"Homicídio por negligência". Justiça abre investigação após avalanche

Avalanche soterra hotel em Itália. Mais de 30 desaparecidos. Hóspedes aguardavam passagem do limpa-neves para saírem

Prosseguem as buscas para tentar localizar as vítimas da avalanche que soterrou o hotel Riogpiano, na cidade de Farindola, província de Pescara, em Itália, atingido por uma violenta avalanche na tarde de quarta-feira. No edifício encontravam-se pelo menos 34 pessoas, entre as quais duas crianças: 22 seriam turistas, hóspedes do hotel - entre as quais duas crianças - oito eram funcionários e outras quatro pessoas estavam de visita no local, mas não tinham pernoitado no estabelecimento de luxo, explicou Mario Mazzocca, responsável regional com o pelouro da Proteção Civil, citado pelo La Repubblica. O Ministério Público de Pescara abriu entretanto uma investigação de homicídio por negligência: os hóspedes do hotel estavam prontos para sair e aguardavam a passagem do limpa-neves, que se atrasou, indica a imprensa italiana.

Até ao momento, foram retirados dos escombros três corpos, e um quarto foi localizado. A estrutura do hotel ficou completamente destruída e foi mesmo afastada vários metros do local onde tinha sido construída pela força da avalanche.

De acordo com a edição online do jornal italiano La Repubblica, que cita o empregador de um dos dois homens que sobreviveram à avalanche, todos os hóspedes do hotel estavam prontos para abandonar o local e aguardavam apenas a passagem do limpa-neves, que acabou por ser adiada.

Segundo Quintino Marcella, o patrão de Gimpiero Parete, de 38 anos, as pessoas hospedadas no Rigopiano já tinham feito as malas e pago a conta. Esperavam no hall de entrada do hotel, com as bagagens, que passasse o limpa-neves que iria desobstruir as estradas e permitir-lhes circular com os automóveis. Tinham-lhes dito que o limpa-neves passaria às 15:00, mas a chegada do veículo foi adiada para as 19:00. "Todos os clientes queriam ir-se embora", garantiu Marcella. Foi ele quem recebeu, pelas 17:40 de quarta-feira (menos uma hora em Portugal continental) uma mensagem de Parete a alertar para a avalanche e avisou as autoridades.

Os membros das equipas de resgate só conseguiram chegar ao local pelas quatro da madrugada de quinta-feira, usando esquis. Giampero Parete e Fabio Salzetta, que no momento da avalanche se encontravam no exterior do hotel, junto dos automóveis, são os únicos dois sobreviventes localizados até ao momento. Salvaram-se porque tinham ido ao carro. "A minha mulher e os meus dois filhos ficaram no hotel", disse Parete. Ambos os homens foram assistidos e Parete estava em hipotermia, mas nenhum dos dois corria risco de vida.

"Chamamos em voz alta mas ninguém responde", dizem os socorristas que escavaram com as mãos até perto das 11 da manhã desta quinta-feira. Só nesta altura foi possível retirar toda a neve que impedia a utilização de meios mecânicos para continuar a escavar. As buscas centram-se sobretudo na área do hotel onde se acredita que estariam os hóspedes, mas a zona de pesquisa é mais ampla e estende-se por centenas de metros, num cenário descrito como "apocalíptico".

Os responsáveis municipais de Pescara mantêm reserva quanto ao número de vítimas, confirmando apenas que uma pessoa foi retirada sem vida. Francesco Provolo assegura que primeiro serão contactadas as famílias e é necessário ter "a certeza da situação" antes de divulgar qualquer informação.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Anselmo Borges

Globalização e ética global

1. Muitas das graves convulsões sociais em curso têm na sua base a globalização, que arrasta consigo inevitavelmente questões gigantescas e desperta paixões que nem sempre permitem um debate sereno e racional. Hans Küng, o famoso teólogo dito heterodoxo, mas que Francisco recuperou, deu um contributo para esse debate, que assenta em quatro teses. Segundo ele, a globalização é inevitável, ambivalente (com ganhadores e perdedores), e não calculável (pode levar ao milagre económico ou ao descalabro), mas também - e isto é o mais importante - dirigível. Isto significa que a globalização económica exige uma globalização no domínio ético. Impõe-se um consenso ético mínimo quanto a valores, atitudes e critérios, um ethos mundial para uma sociedade e uma economia mundiais. É o próprio mercado global que exige um ethos global, também para salvaguardar as diferentes tradições culturais da lógica global e avassaladora de uma espécie de "metafísica do mercado" e de uma sociedade de mercado total.