"Vice" de Alckmin aplaudiu tiros contra caravana de Lula

Ana Amélia, de 73 anos, é a escolhida do candidato do PSDB. Marina também já tem número dois. Bolsonaro e Ciro atrasam-se

Ana Amélia, senadora do PP de 73 anos, foi notícia pela terceira vez este ano: Geraldo Alckmin, candidato do PSDB escolheu-a para candidata a vice-presidente na coligação que lidera. Nas outras duas vezes em que chamou a atenção em 2018, associou a emissora de televisão Al Jazeera ao Estado Islâmico e aplaudiu os tiros disparados contra a caravana de Lula da Silva no sul do país, região de onde é natural.

O anúncio de Alckmin surge dias depois de o candidato ter fechado uma aliança com um grupo de seis partidos de centro e centro-direita movido mais por interesses comuns do que por proximidade ideológica, conhecido na gíria política brasileira como "Blocão" ou "Centrão". Entre essas forças está o PP, partido mais atingido pela Operação Lava-Jato, de onde saiu o nome de Ana Amélia, uma ex-jornalista nascida no Rio Grande do Sul, estado mais meridional do Brasil.

Com esse acordo, o "Blocão", cuja força ficou exposta quando retirou apoio a Dilma Rousseff em 2016 e precipitou a sua queda, garantiu desde logo cargos de relevo no primeiro, segundo e terceiro escalões da administração pública caso Alckmin seja eleito. O ex-governador de São Paulo, por sua vez, junta o tempo de antena a que cada um dos seis partidos do "Blocão" tem direito ao do PSDB e passa a superar, nesse particular, qualquer um dos concorrentes - terá 318 inserções de 30 segundos de propaganda nos 35 dias de campanha, mais do dobro do PT, por exemplo, e um espaço infinitamente maior do que os sete segundos de Jair Bolsonaro, do PSL.

Ana Amélia, crítica contumaz dos governos Lula e Dilma, trocou em abril acusações com Gleisi Hoffmann pelo facto da presidente do PT ter dado entrevista à estação Al Jazeera pedindo a liberdade do antigo presidente. "Espero que não esteja a convocar o Estado Islâmico a atuar no Brasil", disse a senadora, motivando críticas em peso da comunidade árabe brasileira por colocar no mesmo saco a televisão do Qatar e a organização fundamentalista.

Depois, elogiou as cidades do seu estado que "botaram para correr" a caravana promovida por Lula. Como algumas dessas cidades recorreram a tiros, Ana Amélia justificou a frase com o calor do momento.

"O vice não é mais uma figura decorativa", disse a propósito do anúncio a própria senadora. O atual presidente da República Michel Temer, recorde-se, concorreu como "vice" de Dilma. José Sarney e Itamar Franco, no passado, também exerceram a função de chefe de estado mesmo tendo concorrido para número dois.

Também Marina Silva apresentou ontem o seu candidato a vice-presidente: será Eduardo Jorge, do Partido Verde (PV). Com a aliança ao PV, a que Marina pertenceu antes de romper e formar o Rede Sustentabilidade, seu atual partido, a candidata passará a dispor de 26 segundos a cada bloco de propaganda política. Além disso, será necessariamente convidada para debates na TV - para ser convidado o candidato deve pertencer a um partido ou coligação com cinco ou mais parlamentares e o Rede só tinha três.

"O movimento contra os partidos ideológicos pequenos é muito contundente, como temos proximidade programática, decidimos apoiar a Marina com o Eduardo como vice", justificou José Luiz Penna, presidente do PV.

Na quarta-feira à noite fora a vez de Álvaro Dias (Podemos) anunciar como seu vice-presidente o economista Rabello de Castro, que era, até então, candidato à presidência pelo PSC.

Entre os outros candidatos competitivos à eleição, Jair Bolsonaro (PSL) e Ciro Gomes (PDT) são os mais atrasados na escolha de "vice". Sem conseguirem assinar coligações - Bolsonaro tentou acordo com integrantes do "Blocão" sem sucesso e Ciro viu o desejado PSB juntar-se ao PT - devem optar pela "chapa pura", isto é, por escolher membros dos seus partidos. Isso trará consequências no tempo eleitoral dos dois concorrentes, escassíssimo no caso de Bolsonaro e escasso no caso de Ciro.

Henrique Meirelles, que foi ontem nomeado em convenção o candidato do governista MDB com 85% dos votos, e o PT também devem optar por "chapas puras". Mas no caso dos dois grandes partidos o tempo de antena de ambos já é generoso. Meirelles convidou a senadora Marta Suplicy e os "petistas" devem apresentar Lula, para presidente, e Fernando Haddad, para "vice". Em caso de inelegibilidade do antigo presidente a dupla composta pelo ex-prefeito de São Paulo e pela atual candidato pelo PCdoB Manuela D"Ávila.

Ainda à esquerda, o PSOL foi o primeiro a anunciar o líder do Movimento dos Trabalhaodres Sem Teto Guilherme Boulos e a líder indígena Sônia Guajajara como candidatos, respetivamente, a presidente e "vice".

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