Venezuela garante "cooperação total" com a ONU

Em causa o uso excessivo da força pelas autoridades durante as manifestações der 2017

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Venezuela, Jorge Arreaza, saudou hoje a chegada da ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, à liderança do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, assegurando-lhe "total cooperação".

"O Conselho dos Direitos Humanos e a Alta Comissária podem contar com a total cooperação do governo da Venezuela e do presidente Nicolás Maduro", disse Jorge Arreaza perante os diplomatas do organismo em Genebra.

Arreaza considerou que a chegada de Bachelet à liderança da agência das Nações Unidas para os direitos humanos, com quem se reuniu na segunda-feira, marca "uma nova etapa de cooperação".

Michelle Bachelet assumiu funções a 1 de setembro, sucedendo ao jordano Ra'ad Al Hussein, considerado demasiado crítico de vários dirigentes mundiais.

A Venezuela mantém relações tensas com o Alto Comissariado para os Direitos Humanos, que em 2017 pediu, sem sucesso, uma investigação internacional sobre o uso excessivo da força pelas autoridades, estimando a possibilidade de se estar perante crimes contra a humanidade.

O Alto Comissariado nunca foi autorizado a visitar o país.

"Virámos a página sobre os quatro últimos anos", disse Jorge Arreaza, explicando, no entanto, que não haverá um convite imediato para que Michelle Bachelet visite a Venezuela.

"É preciso restabelecer a confiança. Uma vez reconstruídos os canais de comunicação, teremos as melhores relações", acrescentou.

Michelle Bachelet fez, na segunda-feira, o seu primeiro discurso perante o Conselho dos Direitos Humanos, que está reunido em Genebra até 28 de setembro.

O discurso continha na versão escrita enviada à comunicação social parágrafos relativos à Venezuela, mas que não foram lidos perante os diplomatas por falta de tempo, segundo explicação posterior.

Na versão distribuída à comunicação social, Michelle Bachelet assinalou o "número crescente de pessoas que fogem da Venezuela e da Nicarágua" e pediu ao Conselho para tomar "todas as medidas necessárias para fazer face às graves violações dos direitos humanos" identificadas nesses países.

Notou igualmente que, após a publicação em junho, do último relatório do Alto Comissariado para os Direitos Humanos sobre a Venezuela, continuaram a chegar "informações sobre violações de direitos económicos e sociais, com registos de mortes ligadas à desnutrição e a doenças evitáveis, bem como sobre violações de direitos civis e políticos".

Por outro lado, sublinhou que o governo da Venezuela "não demonstrou abertura" para implementar "verdadeiras medidas" com vista a julgar os responsáveis pela violência durante as manifestações de 2017.

Dados divulgados pelas Nações Unidas revelam que o número de pessoas que fugiram da Venezuela até 1 de julho atingiu os 2,3 milhões, mais 1,6 milhões mais do que em 2015 e o equivalente a cerca de 7% da população total.

O chefe da diplomacia venezuelana explicou aos jornalistas que "se trata de venezuelanos que partiram por razões económicas e não por razões políticas", adiantando que a Venezuela está a implementar um programa de regresso.

"Numa semana, mais de 4.000 pessoas regressaram a casa porque eram exploradas em países como o Peru, Colômbia e Brasil", disse.

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