Um sonho americano cumprido aos 16 anos

Como um jovem de uma das famílias mais abastadas de São Jorge foi para a América em 1954 ordenhar vacas, pintar paredes e acabou com um império na construção civil

Batista Vieira chegou a San Jose, Califórnia, há 64 anos. Ele e o irmão mais velho. Um quase a fazer 18 anos e o outro à beira dos 16. Traziam no bolso cem dólares cada. Era dinheiro que se visse naqueles primeiros meses de 1954, mas não quanto chegasse para que dois irmãos se bastassem a si próprios.

Esta história podia constar como definição de sonho americano numa qualquer enciclopédia. Contrariando o fado daqueles tempos, não foi a fome ou a pobreza o motor da aventura. Foi o sonho. Batista Vieira nasceu numa família relativamente abastada de São Jorge. "Tínhamos vacas, tínhamos lojas nos Rosais" - freguesia do concelho de Velas, São Jorge, que nos anos 1950 tinha menos de 1500 habitantes -, conta, à secretária de um escritório em Little Portugal que, com 80 anos, usa cada vez menos.

Mas, porque é que um miúdo de 16 anos, de uma das famílias mais ricas da ilha, embarca num frágil avião com o irmão mais velho a caminho da costa oeste dos EUA? A culpa foi do avô e das histórias que contava sobre a América. O avô chegou a ter uma pequena rede de sapatarias em Newman, no interior da Califórnia, vale de S. Joaquim. Regressado aos Açores, entretinha-se a explicar aos netos como lá tudo era diferente, como se fazia negócio e muito dinheiro. "Ele contava-nos muitas histórias da América, como era isto, que se trabalhava muito e que aqui é que era. A minha mãe tinha dupla nacionalidade, tinha nascido cá e naquela altura abriram-se as portas para entrarem os filhos." Foi o sinal decisivo para os dois miúdos.

Os primeiros tempos

Chegam juntos a San Jose, ao fim de muitos dias de uma viagem cheia de escalas e separam-se. Cada um para a sua "leitaria". "Eu fiquei a ordenhar vacas em San Jose e ele foi fazer o mesmo perto de San Francisco. Só nos víamos de dois em dois ou de três em três meses, porque naqueles anos não se dava dias fora aos empregados, a gente trabalhava sete dias por semana. E nunca menos de 15 horas por dia. Eu e outro rapaz ordenhávamos 120 vacas por dia e depois ainda andávamos a reparar fences (cercas)."

Por esses anos, entre 1954 e 1958, o sonho americano de Batista Vieira vinha sujo de lama e com os cheiros fortes das vacarias. Vida dura para um miúdo de 16 anos. "Não era lá muito bonito. Levantar-me à uma e meia da manhã. Íamos para o gado e naquele tempo chovia muito aqui. As vacas vinham todas enlameadas, tínhamos de as lavar muito bem..." Insisto: porque é que veio para a América se tinha conforto nos Açores? A resposta é rápida. Apesar da vida desafogada, nas ilhas não havia futuro. "Mesmo que fôssemos homens de negócios, não havia oportunidades. Da maneira que se falava sobre a América, como miúdos vimos que só tínhamos essa saída para termos um futuro."

"Não temos nem um dia de escola aqui", diz Batista Vieira, cada vez mais recostado e sempre a mexer as mãos, a reforçar a narrativa. "Viemos com a quarta classe de lá e fomos logo trabalhar, para nos sustentarmos. Não tínhamos ninguém. Ou trabalhávamos ou morríamos à fome." Chega o carteiro. Bate no vidro da porta e entra com cartas para Batista Vieira e outra empresa que já não mora ali. O comendador, como é conhecido em San Jose - recebeu a Ordem de Mérito das mãos do Presidente Mário Soares em 1989 - despacha-o com breves explicações num inglês perfeito.

Só começou a falar a língua quando deixou as vacas - já iremos à parte mais feliz da história. Nos primeiros anos trabalhou para açorianos e dava-se com açorianos. Não ajudou a aprender inglês e ao fim de quatro anos não conhecia mais de 50 ou 100 palavras.

1954. Batista Vieira deixou para trás uma ilha e um país em ditadura onde a desconfiança e a cautela com o que se dizia fez parte da sua educação. O Novo Mundo foi uma surpresa. "A grande diferença foi a liberdade, podíamos fazer o que queríamos. Lá tínhamos na altura o Salazar, não se podia dizer nada... aqui era a liberdade. E ganhava-se dinheiro. Eu fazia 200 dólares por mês, nas vacas, quando aqui cheguei." Num mês, ganhava o dobro do que o pai lhe entregou quando saiu da ilha. Começava o sonho.

Ao meu sorriso responde abrindo os olhos e levantando um pouco a voz, reforçando que a vida não foi fácil naqueles primeiros anos. "Não foi nada easy... Quando ordenhei vacas tinha umas botas de cano e eu é que as remendava. Não é vergonha nenhuma. E as meias, fazia-as com restos das sacas de ração. Sempre lavei a minha roupa, nunca gastei dinheiro com isso. Só mandava a camisa de domingo para a lavandaria."

Lembra uma visita que o marcou. "Uma vez veio aí uma rapariga, amiga dos meus pais lá de São Jorge. Foi lá ver-me à leitaria. Apareceu à uma e meia da tarde e eu vinha a sair com metade de um pão na mão, uma banana e um copo de leite. Vinha com as calças todas sujas de leite e lama e ela desatou a chorar. "Como é que tu vens de lá, de uma família tão rica e vens aqui para uma barraca?"" Barraca? O comendador responde-me que sim, que o espaço onde descansava não merecia outro nome. "Eu vinha a sair do sítio onde dormia, que era isso mesmo, ao lado do sítio onde estavam as sacas de ração para as vacas. E era só ratos. Quando acordava à uma e meia da manhã, tinha de os enxotar para me vestir. Aconteceu-me muitas vezes estar a dormir e senti-los passear em cima de mim."

Conta que o desânimo nunca o atirou para a ideia de voltar à ilha. "Não tive um único dia de dúvida, de pensar em ir embora. Tive dias bastante tristes, de chorar até... estar à uma da manhã num lameiro a ordenhar e a pensar: "Porque é que eu estou aqui, com lama pelos calcanhares, a penar tanto se podia estar em São Jorge na loja a trabalhar no que é nosso?" Mas respondia sempre: "Foi o que eu escolhi." Eu e os meus irmãos, sempre pensámos dessa maneira."

Vamos ser homens de negócios?

A comunidade portuguesa na Califórnia não tinha, na segunda metade dos anos 1950, as redes de suporte que tem hoje. Batista Vieira conta que sentiu pouco apoio, mas recebeu conselhos decisivos. "Havia poucos portugueses nesta zona. Naqueles quatro anos que passei nas vacas, havia os já nascidos aqui e os que já aqui estavam há 40 ou 50 anos. A gente não tinha muito apoio deles... mas aquele senhor para quem trabalhei na vacaria, o Sr. Azevedo, disse-me uma vez: "Tu quando fores à missa nunca fiques à conversa com miúdos da tua idade. Fala com os mais velhos e vê se aprendes. Ainda vais ser um homem de negócios." Foi um bom conselho. Aprendi muito com aquelas pessoas."

Já se tinha feito homem, na América. Ele e o irmão. "Amadurecemos muito nesses anos e começámos a ver as oportunidades que havia." Tudo batia certo com as histórias do avô. "Começámos a ver outras pessoas a meterem-se nos negócios, a crescer e a ter sucesso. Olhámos para aquilo, eu e os meus irmãos" - na altura já tinha chegado outro, também quase a fazer 18 anos -, "e pensámos: "Se esta gente pode, porque é que nós não podemos fazer o mesmo?" E foi onde ganhámos coragem para nos endividarmos, porque a maioria dos portugueses tem medo de se endividar. Nós nunca tivemos medo de dívidas."

Se há segredo para o sucesso de Batista Vieira é precisamente esse, o recurso ao crédito ou, como diz, ao "dinheiro dos outros". Casou-se novo, com 20 anos, e passados três meses tinha três casas. "A a minha, que comprei com poupança, e mais duas mesmo aqui perto. Sem dinheiro, tudo a crédito. Dava entrada e depois ia pagando prestações aos donos das casas. Ao fim de três/quatro anos tinha 16 casas no bairro (Little Portugal)."

Outro segredo? A localização. As propriedades que foi comprando - sobretudo casas que restaurava e revendia ou alugava - em San Jose, Santa Clara ou Mountain View, ficavam numa zona dedicada então quase em exclusivo à pecuária e à agricultura. Pouco mais havia ali do que "ranchos e vacas". Passados poucos anos, o vale ganhou nome próprio - Silicon Valley. San Jose é hoje a terceira maior cidade da Califórnia e a área metropolitana que apanha sedes de gigantes tecnológicos como Apple, Google, Facebook, Oracle, Intel ou Cisco, tem o terceiro maior PIB per capita do mundo, só ficando atrás de Zurique e Oslo.

Um belo dia, Batista Vieira percebeu que estava sentado em cima de uma grande, grande oportunidade. "Foi uma coisa feia", diz a sorrir e com um brilho nos olhos, "valorizou tudo muito. Só aqui à volta temos 17 propriedades comerciais. Nós fomos sempre comprando e ficando a dever, sempre". É a tal teoria do dinheiro dos outros. "A pessoa de sucesso não pode ficar à espera de ter dinheiro para fazer dinheiro. Nós temos é de usar o dinheiro dos outros, o crédito."

Contas feitas a contar com uma política fiscal amiga do investimento, muito diferente da que existia em Portugal na altura. "O governo aqui ajuda a gente a crescer. É muito diferente do que vocês têm lá. Ao fim do ano, temos direito a abater nos impostos os juros, as despesas que tivermos com a casa, tudo. Se gastarmos a recuperar uma casa, podemos abater a despesa e a casa fica nova."

Das vacas às tintas e ao imobiliário

Batista Vieira passou quatro anos nas vacarias, a trabalhar a horas insanas com lama pelos tornozelos. Já com dois irmãos na Califórnia, todos na ordenha, surge nova oportunidade. O pai de uma amiga da namorada - que conheceu numa procissão do Espírito Santo onde chegou de bicicleta. Só teve carro muito mais tarde -, que viria a ser sua mulher, convidou-o para trabalhar na construção civil, mais precisamente, na pintura.

Foi uma grande mudança. "Larguei as vacas e fui trabalhar para uma companhia grande, com 250 pessoas. Era o único português. Trouxe os meus irmãos para essa companhia americana e passado menos de um ano, mesmo mal sabendo falar inglês, éramos todos chefes. Estávamos habituados a trabalhar muito e bem..." Esse foi outro enorme salto. "Comparado com as vacas, parecia que não fazia nada na pintura. Só trabalhava seis dias por semana, oito horas por dia."

Somos interrompidos de novo. Alguém entra timidamente e, com sotaque brasileiro, pergunta se Batista Vieira tem uma casa com quatro quartos para alugar. Não tem, e a conversa segue. O trabalho na empresa de construção civil abriu um novo campo de negócio. As casas e lojas que andava a comprar para arrendar podiam ser melhoradas, restauradas, criando valor. Demorou pouco até ficar por conta própria. Em 1963 abriu a primeira construtora. "Eu com 23 anos e o meu irmão com 24, quase 25, abrimos os nossos negócios. Cada um por conta própria, porque nós somos de uma qualidade que não podemos ter sócios. Os dois queríamos mandar, não dava para estarmos juntos."

Batista Vieira estava a tentar algo que nenhum outro tinha feito na região. "Não havia um só português com negócio na construção civil aqui em San Jose. Os meus irmãos nunca tiveram menos de 150 homens a trabalhar para eles. Eu tinha menos, bastante menos, a fazer pintura e reparações. Fomos os três primeiros açorianos a entrar na construção civil, até aí só tínhamos fama de cuidar das vacas." A empresa foi crescendo, quase sempre com mão-de--obra açoriana. "Hoje em dia, 95% dos empreiteiros aqui da região começaram a trabalhar connosco e temos aqui rapazes a eito que se fizeram milionários a trabalhar na construção civil."

Aproveitou os anos de crise de San Jose, no final dos anos 1960, para consolidar investimentos em imobiliário e, depois, com o crescimento de Silicon Valley, soube navegar a bolha das tecnológicas e a da internet. Havia muito que fazer e muito dinheiro a ganhar. "Trabalhei sempre muito com contratos para grandes empresas, para tecnológicas e para as grandes telecom." Passados uns anos, construía um centro comercial.

Quase no fim da conversa, Batista Vieira solta uma pergunta retórica. "Porque é que toda a gente quer vir para a América? Este país nunca chama ninguém, não pedem para as pessoas virem. Mas, o governo ajuda quem quer trabalhar. Temos oportunidades, aqui."

Ler mais

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

Premium

Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.