. Mas tem um problema: é uma pessoa pouco querida. Tanto Hillary como Trump têm altos níveis de rejeição e desconfiança. Tenho a impressão que os americanos nestas eleições vão votar contra o outro candidato. E vão escolher a opção menos má. Mas repare: Sanders não era um filiado democrata, Trump foi um tradicional dador do partido democrata. Hillary, já em 2007 quando cheguei aos Estados Unidos, não se duvidava que seria a próxima presidente e depois em 2008 chegou o furacão Obama e varreu-a do mapa. Algo está a acontecer aos partidos políticos para que em 2016 os três grandes protagonistas sejam dois outsiders e uma figura desgastada.

Sei que conheceu Barack Obama. Como avalia os seus dois mandatos?

Foram positivos em vários aspetos. No campo económico, Obama deixa o país com uma taxa de desemprego inferior a 5% e recebeu o país em plena crise das hipotecas. Por outro lado, também não cumpriu muitas das expectativas que gerou. Por exemplo, não acabou com Guantánamo. Obama é também o presidente que mais tempo esteve em guerra na história dos Estados Unidos porque a retirada de tropas do Iraque foi relativa e há novas modalidades como o uso de drones.

Como hispânico, considera que o discurso de Trump contra os imigrantes tem que ver com a ideia de que as minorias vêm roubar o trabalho aos brancos?

Há que ter em conta que os Estados Unidos caminham para ser um país de maioria não branca. Hoje os brancos são 75% da população, mas dentro de 50 anos vão ser 46% e os latinos 26%. Há um processo de alteração da geografia social e isso reflete-se no discurso de Trump. Por outro lado é um país que está num processo de crescente desigualdade: quando eu vivia lá, 63% dos americanos eram de classe média. Hoje 46% são de classe média. Pela primeira vez na história recente a soma dos ricos e dos pobres dá mais do que a classe média. A isto soma-se a mudança no contexto internacional. Na década de 1970 o mundo dividia-se em bons e maus e eles eram os bons. Agora o mundo é multipolar e há novas realidades económicas que estão a ameaçar a supremacia americana. Tudo isto traz grande certeza e isto é aproveitado pelo candidato menos preparado dos últimos 50 anos.

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