Um Trump amaciado pela China chega ao Vietname

Tratado com todas as honrarias, presidente dos EUA admite que Pequim tente tirar vantagens comerciais da relação com o seu país. No Vietname poderá reunir-se com Putin

Donald Trump chega hoje de Pequim a Danang, no Vietname, para participar na cimeira de líderes da Ásia-Pacífico (APEC). Mais uma vez irá aproveitar para apregoar uma região do Indo-Pacífico, onde o comércio seja livre, justo e recíproco, e que haja mais investimento do setor privado.

Danang é uma estância turística que recebe pessoas de todo o mundo e um dos motivos de orgulho do regime comunista. Na guerra do Vietname, os Estados Unidos estabeleceram uma base da Força Aérea: foi neste local que muitos norte-americanos da geração do presidente aterraram para participar no conflito militar. "Finalmente vai poder pôr no currículo que esteve no Vietname", comenta à Reuters o veterano de guerra David Clark, de 68 anos. Donald Trump não foi à guerra - nem prestou serviço militar. A sua incorporação foi adiada cinco vezes. Já Clark esteve ao serviço dos Estados Unidos como fuzileiro em 1968 e 1969 e em 2013 regressou àquele país do sudeste asiático para se envolver em projetos de reparação da guerra, como ajudar famílias afetadas pelo agente laranja (arma química que além de ter destruído florestas provocou diversos tipos de cancro e problemas congénitos) ou na neutralização de bombas.

As feridas da guerra perdida pelos Estados Unidos não devem ser tema a abordar pelo presidente norte-americano. O dossiê mais quente sobre sobre questões militares, a Coreia do Norte, terá sido encerrado (ao menos enquanto ponto de agenda) em Pequim. "A China pode corrigir esse problema com facilidade e rapidez, e eu estou a apelar para a China e para o seu grande presidente trabalharem com afinco. Eu sei uma coisa sobre o vosso presidente: se ele trabalhar muito no assunto, isso vai acontecer", disse sobre a desejada placagem ao regime de Pyongyang. "Juntos, temos o poder para finalmente libertar esta região e o mundo dessa ameaça nuclear muito séria", afirmou durante a declaração conjunta aos jornalistas. Foi a primeira vez desde George Bush pai que um encontro oficial entre os líderes chinês e norte-americano não teve direito a conferência de imprensa.

Donald Trump foi recebido por Xi Jinping com todas as deferências. Ontem visitou o Grande Salão do Povo e a praça de Tiananmen, onde o regime esmagou em 1989 o movimento estudantil que aspirava a reformas democráticas. Também aqui a história e os direitos humanos não foram tema. Uma diferença apreciada por Pequim, em comparação com a anterior administração norte-americana.

Um momento inusitado ocorreu quando os dois líderes passaram revista às tropas. A dado momento, o norte-americano tocou no ombro do chinês e disse que queria parar para ouvir a banda militar. "Lindo", comentou Trump.

O outro tema da agenda do norte-americano em Pequim, as trocas comerciais, foram objeto de reviravolta. Durante a campanha eleitoral, Trump elegera a China como o grande inimigo da economia dos EUA. "É o maior roubo da história do mundo", afirmou em 2016 sobre as relações bilaterais. "Não culpo a China. Quem pode culpar um país por se aproveitar de outro em benefício dos seus cidadãos?", afirmou agora, tendo responsabilizado os anteriores presidentes. "Temos de corrigir isto porque não funciona, simplesmente não é sustentável", acrescentou.

Já Xi Jinping, que reconheceu a existência de "algumas tensões" entre as duas potências, destacou a transição da economia chinesa da fase do "crescimento de alta velocidade" para o "crescimento de alta qualidade". As declarações decorreram a meio de uma cerimónia de assinatura de acordos comerciais de 250 mil milhões de dólares entre empresários de ambos os países. A Boeing, por exemplo, anunciou que vai vender 300 aviões à China Aviation Supplies.

Putin em aberto

A agenda de Donald Trump ainda não está fechada no Vietname. É possível que o nova-iorquino se encontre com o presidente russo, Vladimir Putin. "Não chegou a ficar acordado", disse o secretário de Estado Rex Tillerson sobre um encontro bilateral, mas deixando a porta aberta a um encontro. No mesmo sentido respondeu o porta-voz de Putin, Dmitri Peskov, ao admitir que os líderes poderiam cruzar-se "de uma ou de outra forma". Putin e Trump encontraram-se em julho, na cimeira G20, e concordaram em melhorar relações.

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