"Venezuela é uma bomba que pode explodir"

Dirigente opositor teme "golpe de Estado" de Maduro. Sondagens apontam para uma vitória da oposição nas eleições, mas mais votos pode não se traduzir em mais deputados

É visto como uma das vozes mais moderadas da oposição venezuelana e o cenário que traça não é positivo. O governador do estado de Miranda, Henrique Capriles, alertou ontem para o risco de "golpe de Estado" na Venezuela após as eleições parlamentares de domingo, com as sondagens a apontar para uma vitória da oposição. Para o adversário de Hugo Chávez nas presidenciais de 2012 e de Nicolás Maduro nas de 2013, a Venezuela é "uma bomba que pode explodir".

Quase 20 milhões de venezuelanos são chamados à urnas para eleger os deputados para a Assembleia Nacional. Pela primeira vez em 16 anos, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e os aliados na revolução bolivariana arriscam uma derrota nas parlamentares. A última sondagem Datanálisis mostra que os chavistas podem ficar a 20 pontos da Mesa de Unidade Democrática (MUD) em percentagem de votos (a diferença tem vindo a cair), mas resta saber de que forma isso se traduzirá em número de deputados. E qual será a reação do presidente.

"Maduro é capaz de qualquer coisa, capaz de querer dar um golpe de Estado. Ele pode querer fazer isso: mas uma coisa é querer e outra é poder. Uma coisa é o que quer e outra é que o país o acompanhe. Esse sim é o grande desafio. Se Maduro se radicalizar, Maduro vai adiantar a data da sua saída do governo", afirmou Capriles numa entrevista ao El Mundo. A taxa de aprovação do presidente venezuelano subiu no último mês mais de 11 pontos percentuais, para os 32,3%, segundo a Datanálisis.

O governador defende contudo que estas eleições não são um plebiscito à liderança do presidente. Na Venezuela há "uma grande tensão social, produto da deterioração económica", explicou. Calcula-se que a economia do país caia 10%, sob a sombra da escassez e da maior inflação do mundo, à volta de 200%, segundo o FMI. "A situação da Venezuela é uma bomba que pode explodir, mas que não quero que expluda", referiu Capriles, dizendo que as eleições são "uma válvula de escape" que dá uma oportunidade aos eleitores de se expressarem.

"Maduro pensa que é Chávez [falecido em março de 2013 após 14 anos no poder]. E esse é o maior erro que cometeu desde o primeiro minuto. Maduro é uma péssima imitação de Chávez", refere o governador, que deixa o apelo para que Maduro reconheça a derrota no domingo e se ponha ao serviço da nova Assembleia Nacional. "Isso é o que faria um democrata."

"Basurita"

Os apelos ao respeito pelos valores da democracia e dos direitos humanos na Venezuela têm-se repetido a nível internacional. Na terça-feira, cinco mandatários internacionais, entre eles o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, e o britânico, David Cameron, condenaram os excessos do governo de Maduro para com a oposição, numa carta aberta publicada no El País. O presidente venezuelano respondeu atacando o chefe de governo espanhol.

"Estás de partida Rajoy. Não vais ganhar nem um voto a atacar a Venezuela. O povo espanhol vai dizer-te "chau Rajoy, vai-te embora daqui"", afirmou o líder venezuelano num evento em Caracas, chamando o primeiro-ministro de "basurita", pequeno lixo.

Na carta aberta, os signatários pediam a libertação imediata de Leopoldo López, líder opositor condenado a 14 anos de prisão por incitar à violência nos protestos de fevereiro de 2014, dizendo que "a democracia não funciona quando o ambiente eleitoral está dominado pela violência, as ameaças e a intimidação à oposição".

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