Uma frota com migrantes a caminho de terra firme

Os 630 migrantes do Aquarius foram repartidos por mais dois navios e seguem para Valência, no mesmo dia em que morreu mais uma dúzia e 40 foram salvos na costa da Líbia

Ontem de manhãzinha, a esperança foi o sentimento que deu lugar à inquietação a bordo do antigo navio da guarda costeira alemã. Enquanto um navio italiano de emergências se aproximava, uma criança lia para quem estava à sua volta excertos do livro 1000 pensées positives, de Jean Dausset, contou a jornalista da RNE (rádio pública espanhola) Sara Alonso Esparza, que se encontra a bordo. Ao contrário do que o primeiro-ministro de Malta anunciou, foram os italianos e não os malteses quem resolveu o problema mais premente a bordo do Aquarius: a falta de víveres.

Roma enviou também um navio da guarda costeira e outro da Marinha com o objetivo de transportar a maioria dos migrantes resgatados do Mar Mediterrâneo até ao porto de Valência. As operações decorrreram durante a tarde. Ao fim do dia a organização não governamental SOS Méditerranée, que partilha as operações do navio com os Médicos Sem Fronteiras noticiou: "O transbordo de 274 resgatados para o navio da guarda costeira italiana Dattilo e outros 250 para o Orione da Marinha italiana foi concluído. O Aquarius tem agora 106 resgatados a bordo - 51 mulheres, 45 homens e 10 crianças." Prevê-se que a travessia até Espanha não se conclua antes do final da semana.

Os ecos dos aplausos ao inesperado gesto de Pedro Sánchez em acolher os 630 migrantes continuaram ontem. Em Espanha, só o Partido Popular não alinhou nas loas à decisão do novo governo socialista. O coordenador geral do PP, Fernando Martínez-Maíllo, afirmou que a abertura dos portos à imigração pode ser "muito perigosa". E lembrou que em 2017 mais de 28 mil pessoas entraram ilegalmente em Espanha, tendo "aumentado em 116% os que chegaram por mar".

França e Itália trocam acusações

O presidente francês, Emmanuel Macron, elogiou a decisão de Madrid e criticou o governo italiano por não deixar fundear o Aquarius . "Há um certo cinismo e irresponsabilidade no comportamento do governo italiano em relação a essa dramática situação humanitária", disse Macron, segundo o porta-voz do governo, Benjamin Griveaux. O porta-voz do partido de Macron, Gabriel Attal, foi mais explícito: "A posição italiana dá-me vómitos".

A resposta do primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, não tardou: "A Itália não pode aceitar lições hipócritas de países que sempre preferiram virar as costas quando se trata de imigração."

O navio da marinha norte-americana Trenton foi ontem em auxílio de um bote de borracha que estava a afundar-se na costa da Líbia, tendo resgatado 41 pessoas com vida e outras 12 mortas, informou a ONG alemã Sea Watch.

O Trenton, um moderno navio de transporte rápido da classe Spearhead, contactou a Sea Watch porque a organização tem o navio Sea Watch 3, de bandeira holandesa, junto à costa da Líbia.

Os ativistas foram solicitados a recolher os sobreviventes e os cadáveres, mas o grupo recusou sem uma garantia por escrito de Itália. "Temos a capacidade de aceitá-los, mas só o faremos se houver uma declaração por escrito das autoridades italianas de que poderemos desembarcá-los dentro de 36 horas. Não podemos ir para Espanha", disse Ruben Neugebauer, porta-voz da Sea Watch.

"Isto mostra o que acontece quando não há recursos de resgate suficientes no mar", comentou à Reuters.

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