Vladimir Netto: "A crise da Lava-Jato é regeneradora"

Assim que pôde, Vladimir Netto visitou o centro de Lisboa e Belém e sentiu-se emocionado porque é a primeira vez que está em Portugal, terra do avô. "Tudo graças ao livro" pelo qual sente um "grande carinho" e que detalha a operação Lava-Jato. E como os factos descritos no livro vão até maio de 2016, há nova obra a caminho. O sucesso da obra levou José Padilha a adaptá-lo para a série da Netflix O Mecanismo.

O que o levou a escrever este livro?

Acabei por me especializar ao longo da minha carreira em grandes casos de corrupção. Quando este começou percebi que tinha características diferentes: o negócio dos doleiros [cambistas ilegais] e depois do Paulo Roberto Costa [ex-diretor da Petrobras], que abriu uma caixa de Pandora. Só por isso já valia escrever esse livro, mas a história é muito melhor do que isso. Levou preso o primeiro senador em exercício de mandato. E todas as decisões judiciais são inéditas. A própria prisão do Paulo Roberto foi uma coisa inédita. E só foi possível graças a uma série de coincidências. Pegaram o doleiro [Youssef] e no meio encontraram uma nota fiscal de um carro, que era um presente para o ex-diretor da Petrobras. Ele já tinha saído da empresa há ano e meio e continuava a receber. Quando regressou de uma reunião com Youssef passaram num concessionário e disse "Que carro legal! Um dia eu quero ter", ao que o doleiro disse "Para quê esperar?". Esse capricho acabou por ser uma prova fundamental. Mas se ele fosse só depor não estávamos aqui hoje. Cometeu um erro ao pedir às filhas para irem ao escritório pegar nos documentos e no dinheiro. Quando foi preso sentiu a pressão familiar e decidiu falar. Na normalidade em que vivíamos na época isto não teria acontecido.

Um dos fatores será o juiz Sergio Moro.

É um dos elementos, é um dos elementos... Mas a Lava Jato não é obra de um homem só, não dá para creditar ao Sergio Moro todos os sucessos e insucessos.

Sergio Moro tem ambições políticas?

Acho que não. Surpreendia-me muito se ele se candidatasse.

Outro fator foi o uso da delação premiada.

Em Portugal só existe para casos de tráfico de droga. Era assim no Brasil também até 2013, até que a lei melhorou esse instrumento. Está a ser usada em larga escala contra a corrupção na Lava Jato e isso teve um efeito enorme. Hoje há mais de 150 delatores. Se não fosse a delação premiada não havia Lava Jato.

O advogado de Youssef, Figueiredo Basto, disse a certa altura que com o Sergio Moro no processo os advogados iam viver um inferno. E o Brasil, está melhor ou ainda num inferno?

Está melhor do que antes da Lava Jato. Agora está uma confusão política, não sei se os dois infernos são comparáveis. O que ele previu efetivamente aconteceu. Os advogados não estavam preparados para o que ia acontecer. Todos os grandes advogados de defesa estão numa charutaria de Curitiba discutindo o caso e um deles brinca com ele, a dizer que vão levar o caso para Brasília e ficar ricos e que Figueiredo Basto é um único que vai ficar ali. E foi então que ele os avisou de que alguma coisa mudara. O Brasil já mudou, não mais será o mesmo. Agora se será melhor ou pior vai depender do resultado final desta batalha. A minha esperança é que ajude a melhorar a qualidade da democracia brasileira.

Mas para já vive uma enorme clivagem social.

É verdade, mas isso deve-se ao momento político. Quando a Lava Jato começou a investigar os políticos começou a gerar essa reação muito grande. Era impossível que a prisão de um líder tão popular não fosse controversa, ia provocar reações apaixonadas. O livro contribui com uma visão dos factos. A única opinião que dou é que a Lava Jato nos dá uma oportunidade de refletir sobre o que queremos para o futuro. A corrupção é o grande mal que impede o crescimento da América Latina, o pouco dinheiro que temos é desviado para outras coisas que não a saúde, a educação ou a segurança pública. Só os factos poderão ajudar a uma análise mais tranquila no futuro a par de toda essa emoção política que o Brasil está a viver neste momento e no próximo ano, por causa das eleições.

Acredita que Lula vai concorrer?

Acho muito difícil. Temos uma lei que proíbe condenados em segunda instância a concorrer.

Não teme a instauração de uma ditadura militar ou a eleição de um populista como Bolsonaro?

A democracia brasileira não está enfraquecida. Estamos a passar por uma crise, mas vai ser regeneradora. Agora é uma confusão, e por conta deste clima está tudo tão incerto para a eleição. Numa sondagem divulgada neste fim de semana a corrupção é um fator importantíssimo na definição do voto.

Os seus pais tinham admiração por Lenine?

Tinham. Eram militantes do Partido Comunista do Brasil. Foram presos pela ditadura, no final de 72. O meu pai esteve um ano e meio preso, torturado barbaramente, esteve nove meses numa solitária. A minha mãe estava grávida quando foi presa e saiu aos cinco meses de gestação, após tortura também. Os médicos disseram que se eu nascesse viria com problemas. O meu nome foi uma maneira de homenagear essa luta de resistência contra a ditadura. Carrego essa história no nome, mas a luta agora é outra. A luta agora é a corrupção.

Vladimir Netto

> Nasceu em Caratinga, Minas Gerais, há 44 anos

> Escreveu no Jornal do Brasil, Veja e O Globo

> Repórter premiado da TV Globo em Brasília

> O livro Lava Jato - Os bastidores da operação que abalou o Brasil e o mundo vendeu 200 mil exemplares e inspirou a série da Netflix O Mecanismo, de José Padilha.

Lava Jato - Os bastidores da operação que abalou o Brasil e o mundo

Vladimir Netto

Desassossego

384 págs.

PVP: 17,70 euros

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