Ursula von der Leyen. Foi delfim de Merkel e os alemães não gostam dela

Pró-europeia, poliglota, médica, mãe de sete filhos. Ursula von der Leyen, a futura presidente da Comissão Europeia, foi delfim de Angela Merkel -- porém o seu prestígio caiu desde o consulado no Ministério da Defesa.

Indicada pelo Conselho Europeu após este órgão ter recusado os candidatos do Parlamento Europeu, o nome de Ursula von der Leyen causou ondas de choque em Berlim e em Bruxelas. Na Alemanha, os sociais-democratas, que se sentam à mesa do governo onde von der Leyen ocupou até agora o cargo de ministra da Defesa, deixaram a coligação ainda mais fragilizada. Em Bruxelas, o facto de o processo de escolha do presidente por parte do Parlamento Europeu ter sido torpedeado pelos chefes de governo e de Estado abriu feridas -- e o resultado foi a sua eleição por uma curta margem histórica, nove votos no universo de 747 deputados em funções.

Numa demonstração de comprometimento para com o projeto europeu, a única pessoa que fez parte dos quatro governos da chanceler Angela Merkel, anunciou na segunda-feira que vai deixar o cargo de ministra da Defesa na quarta-feira, fosse qual fosse o resultado da votação.

Mãe de sete filhos, nasceu há 60 anos na capital belga, onde passou parte da infância e aprendeu a língua francesa ao nível da alemã (é ainda fluente em inglês). Esta democrata-cristã cedo conheceu uma das capitais das instituições europeias, bem como se tornou europeísta.: Ursula é um dos sete filhos de Ernst Albrecht, alto funcionário da Comunidade Económica Europeia, que entre 1976 e 1990 foi ministro-presidente da Baixa Saxónia.

Formada em Medicina, Ursula está casada com Heiko von der Leyen, professor de Medicina e administrador de uma empresa de engenharia. Depois de ter vivido na Califórnia, onde estudou economia e o marido deu aulas, na primeira metade dos anos 90, foi só no século XXI que se lançou na política, ao ser eleita representante da CDU na assembleia da região de Hanover.

Três anos mais tarde, em 2005, tornou-se ministra da Família e tomou várias medidas que deixaram marca, como o desenvolvimento da rede de infantários ou a licença parental remunerada para os pais. Nomeada ministra do Trabalho em 2009, von der Leyen irritou parte do eleitorado conservador, ao defender quotas para as mulheres na gestão das empresas.

É na pasta da Defesa, a partir de 2013, que o currículo de von der Leyen deixa de brilhar. Foi a primeira mulher a ocupar esse cargo e não teve dúvidas em impor medidas como o fim da tradição de honras dadas aos oficiais que serviram Hitler, ou ao denunciar a "fraqueza" de alguns oficiais. Em 2014, a ministra anunciou a reforma das forças armadas, mas o seu trabalho ficou longe de concluído. Quer as Forças Armadas quer o Ministério estão enredados numa série de notícias desfavoráveis e de escândalos, desde o equipamento obsoleto, à falta de rigor orçamental (por exemplo, a reparação do navio-escola Gorch Fock, estimada em 10 milhões de euros, passou para 135 milhões).

Mais grave, no ano passado, um relatório do Serviço Federal de Auditoria da Alemanha, divulgado aos meios de comunicação social, citou dezenas de irregularidades na contratação de consultores externos como a Accenture ou a McKinsey em contratos no valor de milhões de euros (segundo o relatório 150 milhões de euros por ano, segundo o Ministério, 80 milhões por ano), quando, por outro lado, recebe críticas por ter um exército com poucos meios humanos e materiais.

Este dossiê, que ainda não foi encerrado, foi recordado pelo eurodeputado Nico Semsrott, do satírico Die Partei (O Partido). Apesar de não estar inscrito para falar, pediu um ponto de ordem ao presidente do Parlamento, David Sassoli, e, na sua breve alocução, mais do que as palavras, ficou a imagem de um casaco e de um gigante par de óculos preenchidos com os logótipos de empresas de consultoria.

O seu desempenho à frente do Ministério levou-a ao topo da impopularidade entre os ministros. E segundo uma sondagem divulgada pela estação ARD, 56% dos alemães acham que ela é uma má escolha para a presidência da Comissão Europeia. Só um em cada três alemães acham que Ursula von der Leyen é uma boa escolha.

A influência da extrema-direita é outra das preocupações: estão a ser investigadas centenas de casos de extremismo, tendo dez militares sido expulsos em 2017 e 2018.

Em 2015, a ministra também foi suspeita de ter plagiado o doutoramento. Esta acusação, muito sensível na Alemanha, por ter causado a queda de vários líderes políticos, não se provou verdadeira. Ao contrário de Angela Merkel, por exemplo, Ursula von der Leyen não tem problemas em ser fotografada para as revistas do social com os filhos, o marido e o seu pónei, ou em entrar num caixote de lixo num programa de TV (e ser retirado do dito por Hugh Jackman).

Críticas da esquerda à direita

A ideia de escolher uma personalidade que não era candidata ao cargo caiu muito mal em Estrasburgo e foi vista como uma provocação ao objetivo de democratizar as instituições da União Europeia.

Nas audições realizadas nos últimos dias, von der Leyen tentou seduzir as bancadas mais à esquerda da sua, o Partido Popular Europeu, mas também a partidos como o Movimento 5 Estrelas, que está no grupo de não inscritos.

Durante a manhã, Ursula von der Leyen tentou convencer os eurodeputados, tendo dado especial ênfase aos compromissos ambientais, numa última tentativa de modificar o sentido de voto dos Verdes. Prometeu no início do discurso um "acordo verde" para a UE nos primeiros 100 dias do seu mandato, a redução de emissões de CO2 até 55% em 2030 -- indo ao encontro do que foi aprovado pelo PE -- e apontando para a neutralidade do carbono em 2050, meta a consagrar na "primeira lei europeia sobre o clima".

Prometeu igualmente uma Comissão paritária em género, um sistema europeu de proteção contra o desemprego, um direito de asilo mais harmonioso e o reconhecimento do direito de iniciativa ao Parlamento para projetos legislativos.

Ainda assim, e mesmo após o seu discurso realizado de manhã, os seus críticos não desarmaram, como, por exemplo, Marisa Matias. "Disse a toda a gente o que toda gente queria ouvir, mas o que a União Europeia precisa neste momento é de escolhas (...) Ou investimos no combate às alterações climáticas, servindo o planeta, ou investimos na militarização, servindo a indústria do armamento alemão?", questionou a deputada do Bloco de Esquerda.

Mas se o sentido de voto da bancada Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Verde Nórdica já era sabido, os sociais-democratas, muito divididos, só decidiram em cima da votação. Os sociais-democratas alemães, que se sentam ao seu lado no governo Merkel, distribuíram aos eurodeputados um documento intitulado "Por que razão Ursula von der Leyen é uma candidata inadequada e imprópria". O texto reúne todas as críticas relacionadas com von der Leyen. Um documento que terá recebido a aprovação dos colegas de bancada da Holanda, Bélgica e França, por exemplo. Em sentido contrário, os italianos, portugueses e espanhóis seguiram o apoio oficial declarado pelo grupo.

"O problema é que o seu nome foi sugerido há poucos dias e ela não teve tempo suficiente para apresentar um bom programa", disse Daniel Goffart, co-autor de uma biografia da ministra, à AFP.

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