Guaidó: ajuda humanitária começa a chegar nos "próximos dias" à Venezuela

O líder do parlamento e dirigente opositor venezuelano Juan Guaidó, reconhecido por dezenas de países como Presidente interino, diz que a ajuda humanitária retida em Cúcuta, na Colômbia, chega em breve à Venezuela

A ajuda humanitária, que foi enviada pelos Estados Unidos, continua retida perto da fronteira venezuelana, depois de a polícia militarizada, afeta ao presidente Nicolás Maduro, ter bloqueado a sua entrada, mas o autoproclamado presidente interino, Juan Guaidó diz esperar que a situação seja desbloqueada em breve.

"A ajuda está numa espécie de centros de armazenamento e esperamos que nos próximos dias tenhamos a entrada da primeira ajuda humanitária", disse Guaidó a jornalistas depois de assistir este domingo a uma missa em Caracas.

Além de Cúcuta, a ajuda humanitária, enviada pelos Estados Unidos, deverá começar a concentrar-se em armazéns, um no Brasil, e outro numa ilha das Caraíbas ainda não determinada.

A ajuda, constituída por medicamentos e alimentos, deveria entrar na Venezuela pela ponte de Tienditas, uma infraestrutura construída recentemente que une os dois países. No entanto, a Guarda Nacional Bolivariana, polícia militarizada fiel ao regime do Presidente Nicolás Maduro, bloqueou a ponte com atrelados de camiões e contentores.

Guaidó acusou Maduro de "se negar a reconhecer a crise que criou" e afirmou que, ao bloquear a ajuda, faz do Presidente e dos seus apoiantes "quase genocidas" que "assassinam por ação e por omissão".

Uma intervenção militar dos americanos seria muito complicada, porque haveria mortos e estragos, seria devastador e a Venezuela não quer isso

Os venezuelanos, disse, vão ter de trabalhar "duramente para que cesse a usurpação" da Presidência por Maduro e para "dar resposta à emergência humanitária".

O presidente da Assembleia Nacional voltou a apelar aos militares, afirmando que "ninguém pode querer imolar-se para responder ao chamamento de uma pessoa [Maduro] que perdeu o norte e que não tem apoio internacional".

"Depende de vocês deixar de cumprir as ordens ridículas [do palácio presidencial] de Miraflores e fazer valer o orgulho pelo uniforme. Depende de vocês que [o uniforme] recupere o brilho, a honra e a simpatia de milhões de venezuelanos", lançou.

Faltam quase todos os medicamentos

A entrada da ajuda humanitária no país é também uma urgência para o deputado lusodescendente Manuel Teixeira, do Movimento Progressista da Venezuela (MPV). Manuel Teixeira considera que é imprescindível e urgente a assistência humanitária aos venezuelanos, realçando que a falta de medicamentos atinge os 90%.

Questionado sobre a polémica da entrada de assistência humanitária no país, o deputado que em tempos foi apoiante de Chávez, não tem dúvidas: "Eu digo que é obrigatório, imprescindível para a população venezuelana receber ajuda. Quando vamos aos supermercados, às farmácias não há o que precisamos. Quanto aos medicamentos, a escassez é pior. Está à volta de 90%, disseram-me peritos".

O deputado diz mesmo que espera que essa ajuda não seja apenas uma ajuda inicial, "oxalá dure no tempo", no entanto realça que o mais importante é que o país saia desta crise e "comece a produzir".

Juan Guaidó autoproclamou-se Presidente interino a 23 de janeiro, dias depois da posse de Nicolás Maduro para um segundo mandato, após uma eleição considerada ilegítima pela UE, e a maioria dos países da União Europeia (UE), incluindo Portugal, os Estados Unidos, o Canadá e vários países latino-americanos, como o Brasil e a Colômbia, reconheceram Juan Guaidó como Presidente interino com a missão de realizar eleições presidenciais livres e transparentes.

Mas, na Venezuela, o momento é de tensão e de impasse político, que o deputado lusodescente vê com grande preocupação. Manuel Teixeira não vê, no entanto, como um problema para a comunidade portuguesa a posição do governo português reconhecendo a autoproclamação de Juan Guaidó enquanto Presidente interino encarregado de organizar eleições livres e transparentes. "Pela importância da comunidade portuguesa na Venezuela, o governo venezuelano estará um pouco mais tranquilo do que em relação a outros países", explica.

O futuro, porém, é uma preocupação. "Temos situações como se estivéssemos em guerra, mas não estamos em guerra. Percebe-se nas ruas, em alguns dias, a total normalidade, noutros dias há protestos. Nos povoados do interior há protestos pelo gás, alimentos, medicamentos. A situação está muito complicada pela hiperinflação, pela escassez. É um processo a agravar todos os dias" denuncia o deputado.

Venezuelanos "estão desesperados"

Como sobrevivem os venezuelanos nesta crise? "Muita gente está a ir embora, muitos atravessam a fronteira para a Colômbia, Equador, Peru e alguns vão para a Europa. Quem está na Venezuela come uma a duas vezes por dia, consoante a sua posição económica. Vivem do que têm em poupanças. Outros vendem coisas. É uma situação de sobrevivência, as pessoas estão desesperadas".

Em relação a uma eventual entrada de tropas norte-americanas na Venezuela, o deputado mostra-se totalmente contra salientando que a ajuda alimentar e de medicamentos é bem-vinda, mas não a intervenção militar.

"O povo da Venezuela é um povo pacífico, não gosta de violência. Qualquer outro país com uma situação como a nossa já tinha havido muitos mortos, e violência nas ruas. Mas o povo da Venezuela ama a vida. Uma intervenção militar dos americanos seria muito complicada, porque haveria mortos e estragos, seria devastador e a Venezuela não quer isso", defende o político lusodescendente.

Sobre o seu posicionamento em relação à esquerda do PSUV, de Nicolás Maduro, o deputado do MPV justifica o seu apoio a Chávez num determinado momento político em que existia muita corrupção. "O Chávez e os movimentos de esquerda trouxeram um projeto humanista solidário com as classes menos favorecidas e nós acompanhámos", salienta.

Depois, diz, Manuel Teixeira o sistema político foi degenerando. "Agora, temos uma situação muito complicada por causa dos erros, não só do governo, mas também da oposição", explica. "Não tenha dúvidas. Este não é um governo de esquerda. È um governo de direita. Um governo que, em nome da esquerda, faz tanta atrocidade... de princípio tinha como prioridade as classes baixas, mas isso foi mudando com o tempo e agora temos gente indiferente ao sofrimento do povo", acusa.

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