Vitórias democratas em estaduais soam a derrota para o presidente

Republicanos perdem New Jersey e sofrem claro revés na Virgínia. Mayors de Nova Iorque e Boston facilmente reeleitos.

Se o presidente americano teve ontem um momento de glória em Pequim, onde foi recebido com distinções sem paralelo para um chefe de Estado estrangeiro de visita à República Popular da China, no plano interno foi um dia negro para Donald Trump e para os republicanos. Os candidatos deste partido sofreram derrotas em eleições para o cargo de governador nos estados da Virgínia e New Jersey, com as vitórias dos democratas Ralph Northam e Phil Murphy. E em duas importantes cidades dos Estados Unidos, Nova Iorque e Boston, os respetivos presidentes de Câmara, os democratas Bill de Blasio e Marty Walsh, foram reeleitos sem dificuldade.

Estes resultados, verificados pouco mais de um ano após a vitória de Trump nas presidenciais de novembro de 2016 - originando aquilo que The Hill classificava ontem como a "mais desmoralizante derrota na história política moderna para os democratas" - estavam ontem a ser vistos como um claro revés para Trump e para os republicanos alinhados com as suas posições. Como foi o caso do candidato na Virgínia, Ed Gillespie, apoiado pelo presidente e que, ao longo da campanha, adotou muitos dos temas daquele e recorreu a retórica similar. E se Trump apoiou Gillespie, ainda que não se envolvendo pessoalmente na campanha, distanciou-se imediatamente após serem conhecidos os resultados. "Ed Gillespie esforçou-se muito, mas não se identificou comigo nem com aquilo que eu defendo".

A campanha na Virgínia revelou-se verbalmente violenta, com Gillespie a procurar ridicularizar o democrata em temas como o direito à imigração, o crime e até na controversa questão das estátuas da Confederação, que têm vindo a ser retiradas do espaço público.

Numa reação à vitória e ao modo como decorreu a campanha, Northam afirmou que, com a sua eleição, "a Virgínia mostrou-nos a todos [nos EUA] para acabarmos com as políticas de antagonização, para não sermos cúmplices com atitudes de ódio e preconceito, para pormos fim ao tipo de política que dividiram este país".

O resultado é significativo na Virgínia, especialmente pela vantagem de Northam, 53,9%, sobre Gillespie, 45%, ainda que se esteja em território tradicionalmente democrata (o governador cessante é deste partido) e onde Hillary Clinton teve mais 5% de votos do que Trump em 2016. No entanto, os democratas tiveram excelentes resultados, ganhando ainda os lugares de governador-adjunto, procurador-geral do estado e desfizeram a maioria republicana na Câmara de Representantes local.

Já a derrota republicana em New Jersey apresenta outros contornos, pois o governador cessante é o republicano Chris Christie e apresentou-se a sua vice-governadora, Kim Guadagno, como candidata. O fracasso de Guadagno revela o fracasso da estratégia republicano para manter um estado que, tendencialmente, costuma votar democrata.

Conforme notava ontem a Reuters, citando sondagens à boca das urnas, indicava que a mobilização do eleitorado nas diferentes votações foi uma mobilização anti-Trump. O que fez um democrata da Virgínia na Câmara dos Representantes, Gerald Connolly, declarar: "Esta foi uma grande vitória. Obrigado Donald Trump!".

Ler mais

Exclusivos

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

Premium

Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.