Uma amazona portuguesa à conquista da Florida

Isabella tinha 5 anos a primeira vez que se sentou numa sela. Uma década depois, soma prémios de hipismo em competições numa área que abarca seis estados. A sua ambição é chegar aos Jogos Olímpicos. E a sua prestação impressiona de tal forma que uma universidade da Virgínia já a convidou para se juntar àquela escola, apesar de ter acabado de fazer 14 anos

Com apenas 14 anos, Isabella Vieira Rodrigues já recebeu um convite para integrar a Emory & Henry College, a mais antiga instituição de formação superior da Virgínia, com tradição nas chamadas liberal arts. A sua mais-valia para a escola? Um percurso de mais de oito anos no hipismo, com presença regular em provas, inclusivamente interestaduais, e dezenas de medalhas e prémios conquistados - os últimos dos quais na Children"s Large Pony Hunter Division e no Children"s Large Pony Hunter Classic em Venice, Florida, amplamente noticiados no jornal da comunidade portuguesa, o Luso-Americano.

Este precoce caso de sucesso teve início quando Isabella tinha apenas 3 anos e a avó, confrontada com o encanto da pequena, cedeu aos pedidos apaixonados da neta para que a deixasse ao menos sentar-se na sela do cavalo que uma amiga tinha garantido para a sua festa de anos. E essa experiência foi tão marcante que mudou a vida de Isabella. "Depois disso, eu pedia quase todos os dias à minha mãe para ir andar a cavalo, até que a convenci a inscrever-me nas aulas de equitação, aos 5 anos", conta.

Quase impressiona olhar para as fotografias de Isabella em cima do animal, nessa altura em que mal começara a aprender a montar. Ainda pouco mais do que uma bebé, mas de costas muito direitas, ombros firmes puxados atrás e queixo a revelar toda a determinação que lhe marca o perfil desde tenra idade. A pose é verdadeiramente a de uma amazona, mesmo que a imagem mostre uma pequenita que só poderia içar-se para a sela se um adulto lhe desse uma valente ajuda.

A decisão de se tornar cavaleira, tomada - ainda sem ter a menor noção do esforço envolvido nesta carreira - ao primeiro contacto com um cavalo, foi levada a sério desde muito cedo e mesmo a descoberta do incrível trabalho e do número de horas que teria de dedicar à arte equestre a desanimaram. Pelo contrário, a cada novo desafio, conforme se intensificavam os treinos e as exibições se tornavam mais sérias, Isabella foi pondo cada vez mais de si no hipismo, conseguindo desde então construir um percurso notável, apesar de ser ainda muito jovem. E nesse caminho, o apoio dos pais, Luís e Paula Vieira-Rodrigues, foi decididamente fundamental. Apesar de nenhum ter ligação aos cavalos, ambos entenderam que se tratava de mais do que um capricho de criança e permitiram a Isabella viver o seu sonho, acompanhando-a em treinos e provas com o orgulho natural de quem entende que ajudou a moldar uma estrela.

Praticamente uma década passada sobre essa primeira experiência, Isabella - que alimenta ainda a ambição de vir a ser "veterinária de grandes animais" - divide o seu tempo entre a escola e os treinos de equitação, tendo já conseguido assegurar uma posição no top ten da lista dos melhores cavaleiros do ano da zona em que compete - e que vai muito além de Bunnel, sede do condado de Flagler, onde vive -, abarcando um total de seis estados: Tennessee, Alabama, Mississippi, South Carolina, Georgia e Florida.

Isabella já nasceu nos Estados Unidos, tal como a mãe, Paula, cabeleireira de profissão. Foram os avós maternos os primeiros a cruzar o Atlântico para mudar de vida - a avó vinda de Légua, no concelho de Ílhavo, o avô da Quinta do Picado, em Aveiro - e a instalar-se, em 1969, em Newark, Nova Jersey, onde a mãe da jovem cavaleira viria a nascer. Do lado do pai, Luís (ou Lou, como lhe chamam todos os que o conhecem de adulto), que é motorista de camiões e chegou a Elizabeth, Nova Jersey em 1970, a viagem foi bem mais longa.

A avó paterna nascida em Tomar e o avô, alentejano de gema, começaram por tentar a sorte na Alemanha, emigrando alguns anos depois para Sidney, na Austrália, onde o pai de Isabella viria a nascer. "Os meus pais acabaram por se instalar aqui em Palm Coast (a norte de Miami) em 2007, para estarem mais perto de meus avós, que para aqui vieram viver quando se reformaram", conta a jovem cavaleira, que em casa ainda conta com a companhia da irmã mais velha, Arianna. E se a família direta não é grande, mais do que compensa em "tias, tios e primos em quantidade, tanto aqui como em Portugal".

De sorriso doce e personalidade vincada - e bem adulta para os 14 anos acabados de fazer, em dezembro -, Isabella apressa-se a explicar que valoriza muito a sua herança portuguesa. "Nós fomos criados com uma fortíssima ligação à família. Considero que é uma das coisas mais importantes da vida", diz, num português supervisionado pela mãe e com o colorido típico de quem cresceu a ouvir falar inglês.

Vai contando que a família tenta visitar Portugal no mínimo a cada dois anos, de forma a manter essa tão prezada proximidade com aqueles que não emigraram. "Embora nem eu nem a minha irmã e nem sequer os meus pais tenhamos nascido em Portugal, somos todos cidadãos portugueses. Eles são fluentes na língua e nós as duas entendemos e estamos a aprender a ler e escrever em português", conta, orgulhosa. E para que não reste qualquer dúvida sobre a importância que Isabella e a família dão às suas origens lusas, acrescenta: "Temos uma grande comunidade portuguesa aqui na zona de Palm Coast e eu e a minha família frequentamos o Clube Português sempre que podemos."

Trabalhadora, esforçada, empenhada e, resultado disso mesmo, com uma carreira já em plena consolidação no hipismo, esta filha de emigrantes portugueses tem contado com a sua égua, de nome artístico Pleasant Dreams, de nove anos, para cumprir os sucessivamente mais complexos desafios que lhe surgem no caminho. Mas tem mais do que um trunfo na manga - e uma vantagem com a qual conta é o legado das suas duas instrutoras, que têm sido fundamentais para a sua evolução no mundo dos cavalos. As irmãs Pamela Carson Stolsworth e Liz Carson O"Grady, treinadoras e formadoras há mais de três décadas.

Pamela chegou mesmo a ser selecionada para a qualificação de 1973, a caminho dos Jogos Olímpicos (sem chegar a ser apurada, porém) e integrou a seleção norte-americana de hipismo, tendo inclusivamente alcançado inúmeros títulos e construído a equipa equestre da Adelphi University; foi ainda ela quem treinou os cavaleiros da Hofstra University e da Suffolk Community College. Liz fez parte da equipa do Meadow Brook Pony Club e montou o Hunter Jumpers, além de ter ocupado também um lugar de destaque enquanto mentora dos cavaleiros da Hofstra University. E Isabella, que já entendeu o que é preciso para chegar ao topo neste mundo, conta com o currículo impressionante das suas orientadoras para ajudá-la a voar mais alto.

Com treinos garantidos quatro ou cinco dias da semana na P&L Stables, propriedade de Pamela e Liz, o seu objetivo é "um dia alcançar uma marca semelhante àquilo que as minhas treinadoras conseguiram". "Para isso, claro, é preciso gostar a sério desta modalidade e empenhar-me nela pelo menos tanto quanto a Pamela e a Liz. Só assim é possível conseguir construir uma carreira como a que elas têm", confessa a determinada Isabella.

Se lhe perguntarem pelo seu maior sonho, consegue ser ao mesmo tempo ambiciosa e realista: "Adorava chegar à fase de qualificação para os Jogos Olímpicos. Pelo menos chegar a essa categoria..."

Considerando o caminho que esta adolescente já percorreu em tão pouco tempo, não é difícil imaginá-la a chegar tão longe quanto deseja. Mas por agora, enquanto a aprendizagem no liceu e os estudos lhe ocupam os dias de semana e os momentos de folga são quase totalmente preenchidos com treinos e provas pelos seis estados americanos em que compete, a jovem cavaleira tem um objetivo bem presente: voltar a Portugal, de onde traz sempre imagens de cidades diferentes e recordações excecionais.

"No ano passado não conseguimos ir, como era suposto, por causa do meu compromisso com o hipismo e das provas e demonstrações que deixaram o meu calendário muito sobrecarregado. Mas já estamos a planear nova visita para o próximo ano."

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Anselmo Borges

"Likai-vos" uns aos outros

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